Alcaide de Faria – Aos heróis de todas as
guerras e batalhas
Luís
de Barreiros Tavares
«Alcaide de Faria», Nova Águia, nº 30, Outubro, 2º semestre, 2022, pp. 127-128.
“Aquiles voava furioso em frente e Heitor fugia sob as
muralhas dos Troianos” (Homero, Ilíada — trad. Frederico
Lourenço)
Alcaide de Faria [um poema de Manoel Tavares
Rodrigues-Leal – 1958][1]
Sobre os muros da
vetusta fortaleza,
Por entre a
furibunda fuzilaria,
Vislumbra-se uma
figura esguia:
Na mão a espada,
nos lábios uma reza!
.
Seus ideais convergem
para a Pátria!
O Pai, brilhante
guerreiro asceta!
Tem um brilho nos
olhos, como seta
Que perpassa
célere! Está só, como um pária!
.
E, quando o altivo
Alcaide é morto.
Corre o filho pela
barbacã de dor louco,
A face retesada,
violenta, a mão um soco
Desferindo e
percorre o campo com o olhar torto!
18/10/1958[2]
Trecho de Fernão Lopes:
Como Nuno Gonçalves de Faria foi morto, porque nom
quis dar o castelo a Pero Rodriguez Sarmiento
“O bom escudeiro
de Nuno Gonçalves, que foi preso nesta peleja que ouvistes, tendo grande
sentido do castelo de Faria, que leixara encomendado a seu filho, cuidou aquilo
que razoavelmente era de presumir, a saber: que aqueles que o tomaram, o
levariam ante o lugar e, dando-lhe alguns tormentos ou ameaça deles, que o
filho, vendo-o, haveria piedade dele, e seria demovido a lhes dar o castelo. E
porque nom tinha maneira como o disto pudesse perceber, disse a Pero Rodriguez
Sarmiento que o mandasse levar ao castelo, e que ele diria a seu filho, que
nele ficara, que lho entregasse.
Pero Rodriguez foi
disto mui ledo e mandou que o levassem logo. E ele, chegando ao pé do lugar,
chamou por o filho, o qual veio à pressa; e ele, em vez de dizer que desse o
castelo àqueles que o levavam, disse ao filho em esta guisa;
— Filho, bem sabes
como este castelo me foi dado por el-rei D. Fernando, meu senhor, que o tivesse
por ele, e lhe fiz por ele menagem; e, por minha desaventura, eu saí dele,
cuidando de o servir; e sou ora preso em poder de seus imigos, os quais me
trazem aqui para te mandar que lho entregues. E porque isto é cousa que eu
fazer nom devo, guardando minha lealdade, por isso te mando, sob pena de minha
benção, que o nom faças, nem o dês a nenhuma pessoa, senom a el-rei, meu
senhor, que mo deu; ca, para te perceber disto, me fize aqui trazer e, por
tormentos nem morte que me vejas dar, nom o entregues a outrem, senom a el-rei,
meu senhor, ou a quem to ele mandar entregar per seu certo recado.
Os que o preso
levavam, quando isto ouviram, ficaram espantados de suas razões; e
perguntaram-lhe se dizia aquilo de jogo, ou se o tinha assi na vontade. E ele
respondeu que, pera o perceber disto, se fizera ali trazer; e que assi lho
mandava sob pena da sua bênçom.
Eles, tendo-se por
escarnidos, com queixume disto, em presença do filho o mataram em essa hora, de
cruéis feridas. E nom cobraram, porém, o castelo.”
Crónicas de Fernão Lopes, selecção, introdução e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira, Biblioteca
Ulisseia de Autores Portugueses, c 1988
Trecho de Alexandre Herculano:
O Castelo de Faria (1373)
“—Moço alcaide,
moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez
Sarmento, adiantado da Galiza pelo muito excelente e temido D. Henrique de
Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.
Gonçalo Nunes, o
filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e, chegando à barbacã[3],
disse ao arauto:
— A Virgem proteja
o meu pai: dizei-lhe que eu o espero.
O arauto voltou ao
grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o
tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu de
entre os seus guardadores e falou com o filho:
Sabes tu, Gonçalo
Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei à
tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia?
— É — respondeu
Gonçalo Nunes — de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele
fizeste preito e menagem.
— Sabes tu,
Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso,
o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?
—Sei, oh meu pai!
— prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos,
que começavam a murmurar. — Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos
percebem que me aconselhaste a resistência?
Nuno Gonçalves,
como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:
—Pois se o sabes,
cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado
sejas tu no Inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam
entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver.
— Morra! — gritou
o almocadém castelhano. — Morra o que nos atraiçoou. — E Nuno Gonçalves caiu no
chão atravessado por muitas espadas e lanças.
—Defende-te,
alcaide! — foram as últimas palavras que ele murmurou.
Gonçalo Nunes
corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas
partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves
misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.
[…]
O orgulhoso
Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do Castelo de Faria.
O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi
constrangido a levantar o cerco.”
Alexandre Herculano, Obras Completas — Lendas
e Narrativas, tomo 1, Prefácio e revisão de Vitorino Nemésio, verificação
do texto e notas de António C. Lucas, Lisboa, Bertrand, 1978. Publicado em O
Panorama (1838).
*
Dedico este artigo à minha avó paterna, que me contou
muitas vezes este episódio lendário da História de Portugal.
L. de B. Tavares
[1] Apresenta-se neste artigo um
poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal (“Alcaide de Faria”) juntamente com dois
excertos de Fernão Lopes e Alexandre Herculano sobre o mesmo tema, publicados
num artigo com o mesmo título na revista Caliban (04/06/2022).
[2] O poeta contava 17 anos quando
escreveu este poema.
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