sábado, 19 de outubro de 2019

Vivências com Mário Cesariny e Fernando Grade: Poetas e pintores


      

Luís de Barreiros, TAVARES (2019), «Vivências com Mário Cesariny e Fernando Grade:  Poetas e pintores», in Nova Águia, nº 24, 2º semestre, 194-196.

                                        
                                                     Luís de Barreiros Tavares


Em memória do meu tio Jacinto Tavares, aguarelista de Alfama

Este breve texto relata algumas memórias da época em que me entreguei com mais fervor e mais explicitamente às artes plásticas (porque a arte, por vezes, também se dissimula e manifesta-se de modos inauditos, imperceptíveis e implícitos).
Conheci Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) numa das três exposições colectivas onde ele e eu participámos, um privilégio que muito me honra[1]. Foi na Perve Galeria Arte e Multimédia, em Alfama, entre 2001 e 2003, num encontro fugaz mas frutífero. Primeiro pude vê-lo e escutá-lo na formidável tertúlia poética que se realizou após a inauguração.
O poeta e também artista plástico Fernando Grade, que eu já conhecia há algum tempo, participou na mostra debatendo e «contracenando» com Cesariny questões de arte e poesia, numa gesta de discussão acalorada entre amigos. Pelo meio, Grade lia intensamente poemas seus e de outros, enquanto Cesariny, de pé, com um copo numa mão e um cigarro na outra, soprava a seu modo frases pensadas e pausadas, alternadas com outras intempestivas, incendiadas por vezes com palavras obscenas.
Mas antes da tertúlia foi a mostra e a vernissage, onde Grade dá sempre um ar da sua graça, sacando, num gesto mágico, os seus muito interessantes livros de poesia dos bolsos do forro da sua habitual gabardine (“edições Mic e Fernando Grade – colecção Salamandra”) e, ao mesmo tempo, coleccionando bolos e salgados para outros repastos.
No final, fomos no carro do Nuno Espinho (um dos directores da Perve), um pouco apertados no seu Renault ou Morris Mini  – salvo erro – rumo ao Cais do Sodré, para deixar o Cesariny e a sua irmã, senhora muito simpática, na estação de comboios onde seguiriam para Oeiras, residência de ambos. Portanto, éramos 5: o Nuno Espinho, o Grade, o Cesariny, a irmã e eu.
O Grade ia no banco da frente, ao lado do Espinho. Atrás, a irmã do Cesariny, se bem me lembro, entre mim e ele. Grade voltado para trás num torção difícil e nos solavancos de carro dos Bairros antigos conversava energicamente com Cesariny. Ambos gesticulavam, trocando recordações de lugares, pessoas, poetas , pintores, artistas, etc.
Devo confessar que me sentia um pouco perdido, mas entusiasmado, no meio daqueles personagens. Talvez para me pôr à vontade, o Cesariny passou furtivamente a mão pela minha cabeça. O Nuno Espinho conduzia atento a viatura ao mesmo tempo que acompanhava o momento escutando, falando um pouco e sorrindo. A conversa era de tal maneira turbulenta, intensa e interessante que, a páginas tantas, a irmã do Cesariny me segreda em tom um tanto confessional e provavelmente também para me tranquilizar: “… não ligue ao que dizem, são doidos …”
Foram realmente alguns minutos doidos ou loucos, mas loucos de valer e inesquecíveis, aqueles que decorreram naquela breve viagem entre o labiríntico Bairro antigo de mouros e judeus (Alfama) e o marítimo Cais do Sodré.
Cesariny, até avançada idade, foi um noctívago ou, pelo menos, um homem que saía à noite para beber uns copos: “…posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita…” (poema “Autobiografia”). Vi-o uma ou duas vezes entre amigos no mítico bar ou tasco do Bairro Alto: “Estádio”. Não me recordo se foi antes ou depois dos episódios de Alfama. Cesariny, na sua pose e rosto distintos, observava ao fundo do bar, em posição estratégica e atenta, a fauna de todas as idades…

Um poema e uma pintura de Cesariny:
Faz-se Luz
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca 

Mário Cesariny, in "Pena Capital" 



Mário Cesariny: Linha d’Água (Sem data)

Um poema e uma pintura de Grade:
UM BARCO DE NÉVOAS VISITOU-ME O SANGUE
(Arte Maior)

Um barco de névoas visitou-me o sangue
e (cada vez mais nocturno) deixou marcas:
são limos, corais, potros, mel de monarcas,
asas de gaivota com que danço o tango.

Corro nesse barco em noites de morango
ilhas onde o sémen se esconde nas arcas,
par’cendo maçãs velhas em vez de farpas,
ó poetas de Bocage a Anto.

Se o barco fugir, perdido no escuro
(o meu olhar seco em forma de pão duro),
venham outras sinas dar-me as mãos em fúria…

Vou ficar no mar, a ver moças de areia,
Coberto de sial nas mamas das sereias,
Farrapo de génio, de sol e luxúria…

Fernando Grade
(in ‘Os Melhores Sonetos de Fernando Grade’. Selecção de poemas por António Cândido Franco; quatro ilustrações do pintor Artur Bual; Livro comemorativo dos 30 anos de Vida Literária de Fernando Grade – 1962-1992. Edição nº. 72 de Edições Mic/Colecção Salamandra/16. Estoril – Novembro de 1992.)



Fernando Grade: Serigrafia – Sem título
Alverca do Ribatejo – 30/05/2018





[1] Perve Galeria - Arte e multimédia. Exposição "Sur-sensus" - Outubro/2001 – Lisboa. Exposição Colectiva de Arte Contemporânea – Perve Acervo 2001 (Edifício do Banco de Portugal – Leiria). Acervo 2002 (Mostra de Arte Contemporânea no Hospital Júlio de Matos – 2003). Nestas mostras tive também o privilégio de expor com Cruzeiro Seixas, Raul Perez , Mário Botas, Nadir Afonso, Malangatana, Artur Bual, Luís Feito (grupo EL Paso), Fernando Grade, Reinata, João Cutileiro, Figueiredo Sobral (meu amigo de há mais tempo), Chissano, Ídasse, entre muitos outros. Os curadores e organizadores destes eventos na Perve eram e são ainda o Carlos Cabral Nunes e o Nuno Espinho. Em 2013 inaugurou-se a Casa da Liberdade, espaço em homenagem a Mário Cesariny, em articulação com a Perve Galeria.


segunda-feira, 13 de maio de 2019

Pascoaes e Amadeo: Apontamentos sobre “O Pobre Tolo” e “O Pobre Louco”


                                                       Pascoaes e Amadeo   
                        Apontamentos sobre “O Pobre Tolo” e “O Pobre Louco”
                                                     Luís de Barreiros Tavares


"Pascoaes e Amadeo: Apontamentos sobre 'O Pobre Tolo' e 'O Pobre Louco'" – revista Nova Águia 23, pp. 198-202, Sintra, Zéfiro.

                                    Em memória das minhas primas, Raquel e Rita, que me ensinaram a viver no campo longos anos
                                                                                                                                                    (Rossio ao Sul do Tejo – Abrantes)
                                                                                                                                de poeta e de louco todos temos um pouco
                                                                                                                                                                                            Provérbio                                                          
a) É muito difícil fazer uma aproximação entre algumas pinturas e uma obra literária só porque abordam o tema da loucura e tendo títulos semelhantes: O Pobre Tolo (1923), de Teixeira de Pascoaes (com uma Elegia Satírica em forma poética); as duas pinturas “O Pobre Louco” (1914-15), de Amadeo de Souza-Cardoso. A reflexão sobre a semelhança entre poesia e pintura encontra-se já em Horácio. Ut pictura poesis: “Expressão usada por Horácio na sua Arte Poética (c. 20 a. C.), que significa ‘como a pintura, é a poesia’ e que, apesar de não possuir um significado estrutural, veio a ser interpretada como um princípio de similaridade entre a pintura e poesia. A afinidade entre as duas artes já fora mencionada por Plutarco, o qual atribuiu ao poeta Simónides de Céos o dito segundo o qual ‘a pintura é poesia calada e a poesia, pintura que fala’ (De gloria Atheniensium, 346 F). Na mesma obra (17 F – 18 a), Plutarco esclarece ainda que tal comparação se baseia no facto de pintura e poesia serem, supostamente, imitações da natureza, princípio este que se revelaria fulcral nas reformulações sofridas pela analogia entre ambas as artes ao longo da Antiguidade clássica” (Ut pictura poesis, por Carla Escarduça in Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia – texto em linha).



Fig. 1 “O Pobre Louco”, c.1914-15, óleo sobre cartão, 39,6 x 31,7 cm

b) É certo que Amadeo e Pascoaes afloram por vezes a loucura nas suas obras. Numa sessão “Cidades de Amadeo”, dia 24 de Novembro em Amarante, realizaram-se algumas conferências, entre as quais a de Celeste Natário, bastante conhecedora de Pascoaes, sobre a loucura no escritor e no pintor (grato a Marta Soares pela gentileza da informação). Segundo uma conversa prévia que tive com Celeste Natário, creio que a sua comunicação abordou o livro O Pobre Tolo, do poeta e escritor, e as duas pinturas intituladas “O Pobre Louco”, do pintor. Não tive ainda a oportunidade de ler o respectivo texto. Mas foi a partir daquela conversa sobre estas obras que recolhi, sob a forma de apontamentos, algumas leituras e reflexões sobre as mesmas.

c) Com efeito, talvez se possa fazer uma aproximação entre estas dramáticas pinturas e o extraordinário livro O Pobre Tolo. Escutemos José Tolentino Mendonça no seu Prefácio: “Data de Novembro de 1923 a escrita em prosa desta obra, que sete anos mais tarde, aparece rescrita poeticamente e designada como ‘elegia satírica’. Trata-se de um drama sonhado, uma ‘fantasia ao crepúsculo’ (p. 19) (crepúsculo também da consciência, da razão), que decorre no meio da ponte de S. Gonçalo, em Amarante. Tudo começa pela hesitação de alguém que atravessa a ponte (e o ‘meio’ de qualquer ponte não será isso, uma hesitação materializada?)” (p. 11). Concluindo: “Este texto sonâmbulo, uma espécie de meditação sobre que palavra poderia ser dita depois do fim das palavras, é ainda um ‘quase ver’. Mas, como atesta Pascoaes, ‘o quase é o bastante para inundar de trevas a paisagem’ (p. 131). Que trevas tão luminosas, quero dizer” (p. 16) (ver alínea f). 


Fig. 2 “O Pobre Louco”, c. 1914-15, óleo sobre cartão, 36,5 x 32 cm

d) Conterrâneos, de terras de Amarante, ambos sentiam um fascínio por aquelas paisagens minhotas, montanhosas e por vezes agrestes: “Eis-me de novo nas minhas montanhas, guardando as melhores lembranças da visita que vos fiz” (Carta de Amadeo a Robert Delaunay, 13 de Setembro de 1915). “Minha querida Lúcia: No momento em que te escrevo passa sobre estas montanhas uma formidável tempestade, vento, trovões, chuva. O aspecto é tenebroso […] Chove se Deus a dá e (?) das serras vae tudo de enxurro (Carta de Amadeo a Lucie Sousa Cardoso, Manhufe, 26 de Fevereiro de 1913).

e) Noutro enfoque, lembremos, por exemplo, algumas das extraordinárias passagens de Pascoaes sobre os “penedos”, em O Bailado: “Amei sempre os penedos – esses monstros de granito plantados na solidão dos montes. Cada um encerra o seu enigma e mostra, desde os séculos, a mesma cara bruta donde sai, ao bater-lhe o sol, o mesmo sentimento escuro; a hora efémera de sombra que baila em volta dele…” (p. 36); “A hora passa, mas o penedo conserva-se ainda  milhares de anos” (p. 45); “Os outeiros do outro lado são cortados a prumo sobre amplidões onde campeia a noite sempiterna (p. 57); “Eu amo os penedos e a sua hora efémera de sombra – principalmente a sua hora, o seu traço de união comigo” (p. 37)… Precisamente, há uma dimensão espiritual nesse “traço de união”, nesse momento abrupto da matéria, da rocha inerte que faz ver algo mais no e a partir do humano… “Ah! Se o homem fosse apenas homem, como é só pedra este penedo?!” (p. 36), etc…

f) Pascoaes voga por vezes  em atmosferas que, dir-se-ia, respiram certos estados alucinatórios, de visões ou mesmo de um certo delírio, talvez o seu lado místico. Nas palavras de Eduardo Lourenço “a sua poética romântica e mesmo hiper-romântica”, “a inspiração para ele é tudo” (ver Em Roda Livre - Eduardo Lourenço com Luís de Barreiros Tavares, p.36). No entanto, não sendo eu um entendido em  Pascoaes, creio ser seguro afirmar que a sua obra, pelo menos uma parte significativa, tem sobretudo uma forte carga telúrica: “E o pobre tolo / Vê diante dele a bruta realidade / Erguer-se em grandes píncaros serranos; / Bustos de terra e mármore, relevos / E relevos que aumentam de volume / até à forma enorme do trovão […] E, cá em baixo, o solo é de granito. / E é também uma estátua o pobre tolo; / Bronze de dor, sorrindo… e nos seus olhos / O choro é fina prata liquefeita.” (O Pobre Tolo, p. 195). Ver as anteriores alíneas d) e e). Os exemplos seriam intermináveis. Talvez esta perspectiva vá mais de acordo com a leitura de Luísa Borges, outra conhecedora de Pascoaes, com quem troquei breves impressões: “nada a ver com 'inspiração', mediunidade, loucura, possessão…”. Com loucura, sim…

g) Associado a estas paisagens crepusculares, lunares, penumbráticas e por vezes desoladoras está o louco, ou mais propriamente o personagem de O Pobre Tolo: “É o espectro à luz da lua” (p. 146); “O tolo é o espectro de uma árvore” (expressão várias vezes repetida, p. 139)… Mas n’O Pobre Tolo havia a persistência na bela ponte granítica de São Gonçalo, em Amarante: “Lá está no meio da ponte a ouvir as vozes do Tâmega que emudecem no mês de Agosto – e a contemplar uma paisagem de inverno: uma escultura em antigo bronze com verdete” (p. 146).


Fig. 3 “O Rata”, c. 1914-15, óleo sobre cartão, 38,5 x 37 cm

h) Detenhamo-nos, para já, no quadro de Amadeo: “O Rata” (1914-1915 – exposto na exposição Porto – Lisboa, 1916). Esta pintura inspira-se num curioso personagem real de Amarante, que teria, talvez, alguma coisa a ver com a loucura.  Provavelmente Pascoaes tê-lo-á conhecido. Maria Filomena Molder faz alusão a esta figura meio louca, ou mesmo louca.  É um quadro da mesma época das duas pinturas “O Pobre Louco”. “O Rata seria, segundo informação do Professor António Cardoso, a alcunha de um pobre em Amarante” (Catálogo Raisonné, p. 282). Seria provavelmente aquele que ratava os restos de comida, côdeas, etc., com modos descuidados, famintos, tresloucados, por assim dizer. Dir-se-ia a mesma figura representada nas pinturas dos dois loucos.

i) As alcunhas também são habituais em O Pobre Tolo, fazendo ecoar personagens à margem como o Rata: “Passa a Mocha, de Gatão. Agarrada a um pau, arrasta a sua velhice de porta em porta, a mendigar” (p. 32); “A loucura e o bom senso, a magreza e a gordura – o pobre tolo e o Preguiça que finge de maluco para ganhar a sua vida. Lá está, no meio da ponte, a fazer pantominas, trejeitos e caretas. Estende o chapéu aos transeuntes e ostenta, sobre os ombros de gigante, um perfeito busto romano” (p. 49); “passa o Poupa, que tresanda”; “o Bezerra atrás da vaca”; “… o rouco Micaelo, a bater, furioso como um doido, na pele inofensiva duma pobre cabra que já não existe” (p. 66), etc. “As alcunhas, caricaturas de homens e mulheres, vão passando na ponte de S. Gonçalo, sob o fantasma de uma Alcunha, misteriosa e tremenda, que infunde medo às criancinhas – o Papão” (p. 67).

j) Retomando Amadeo. Veja-se “A bruxa louca – cabeça” (1914), “Tristezas – cabeça” (1914-1915), “Luto –a cabeça – boquilha” (1914-1915). Estas três pinturas e “O Rata” foram expostas no Salão de Festas do Jardim Passos Manoel no Porto (1 a 12 de Novembro de 1916), célebre exposição que se repetiu em Lisboa, na Liga Naval Portuguesa (de 4 a 18 de Dezembro). Uma das duas pinturas intituladas “O Pobre Louco” esteve patente nesta exposição (grato pela informação de Marta Soares; conforme me disse: o “’Catálogo Amadeo, 2016–1916 Porto–Lisboa’ comprova-o”).

l) Não há elementos comprovativos de uma visita de Pascoaes à exposição de Amadeo no Porto  (grato a Marta Soares pela confirmação). Meu querido Amadeo Cardoso: Soube agora da estúpida agressão de que foi víctima. É com a maior indignação que o abraço e lhe desejo rápida cura. Seu muito amigo e admirador, Teixeira de Pascoaes.” “Muito e muito obrigado pelo seu bilhete e pelas reproduções de alguns dos seus mais belos e estranhos trabalhos de superior artista [Edição de autor publicada aquando da referida exposição – 12 reproduções, ver m)]. Também o felicito pelo êxito da sua exposição, que tem sido grande, segundo me constou. Desejo-lhe o maior sucesso, o que será pura justiça e merecidíssima consagração ao seu talento, tão vivo, tão original e ansioso de novas criações. Não ando bem de saúde. Mas hei-de fazer o possível para visitar a sua exposição, esse grande acontecimento artístico“ (Teixeira de Pascoaes, em Amadeo – Fotobiografia, pp. 162 e 163).


Fig. 4 “Cabeça Negra”, 1914, óleo sobre cartão, 23,7 x 18,5 cm

m) Mas na Edição das 12 reproduções consta “Cabeça Negra” (grato a Marta Soares pela indicação). Diríamos que há duas séries ou duas linhagens plásticas nestas cabeças tristes de Amadeo. A pintura “Cabeça Negra” e “A bruxa louca – cabeça” (j)), entre muitas outras, pertencem a uma das séries (1ª série). As pinturas “O Pobre Louco” (tal como “O Rata”, “Tristezas – cabeça” –  ver h), j) ) pertencem à outra série (2ª), com diferentes traços pictóricos relativamente à 1ª. Estes quadros são de dimensões ligeiramente maiores. Ambas as séries partilham a expressão da pobreza e da loucura. Apesar das diferenças picturais, elas cruzam-se nos temas e por vezes plasticamente. Chamaríamos ao conjunto das duas séries cabeças pobres. Estudámos a primeira série no capítulo “Cabeças… Paisagens…” (Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura, pp. 55-58). Assim, as duas pinturas “O Pobre Louco” fazem mais sentido e falam melhor no conjunto dessas cabeças pobres.

n) A força expressiva plástica na sua elementaridade pictórica propositada, aliada a um cromatismo austero e sombrio, dão força ao mundo interior dos personagens ou daquelas cabeças aparentemente fechadas mas abertas num mundo interior de luta pela vida, na pobreza, pela sobrevivência, enfim, por alguma luz, podendo no entanto conduzir ao vazio da loucura. Observem-se os “dois pobres loucos” (Figs. 1 e 2), um olhando para o alto, de olhos abertos, como que cegos, mas parecendo olhar o exterior; o outro, cabisbaixo de olhos fechados, como que olhando para o interior, mas na solidão e desolação do espaço exterior que o rodeia, um “malucar sozinho com as cousas” (O Pobre Tolo, p. 119). Ou um vogar “sonâmbulo” (ver alínea c – Tolentino Mendonça). No entanto, são dois olhares que, no seu excesso, se traduzem um no outro. Enfim, “O Pobre Louco”, este pobre louco em duas versões é, ao mesmo tempo e paradoxalmente, o mesmo e o outro, um e dois… Gestos e posturas um tanto contemplativos, meditativos? Evocando de algum modo, remotamente – e talvez subtilmente – as pinturas icónicas dos místicos e dos santos? Porém, nota bene, com um certo desacerto: o dos traços em bruto loucura…

o) Mas todas aquelas pinturas das duas séries reflectem (ver m)), em tons e expressões sombrios, quer a pobreza, quer a vida campesina e agreste com uma grande densidade plástica apesar do seu ar tosco. Os verdes, castanhos, alguns azuis por vezes, os tons sombrios evocam de alguma maneira as paisagens agrestes e o conturbado mundo interior, em eco às vivências de O Pobre Tolo, em duas amplas dimensões: telúrica e espiritual. Poderíamos pensar aqui no extraordinário poema “O Doido e a Morte”, de Pascoaes.

p) Sabemos que nestes meios o “louco” vagante, ou vagueante, digamos, é uma figura que se salienta a vários títulos. Ele acaba por ser um personagem relevante, fazendo a diferença. E, “de poeta e de louco todos temos um pouco”, como diz o provérbio em epígrafe. O louco talvez seja, afinal, aquele que paradoxalmente está um pouco demasiado fora e um pouco demasiado dentro. O louco que vagueia pelos povoados, povoações, arredores descampados e cidades como Amarante nas primeiras décadas do século XX, é pobre, um miserável, no verdadeiro sentido da palavra (do latim: digno de piedade, de compaixão, até por vezes ao patético, etc.)…

q) Muito provavelmente Pascoaes terá visto várias “cabeças pobres” de Amadeo: “Como Amadeo e Pascoaes se visitavam com alguma frequência, é muito provável que Pascoaes tivesse visto esses loucos no atelier de Amadeo. Foram pintados em Manhufe durante a guerra” (grato a Marta Soares pela nota enviada). “Esses loucos” tê-lo-ão inspirado na escrita de O Pobre Tolo alguns anos mais tarde?

Referências
Amadeo de Souza-Cardoso, Fotobiografia, Margarida Cunha Belém e Mar­garida
Magalhães Ramalho, Dir. Joaquim Vieira, Lisboa, Temas e Debates, 2009.
Amadeo de Souza-Cardoso, Catálogo Raisonné Pintura, 2ª edição, Lisboa, Sistema Solar (Documenta), Fundação Calouste Gulbenkian, 2016.
Amadeo Souza-Cardoso, 2016–1916 Porto–Lisboa, Porto, co-edição Museu
Nacional de Soares dos Reis, 2016 [Catálogo da expo­sição].
Eduardo Lourenço com Luís de Barreiros Tavares, Em Roda Livre, Lisboa e Linda-a-Velha, MIL e Nova Águia, DG Edições, Março 2016.
Teixeira de Pascoaes, Antologia Poética, Lisboa, Guimarães ed., 1962.
Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987.
Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo, Prefácio de José Tolentino Mendonça, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000.


sexta-feira, 22 de março de 2019

Puppy, de Jeff Koons – Um objecto mais propriamente, reificadamente, de Disneylândia...


                                                              Puppy, de Jeff Koons


"24. Esta banalização traduz-se num meio-termo e num meias-tintas mais para distrair. Ficamos embasbacados e divertidos como num par­que de diversões transposto de uma Disneylândia. Por exemplo, Puppy de Jeff Koons. Obra pletórica – como muitas outras dele de muitos outros artistas – inflada, descomunal, mais parecendo um brinquedo elevado a enormes dimensões, ou como alguns outros objectos espelhados construí­dos com bolas coloridas ou prateadas semelhantes às de uma árvore de Natal."

"25. Mas observemos o gigantesco Puppy (1992) de Jeff Koons, enorme escultura com flores instalada no “espaço exterior” do Museu Guggenheim de Bilbao. Na realidade ela representa um Terrier West Highland, um cão de raça minúscula. Embora esta peça tivesse origem no seu protesto por não integrar a Documenta de Kassel em 1992, considerando consequen­temente esta cidade como uma Disneylândia, do nosso ponto de vista a obra não deixa de ser – no seu pretenso puro espelhismo crítico que acaba por ser acrítico por não vibrar a distância de uma reflexão mais aprofun­dada – um objecto mais propriamente, reificadamente, de Disneylândia. Joana Vasconcelos recai por vezes um pouco nisso, num kitsch assumi­do que se deixa capturar no seu mero reflexo, como em Koons e muitos outros."

Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Prefácio de José Martinho, Ed. MIL, Lisboa, 2017, p. 86.



                                   O cacilheiro de Joana Vasconcelos Bienal de Veneza, 2013)

quinta-feira, 21 de março de 2019

Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas)


excertos da parte II: arte, ressonâncias modernas e contemporâneas

19. “O Cego” de Canetti. Extrapolando um pouco, não poderemos en­contrar na seguinte passagem de Elias Canetti alguma analogia com este processo? “O cego não crê em nada que não tenha sido fotografado. […] o seu lema é: ver essas fotos! Assim ele sabe o que na realidade viu, sustém-no na mão, pode pôr o dedo em cima até abrir tranquilamente os olhos em vez de dispersá-los antes sem nenhum sentido.”

20. […] “Ao fim se recompensa a imperturbável cegueira de toda uma via­gem. Abre os olhos, abre-os, agora, se podes ver, aí está, sim, aí estiveste, agora… a demonstrá-lo!” (Elias Canetti, “El ciego” in Los cinquenta caracteres – (el testigo oidor), p. 37).

21. Pois tal como o turista cego de Canetti, paradoxalmente o especta­dor da obra de arte contemporânea está e não está lá, no espaço expositivo. É que quando chega, ou quando está, a tentação é a de registar automa­ticamente a obra com uma certa condição virtual da sua ausência tornada presente no próprio registo a ver depois. Em casa ou noutro lugar ele vai contemplá-la ainda que fugazmente ou mais detidamente mas já na escala reduzida da sua reprodução e recorte reenquadrante. Fora, ele partilha essa ausência numa rememoração mediante o medium técnico que institui como um dentro pelo contraponto mental de uma memória fotográfica, digital, desdobrada. Mas ainda que não a registe ele pode recordá-la e relembrar-se dela num “sítio” da Net. Pois a obra é assegurada e garantida nessa sua con­dição.


Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Prefácio de José Martinho, Ed. MIL, Lisboa, 2017, pp. 84 e 85.



quarta-feira, 20 de março de 2019

Citações do livro "Amadeo de Souza-Cardoso: A Força da Pintura — Arte: Ressonâncias Modernas e Contemporâneas"




Trechos da Parte II: "Arte: Ressonâncias Modernas e Contemporâneas".

"3. A fácil acessibilidade da Web (Teia) traz uma zona e tempo de conforto aparentes no caso de recairmos numa dependência ['As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha' (...) Zygmunt Bauman]. Supomo-nos livres nestas movimentações permanentes com meros 'cliques'. Mas ficamos confinados na medida em que encontramos sérias dificuldades em nos entregarmos a outras actividades ou demoras fora disso. O online produz essa tentação de circulação constante e respectiva dificuldade em sair. Em sair, precisamente. Daí a clausura, o encapsulamento, o dentro em que se tornou aquele fora pretensamente evasivo… flashs contínuos, planos que se sobrepõem a uma velocidade, a da luz, que nos faz acompanhar esquecendo essa sucessão…"

Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Prefácio de José Martinho, Ed. MIL, Lisboa, 2017, p. 89.



15. Quantas vezes uma fotografia de divulgação – catálogo, revista, jornal – abrange o próprio contexto envolvente da sala como uma segunda composição enquadrante? Novo passe-partout – da respectiva composição do quadro ou do objecto artístico? Hoje quase sistematicamente. A obra já não é só o que lá está no espaço de exposição “real” mas também e muito significativamente a sua própria conversão no frame em escala fotográfica no jornal, revista, catálogo ou numa reportagem vídeo televisiva e/ou digitalmente visionável. Uma expressão que se ajusta aqui muito bem: ”… estar a trabalhar para a fotografia…”. Ou mesmo ao ponto de uma lógica de “o ficar bem na fotografia”.

Idem, pp. 83 e 84.

"6. [...] com a banalização e institucionalização (museu) desse dispositivo envolvente da arquitectura e do design da sala, quer dizer, com essa exteriorização, operou-se uma interiorização. O mesmo acontecendo relativamente à pintura. O espectador interiorizou esse processo de exposição. Este tornou-se um a priori. O passe-partout das paredes e das páginas brancas do catálogo tornou-se um dado adquirido. A obra já conta e acomoda-se com esse enquadramento que é não só uma espécie de passe-partout mas também um partis-pris – algo que já pré-concebido, pré-conceptualizado – com a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. É que a fotografia da obra sobre-enquadra-a e redobra-a: não só no seu recorte, no seu formato material, mas também no enfoque do enquadramento espacial, de uma forma hiper-estética à maneira por vezes de uma cosmética. Dá-se uma dupla distanciação formatando a obra apenas como imagem. Imagem da obra ou obra tornada pura imagem? Este devir transparente da mostra, da exposição, na sua banalização sobre-expositiva retirou a opacidade e a densidade da obra."

Idem, pp. 80 e 81. 

sábado, 27 de outubro de 2018

Pessoa na poesia de Manoel Tavares Rodrigues-Leal

              
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a caes ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega… 
Excerto de um poema de Álvaro de Campos – c. 1914                                           




Luís de Barreiros Tavares, “Pessoa na Poesia de Manoel Tavares Rodrigues-Leal”Revista Nova Águia, nº 22, 2º semestre, 2017,  pp. 212-215, Sintra, Zéfiro. [com ligeira revisão]






Fernando Pessoa - desenho de Luís de Barreiros Tavares - pincel, tinta da china sobre papel Canson Ingres Vidalon - 2010





                                                                             
                                                                                                         Isento, Pessoa passa                                                                                                                
                                                                                                                                         M.T.R.-Leal[1]

                             Meu amigo Fernando Pessoa, apesar do luar de brilhos, repousa em paz.
                             Companheiro ímpar, quantas intimidades intemporais as tive. Como floresce
                             a foz daquele rio manso que se chama talento e giza o génio, a voz que jamais esquece.

                                                                                                                    M.T.R.-Leal[2]

Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016) escreveu dezenas de belíssimos poemas dedicados a
Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, a maior parte deles ainda inéditos. Alguns foram já publicados nas revistas Nova Águia e Caliban. É certo que nas últimas fases da sua obra, e no fim da sua vida, se afastou do “supra-Camões”[3]. Todavia, não deixa de reconhecer “o peso de Fernando Pessoa sobre qualquer poeta português, ainda que eventualmente grande”[4]. E não terá Pessoa, por seu turno, pretendido libertar-se do peso do grande poeta e autor de Os Lusíadas, aludindo-se daquele modo?

Este breve ensaio reúne alguns tópicos sobre vários poemas inéditos de Rodrigues-Leal dedicados a Fernando Pessoa nas décadas de 70-80-90 do século passado. Poeta de linhagem e influência pessoanas, especialmente quando retratou em versos , inigualavelmente, o poeta de "Ode Marítima" e de "Tabacaria". Escutemos, se assim se pode dizer, este poema inicial, pedra de toque deste estudo “(in memoriam de Fernando Pessoa)”:
                                                                 

Silhueta negra inconsútil
Aí vai ele descendo o Chiado
Não há passo sem passado
Aí vais tu Fernando absolutamente inútil
Verme irradiando poesia
Somando a um dia mais um dia
Talvez fútil          
Mas um verme sob a lua danado

És poeta
Não… viajas,
Sereno ser jamais,
Apenas versos contumazes
De um sol de profeta
Rindo rindo       risos limpos       e triviais…[5]

Neste e em quase todos os poemas evocando Pessoa, Manoel Tavares Rodrigues-Leal cruza três dimensões do grande poeta. O homem citadino e passante do Chiado, Baixa e Rossio, o funcionário e o poeta ou escritor. Estas facetas ou dimensões cruzam-se. Ou melhor, cada uma reflecte, transpirando e transfluindo numa certa osmose a atmosfera das outras.
“Silhueta negra inconsútil / Aí vai ele descendo o Chiado”. M.T.R.-Leal consegue captar a atmosfera das célebres fotografias de Pessoa descendo o Chiado. Assim, quase visionamos imaginariamente o modo de andar de Pessoa. “Não há passo sem passado”. O passo adiante só o é com o passado (do) passo dado. Há, inclusivamente, uma série de cinco fotografias onde Pessoa – na Baixa, Chiado ou Rossio – caminha com o seu amigo de Orpheu Augusto Ferreira Gomes. Recentemente montou-se uma sequência destas imagens em modo de pequeno filme onde os passos do Poeta são reconstituídos. Estas sequências mostram como Pessoa apreciava a captação dos momentos da marcha.
Dir-se-ia uma certa relação da escrita com o caminhar. Este poema de Rodrigues-Leal descreve, nos movimentos das palavras em versos, o movimento sincopado daquela figura estilizada e inteiriça (“inconsútil”).  Ele ecoa os passos eternizados naquelas imagens fotográficas.
Eis um outro poema confluindo o caminhar, o exterior citadino de Lisboa e, de algum modo, a meditação, ou seja, a preparação para a escrita:

Pessoa assinava sua solidão
quando descia o Chiado, suportava a imagem de um amigo,
quando o futuro premonia [6] e dialogava, mentalmente, com Mário 
[7].
Quando um vento gelado soprava e ele compunha poemas
imerso em álcool e azuis secretos, ele ilibado do furor e fogo antigo
dos deuses, senhor da assimetria da loucura, servo do teorema.
E quando o rubro sol se despedia, ele jazia, bebedor e sábio.
[8]

Ou ainda este breve poema intitulado “Fernando Pessoa”:
o suor do percurso de “Pessoa”
cria beleza
gera símbolos de angústia       a frescura de Lisboa
lendo ruas ilesas     rectas
ilhas dispersas [9]                                                                  

Retomando o poema inicial: “Silhueta negra inconsútil / Aí vai ele descendo o Chiado”. Silhueta ou imagem recortada, como uma letra ou figura emergente das folhas pautadas, lembrando o semi-heterónimo Bernardo Soares, simples ajudante de guarda-livros, criado por ele: Pessoa. No Livro do Desassossego, Soares descreve a sua vida na cidade de Lisboa e na Rua dos Douradores, de alguma maneira em cumplicidade de espelhos e de alma com o ortónimo Fernando Pessoa[10]. Pessoa trabalhou como secretário, tradutor e correspondente estrangeiro de escritórios comerciais, desempenhando funções próximas das de Bernardo Soares. Conheceram-se numa pequena casa de pasto frequentada por ambos: "Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."[11]

“Aí vais tu Fernando absolutamente inútil / Verme irradiando poesia / Somando a um dia mais um dia”. Estes três versos revelam de algum modo a atmosfera do tédio. O indefinido tédio onde por vezes se divisa uma estranha beleza descrita e pensada por Bernardo Soares no Livro do Desassossego:

Ninguém ainda definiu, com linguagem com que compreendesse quem o não tivesse experimentado, o que é o tédio.
[…]
E é isto que eu sinto ante a beleza plácida desta tarde que finda imperecivelmente. Olho o céu alto e claro, onde coisas vagas, róseas, como sombras de nuvens, são uma penugem impalpável de uma vida alada e longínqua. Baixo os olhos sobre o rio, onde a água, não mais que levemente trémula, é de um azul que parece espelhado de um céu mais profundo.[12]

Escutemos Álvaro de Campos:
O Chiado sabe-me a açorda.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo
Mas nem ali há universo.
O tédio persiste como uma mão regando no escuro.[13]

Em eco a Bernardo Soares e a Álvaro de Campos, leia-se este curto poema “(Em memória de Fernando Pessoa)”, de 1992:

a sua figura frágil e fugidia
o tédio e a tarde (descendo o Chiado)
morrendo o dia
de tão alado o povoava e o bebia
[14]

De novo o poema inicial. “Verme irradiando poesia […] Mas um verme sob a lua danado”. A poesia parece aqui vingar, votada à imensidão da noite. Ela entrega-se ao luar e a essa noite imensa, noite que tanto inspirou e povoou as páginas do Livro do Desassossego:

Lento, no luar lá fora da noite lenta, o vento agita coisas que fazem sombra a mexer. Não é talvez senão a roupa que deixaram estendida no andar mais alto, mas a sombra, em si, não conhece camisas e flutua impalpável num acordo mudo com tudo.[15]

Mas também à luz solar, a uma certa irreverência e afirmação da vida. Dir-se-ia mesmo uma celebração da vida ou alegria de viver:

És poeta
Não… viajas
[16],
Sereno ser jamais,
Apenas versos contumazes
De um sol de profeta
Rindo rindo       risos limpos       e triviais…     
E a celebração da manhã e luz de Lisboa, neste passo de um outro poema de 1976:
Afinal, Pessoa era imponderável, escrevia e a sua melancolia,
ao amanhecer era água(ardente).
e todo o oiro do poema se escoa em terrestres ângulos.
[17]

O poema, os poemas evocam Pessoa, Soares, Campos...? O mais importante aqui é a intuição e captação das atmosferas vivenciais de Pessoa (o homem, o poeta, o funcionário e os seus vários outros[18]…), o espírito de Pessoa na sua heterogeneidade.  
Intuição e captação de M.T.R.-Leal  nestes e noutros belíssimos poemas.
.
Concluindo, escutemos mais um poema. Evocação, retrato poemático de Pessoa, sem que deixe de manifestar-se a singularidade inconfundível, a voz pessoal do poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal:

Como Pessoa passeava no Chiado
Seu engenho, seu génio, seu ócio, rosto debruçado sobre.
Assim passeio,“Lisbon Revisited”
[19], lírico e tão pensado, pobre mas doado
E como Pessoa, fingidor do fingimento mais pungente,
E sofro, como tu, mestre, o caos, o “descalabro a ócio e estrelas”
[20], esse pensamento urgente.
A pensar o pensamento que não há, habito o irreal umbigo do real,
Que é rigoroso retrato de mim-mesmo, imóvel e transeunte.
Fernando Pessoa e Manoel Tavares Rodrigues-Leal, ambos irmãos, ambos gente,
Mas naufragados: assisto-vos como poetas coincidentes, como poentes.
[21]


Post Scriptum

Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, trecho 120




Luís de Barreiros Tavares 


Referências
Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural – a ficção dos heterónimos, introdução, organização e notas António Quadros, Europa-América, Lisboa, 1986.
Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas e páginas autobiográficas, introdução, organização e notas de António Quadros, Europa-América, Lisboa, 1986.
Fernando Pessoa, Álvaro de Campos - Livro de Versos, edição crítica, introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes, Estampa, Lisboa, 1993. 

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, composto por Bernardo Soares, org. Richard Zenith, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.
Luís de Barreiros Tavares, «Almada Negreiros e os Retratos de Fernando Pessoa», Revista Nova Águia, nº 21, 1º semestre, 2018, pp. 140-144, Zéfiro. 

Manoel Tavares Rodrigues-Leal: cadernos de inéditos: Limae Labor (1973-75); Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX) (1976); Poemana (1976); caderno sem título (1976); A prostituição dócil (1985); (Des)construção da fala [var. “do canto”] (1992); O uso do cio (1992). 






[1] Primeiro verso de um poema ( “Ausência de Fernando Pessoa” – 19-8-1975), do caderno Limae Labor.
[2] Belas – 19-9-76. Do caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX). Um dos cadernos escritos na Casa de saúde de Belas: “Belas, casa de saúde mental; manicómio para gente fina; uma duquesa iria para ali” (M.T.R.-Leal).
[3] Cf. Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural – a ficção dos heterónimos, p. 35. No início do  caderno Limae Labor (1973-75) encontra-se a seguinte inscrição: “Em memória de Fernando Pessoa (Supra-Camões)”.
[4] Numa breve entrevista registada em vídeo (2014).
[5] Lx. 30-11-85 – do caderno A prostituição dócil.
[6] Para ser breve, “premonia” parece aqui uma liberdade poética, de “premonição”.
[7] Referindo-se a Mário de Sá-Carneiro
[8] Belas – 21-9-76.  Do caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX).
[9] Lx.ª 18-11-92 – do caderno (Des)construção da fala [var. “do canto”].
[10] Não abordarei aqui a orto-heteronímia de Pessoa. A este propósito leia-se a carta a Adolfo Casais Monteiro (13-01-1935), onde Pessoa descreve a génese dos heterónimos Caeiro, Campos e Reis (14-03-1914 – “foi o dia triunfal da minha vida”), e chega mesmo a considerar Caeiro seu mestre (Escritos Íntimos, Cartas e páginas autobiográficas). Vj. Luís de Barreiros Tavares, «Almada Negreiros e os Retratos de Fernando Pessoa», Revista Nova Águia, nº 21. 
[11] Cf. a mesma carta a Adolfo Casais Monteiro (13-01-1935). Vj. Prefácio de Pessoa ao Livro do Desassossego.
[12] Livro do Desassossego, trecho 381.
[13] Fernando Pessoa, Álvaro de Campos - Livro de Versos, 1993,  p. 379. No “Arquivo Pessoa” online (Obra édita) coloca-se a seguinte interrogação relativamente à autoria deste poema: “Bernardo Soares?”. “(O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos […])” (carta a Adolfo Casais Monteiro – 13-01-1935; ver notas 10 e 11).
[14] Lx. 29-2-92 – do caderno O uso do cio.
[15] LdD, trecho 151.
[16] Talvez em alusão a uma outra carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 20-1-1935 (a que se seguiu à anterior carta aqui referida – ver notas 10, 11 e 13): “O que sou essencialmente – por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja – é dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva a que aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterónimos, conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, VIAJO.
[17] Lx. 17-3-76 – do caderno Poemana.
[18] Os heterónimos Caeiro, Campos e Reis acompanham-no. Eles povoam o universo mental e vivencial do seu dia-a-dia e na sua Lisboa da Baixa, Rossio e Chiado, outro seu mundo paralelo de gestação da escrita: Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve” (carta a Adolfo Casais Monteiro – 13-01-1935; ver notas 10, 11 e 13 ).
[19] Evocando um poema de Álvaro de Campos.
[20] Evocando um outro poema de Campos.
[21] Lx. 28-8-76 – de um caderno sem título.







Fernando Pessoa - desenho de Luís de Barreiros Tavares - pincel, tinta da china sobre papel Canson Ingres Vidalon - 2010


"Pessoa, persona, pessoa como eu" – Filme documentário – Curta metragem

  Filme documentário (c 25 min): "Pessoa, persona, pessoa como eu". Um olhar sobre Fernando Pessoa – por Manoel Tavares Rodrigues-...