quinta-feira, 30 de março de 2023

 

 

 

    Alcaide de Faria – Aos heróis de todas as guerras e batalhas

 

                                              Luís de Barreiros Tavares

 



«Alcaide de Faria», Nova Águia, nº 30, Outubro, 2º semestre, 2022, pp. 127-128.

“Aquiles voava furioso em frente e Heitor fugia sob as muralhas dos Troianos” (Homero, Ilíada — trad. Frederico Lourenço)

 

Alcaide de Faria [um poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal – 1958][1]

 

Sobre os muros da vetusta fortaleza,

Por entre a furibunda fuzilaria,

Vislumbra-se uma figura esguia:

Na mão a espada, nos lábios uma reza!

.

Seus ideais convergem para a Pátria!

O Pai, brilhante guerreiro asceta!

Tem um brilho nos olhos, como seta

Que perpassa célere! Está só, como um pária!

.

E, quando o altivo Alcaide é morto.

Corre o filho pela barbacã de dor louco,

A face retesada, violenta, a mão um soco

Desferindo e percorre o campo com o olhar torto!

18/10/1958[2]

 

Trecho de Fernão Lopes:

Como Nuno Gonçalves de Faria foi morto, porque nom quis dar o castelo a Pero Rodriguez Sarmiento

 

“O bom escudeiro de Nuno Gonçalves, que foi preso nesta peleja que ouvistes, tendo grande sentido do castelo de Faria, que leixara encomendado a seu filho, cuidou aquilo que razoavelmente era de presumir, a saber: que aqueles que o tomaram, o levariam ante o lugar e, dando-lhe alguns tormentos ou ameaça deles, que o filho, vendo-o, haveria piedade dele, e seria demovido a lhes dar o castelo. E porque nom tinha maneira como o disto pudesse perceber, disse a Pero Rodriguez Sarmiento que o mandasse levar ao castelo, e que ele diria a seu filho, que nele ficara, que lho entregasse.

Pero Rodriguez foi disto mui ledo e mandou que o levassem logo. E ele, chegando ao pé do lugar, chamou por o filho, o qual veio à pressa; e ele, em vez de dizer que desse o castelo àqueles que o levavam, disse ao filho em esta guisa;

— Filho, bem sabes como este castelo me foi dado por el-rei D. Fernando, meu senhor, que o tivesse por ele, e lhe fiz por ele menagem; e, por minha desaventura, eu saí dele, cuidando de o servir; e sou ora preso em poder de seus imigos, os quais me trazem aqui para te mandar que lho entregues. E porque isto é cousa que eu fazer nom devo, guardando minha lealdade, por isso te mando, sob pena de minha benção, que o nom faças, nem o dês a nenhuma pessoa, senom a el-rei, meu senhor, que mo deu; ca, para te perceber disto, me fize aqui trazer e, por tormentos nem morte que me vejas dar, nom o entregues a outrem, senom a el-rei, meu senhor, ou a quem to ele mandar entregar per seu certo recado.

Os que o preso levavam, quando isto ouviram, ficaram espantados de suas razões; e perguntaram-lhe se dizia aquilo de jogo, ou se o tinha assi na vontade. E ele respondeu que, pera o perceber disto, se fizera ali trazer; e que assi lho mandava sob pena da sua bênçom.

Eles, tendo-se por escarnidos, com queixume disto, em presença do filho o mataram em essa hora, de cruéis feridas. E nom cobraram, porém, o castelo.”

 

Crónicas de Fernão Lopes, selecção, introdução e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, c 1988

Trecho de Alexandre Herculano:

O Castelo de Faria (1373)

 

“—Moço alcaide, moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado da Galiza pelo muito excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e, chegando à barbacã[3], disse ao arauto:

— A Virgem proteja o meu pai: dizei-lhe que eu o espero.

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu de entre os seus guardadores e falou com o filho:

Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia?

— É — respondeu Gonçalo Nunes — de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem.

— Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?

—Sei, oh meu pai! — prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar. — Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência?

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:

—Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no Inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver.

— Morra! — gritou o almocadém castelhano. — Morra o que nos atraiçoou. — E Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado por muitas espadas e lanças.

—Defende-te, alcaide! — foram as últimas palavras que ele murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

[…]

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do Castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco.”

 

Alexandre Herculano, Obras Completas — Lendas e Narrativas, tomo 1, Prefácio e revisão de Vitorino Nemésio, verificação do texto e notas de António C. Lucas, Lisboa, Bertrand, 1978. Publicado em O Panorama (1838).

 

*

 

Dedico este artigo à minha avó paterna, que me contou muitas vezes este episódio lendário da História de Portugal.

L. de B. Tavares








 

 



[1] Apresenta-se neste artigo um poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal (“Alcaide de Faria”) juntamente com dois excertos de Fernão Lopes e Alexandre Herculano sobre o mesmo tema, publicados num artigo com o mesmo título na revista Caliban (04/06/2022).

[2] O poeta contava 17 anos quando escreveu este poema.

 

[3] Barbacã: “A barbacã (do latim medieval “barbacana”), em arquitectura militar, é um muro anteposto às muralhas, de menor altura do que estas, com a função de proteger as muralhas dos impactos da artilharia.” In Wikipédia.

 

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