Da travessia do espírito
Luís de Barreiros Tavares
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e
soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma
vivente.” (Génesis, 2:7 – trad.
João Ferreira de Almeida)
Trata-se aqui de breves notas livres, sem aparatos bibliográficos,
sem aprofundamento de análises nem rebuscamentos textuais. Apenas um esboço. Elas reflectem sobre o espírito
e uma expressão que me surgiu a partir da leitura de algumas passagens da
Bíblia: a travessia do espírito. Com um maior desenvolvimento, questões
como Espírito Santo, Trindade, entre outas, seriam pensadas.
Embora de modo subliminar, ou não explicitamente, elas já perpassem, atravessem
este curto texto.
De entre aquelas passagens escolhi apenas duas de Paulo de
Tarso. Ocorreram, assim, alguns exercícios, talvez lúdicos, de linguagem, sobre
o suposto movimento daquilo a que, por indagação e pensamento, chamamos espírito.
A palavra “espírito” provém etimologicamente – no hebraico
(ruah), no grego (pneuma) e no latim (spiritus, spiro,
de onde deriva “espírito” em português) – de sopro, vento, hálito, ar,
respiração. O ar atravessa o tempo e é intemporal. Ele atravessa-nos.
Experienciamo-lo hoje de modo problemático e novo. Através, precisamente, dos
tempos estranhos da pandemia Covid 19. Aqui, na perspectiva assustadora do medo
insolitamente instilado e “mascarado” do ar que respiramos.
E na Bíblia há várias passagens que ilustram a travessia
do espírito. Daqui, desta expressão, pode
depreender-se que há duas vertentes. 1 – A travessia
que se faz no espírito, a travessia que passa através do espírito; que
atravessa o espírito. 2 – A travessia que o espírito faz passando,
atravessando; através de um corpo, por exemplo. Por outras palavras e
simplificando. 1. Por um lado, o que passa através dele (espírito). 2.
Por outro, quando ele mesmo (o espírito) passa através de algo.
E, no entanto,
dir-se-ia que as duas vertentes se relacionam, ou se cruzam. Parecem
confundir-se ou confundir. Retomando a expressão: a travessia do
espírito. A contracção da proposição “de” com o artigo definido “o”.
Simplificando, foquemo-nos no de: genitivo objectivo e genitivo subjectivo.
Poderemos então perspectivar o seguinte. 1. “Travessia do espírito”: a
travessia de algo que atravessa, (se) passa no – através do –
espírito (genitivo objectivo) – o espírito é o objecto, o alvo. 2. “Travessia do
espírito”: a travessia que o espírito faz, atravessando, passando por/sobre ou
através de algo (genitivo subjectivo) – o espírito exerce a acção como sujeito.
Tarefa
de difícil explicitação neste contexto. Dir-se-ia não caber num quadro de
referências. E até aí compreende-se. Talvez não seja apenas dialéctica. É da
ordem do mistério? Apenas se consegue uma aproximação. É o que tentamos.
Escutemos as palavras de
Paulo em dois passos. São dois exemplos que se aplicam – ainda numa primeira
análise, respectivamente – aos dois pontos acima apresentados: 1. “Aquele que
ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais através
do espírito que habita em vós.” (Carta aos Romanos, 8); 2. “Paulo
apenas disse esta frase: de maneira bonita falou o
espírito santo, através do profeta Isaías […]” (Actos dos Apóstolos,
28).[1]
Sem complicar mais,
façamos uma segunda análise. Assim, o espantoso é que, no ponto 1, o através
do espírito tanto poderá reportar-se a algo que atravessa o espírito, como ao
próprio espírito que atravessa. Encontramos um outro desdobramento, se assim se
pode dizer, no ponto 2. Pois, se atentarmos bem, “falou o espírito santo,
através do profeta Isaías” tanto poderá reportar-se ao espírito santo que falou
através do profeta Isaías, como ao próprio profeta Isaías que falou através do
espírito santo. Talvez isto não seja apenas dialéctica.
Para terminar, e
deixando em aberto, limito-me a citar os dois primeiros passos do princípio do
Génesis: “1. No princípio, Deus criou os céus e a terra. 2. A terra era informe
e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a
superfície das águas.” (Génesis, 1: 1, 2)[2]
[1] BÍBLIA, trad. do
texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. II: Novo
Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Quetzal, Lisboa, 2017. Itálicos
nossos.
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