domingo, 27 de março de 2022

“Da travessia do espírito”, Nova Águia 29, 1º semestre, Março de 2022

 

 

 

                                          Da travessia do espírito

                                                       Luís de Barreiros Tavares

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.”   (Génesis, 2:7 – trad. João Ferreira de Almeida)

Trata-se aqui de breves notas livres, sem aparatos bibliográficos, sem aprofundamento de análises nem rebuscamentos textuais.  Apenas um esboço. Elas reflectem sobre o espírito e uma expressão que me surgiu a partir da leitura de algumas passagens da Bíblia: a travessia do espírito. Com um maior desenvolvimento, questões como Espírito Santo, Trindade, entre outas, seriam pensadas. Embora de modo subliminar, ou não explicitamente, elas já perpassem, atravessem este curto texto.

De entre aquelas passagens escolhi apenas duas de Paulo de Tarso. Ocorreram, assim, alguns exercícios, talvez lúdicos, de linguagem, sobre o suposto movimento daquilo a que, por indagação e pensamento, chamamos espírito.

A palavra “espírito” provém etimologicamente – no hebraico (ruah), no grego (pneuma) e no latim (spiritus, spiro, de onde deriva “espírito” em português) – de sopro, vento, hálito, ar, respiração. O ar atravessa o tempo e é intemporal. Ele atravessa-nos. Experienciamo-lo hoje de modo problemático e novo. Através, precisamente, dos tempos estranhos da pandemia Covid 19. Aqui, na perspectiva assustadora do medo insolitamente instilado e “mascarado” do ar que respiramos.

E na Bíblia há várias passagens que ilustram a travessia do espírito. Daqui, desta expressão, pode depreender-se que há duas vertentes. 1 – A travessia que se faz no espírito, a travessia que passa através do espírito; que atravessa o espírito. 2 – A travessia que o espírito faz passando, atravessando; através de um corpo, por exemplo. Por outras palavras e simplificando. 1. Por um lado, o que passa através dele (espírito). 2. Por outro, quando ele mesmo (o espírito) passa através de algo.

E, no entanto, dir-se-ia que as duas vertentes se relacionam, ou se cruzam. Parecem confundir-se ou confundir. Retomando a expressão: a travessia do espírito. A contracção da proposição “de” com o artigo definido “o”. Simplificando, foquemo-nos no de: genitivo objectivo e genitivo subjectivo. Poderemos então perspectivar o seguinte. 1. “Travessia do espírito”: a travessia de algo que atravessa, (se) passa noatravés do – espírito (genitivo objectivo) – o espírito é o objecto, o alvo. 2. “Travessia do espírito”: a travessia que o espírito faz, atravessando, passando por/sobre ou através de algo (genitivo subjectivo) – o espírito exerce a acção como sujeito.

Tarefa de difícil explicitação neste contexto. Dir-se-ia não caber num quadro de referências. E até aí compreende-se. Talvez não seja apenas dialéctica. É da ordem do mistério? Apenas se consegue uma aproximação. É o que tentamos.

Escutemos as palavras de Paulo em dois passos. São dois exemplos que se aplicam – ainda numa primeira análise, respectivamente – aos dois pontos acima apresentados: 1. “Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais através do espírito que habita em vós.” (Carta aos Romanos, 8); 2. “Paulo apenas disse esta frase: de maneira bonita falou o espírito santo, através do profeta Isaías […]” (Actos dos Apóstolos, 28).[1] 

Sem complicar mais, façamos uma segunda análise. Assim, o espantoso é que, no ponto 1, o através do espírito tanto poderá reportar-se a algo que atravessa o espírito, como ao próprio espírito que atravessa. Encontramos um outro desdobramento, se assim se pode dizer, no ponto 2. Pois, se atentarmos bem, “falou o espírito santo, através do profeta Isaías” tanto poderá reportar-se ao espírito santo que falou através do profeta Isaías, como ao próprio profeta Isaías que falou através do espírito santo. Talvez isto não seja apenas dialéctica.

Para terminar, e deixando em aberto, limito-me a citar os dois primeiros passos do princípio do Génesis: “1. No princípio, Deus criou os céus e a terra. 2. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas.” (Génesis, 1: 1, 2)[2]

 

 

 

 

 

 



[1] BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. II: Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Quetzal, Lisboa, 2017. Itálicos nossos.

 

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