Pascoaes e Amadeo
Apontamentos sobre “O Pobre Tolo” e
“O Pobre Louco”
Luís
de Barreiros Tavares
"Pascoaes e Amadeo: Apontamentos sobre 'O Pobre Tolo' e 'O Pobre Louco'" – revista Nova Águia 23, pp. 198-202, Sintra, Zéfiro.
Em
memória das minhas primas, Raquel e Rita, que me ensinaram a viver no campo
longos anos
(Rossio ao Sul do Tejo – Abrantes)
“de poeta e de louco todos temos um pouco”
Provérbio
a) É muito difícil
fazer uma aproximação entre algumas pinturas e uma obra literária só porque
abordam o tema da loucura e tendo títulos semelhantes: O Pobre Tolo (1923), de Teixeira de Pascoaes (com uma Elegia
Satírica em forma poética); as duas pinturas “O Pobre Louco” (1914-15), de Amadeo
de Souza-Cardoso. A reflexão sobre a semelhança entre poesia e pintura encontra-se
já em Horácio. Ut pictura poesis: “Expressão usada por Horácio na sua Arte Poética (c. 20 a. C.), que significa ‘como a
pintura, é a poesia’ e que, apesar
de não possuir um significado estrutural, veio a ser interpretada como um
princípio de similaridade entre a pintura e poesia. A afinidade entre as duas
artes já fora mencionada por Plutarco, o qual atribuiu ao poeta Simónides de
Céos o dito segundo o qual ‘a pintura é poesia calada e a poesia, pintura que
fala’ (De gloria Atheniensium, 346
F). Na mesma obra (17 F –
18 a), Plutarco esclarece ainda que tal comparação se baseia
no facto de pintura e poesia serem, supostamente, imitações da natureza,
princípio este que se revelaria fulcral nas reformulações sofridas pela analogia entre
ambas as artes ao longo da Antiguidade clássica” (Ut pictura poesis, por Carla
Escarduça in Dicionário de Termos
Literários, de Carlos Ceia – texto em linha).
Fig.
1 “O Pobre Louco”, c.1914-15, óleo sobre cartão, 39,6 x 31,7 cm
b) É certo que Amadeo
e Pascoaes afloram por vezes a loucura nas suas obras. Numa sessão “Cidades de
Amadeo”, dia 24 de Novembro em Amarante, realizaram-se algumas conferências,
entre as quais a de Celeste Natário, bastante conhecedora de Pascoaes, sobre a
loucura no escritor e no pintor (grato a Marta Soares pela gentileza da
informação). Segundo uma conversa prévia que tive com Celeste Natário, creio
que a sua comunicação abordou o livro O Pobre
Tolo, do poeta e escritor, e as duas pinturas intituladas “O Pobre Louco”, do
pintor. Não tive ainda a oportunidade de ler o respectivo texto. Mas foi a partir
daquela conversa sobre estas obras que recolhi, sob a forma de apontamentos,
algumas leituras e reflexões sobre as mesmas.
c) Com efeito,
talvez se possa fazer uma aproximação entre estas dramáticas pinturas e o
extraordinário livro O Pobre Tolo. Escutemos
José Tolentino Mendonça no seu Prefácio: “Data de Novembro de 1923 a escrita em
prosa desta obra, que sete anos mais tarde, aparece rescrita poeticamente e
designada como ‘elegia satírica’. Trata-se de um drama sonhado, uma ‘fantasia
ao crepúsculo’ (p. 19) (crepúsculo também da consciência, da razão), que
decorre no meio da ponte de S. Gonçalo, em Amarante. Tudo começa pela hesitação
de alguém que atravessa a ponte (e o ‘meio’ de qualquer ponte não será isso,
uma hesitação materializada?)” (p. 11). Concluindo: “Este texto sonâmbulo, uma
espécie de meditação sobre que palavra poderia ser dita depois do fim das
palavras, é ainda um ‘quase ver’. Mas, como atesta Pascoaes, ‘o quase é o bastante para inundar de
trevas a paisagem’ (p. 131). Que trevas tão luminosas, quero dizer” (p. 16)
(ver alínea f).
Fig.
2 “O Pobre Louco”, c. 1914-15, óleo sobre cartão, 36,5 x 32 cm
d) Conterrâneos, de terras de
Amarante, ambos sentiam um fascínio por aquelas paisagens minhotas, montanhosas
e por vezes agrestes: “Eis-me de novo nas minhas montanhas, guardando as
melhores lembranças da visita que vos fiz” (Carta de Amadeo a Robert Delaunay,
13 de Setembro de 1915). “Minha querida Lúcia: No momento em que te escrevo
passa sobre estas montanhas uma formidável tempestade, vento, trovões, chuva. O
aspecto é tenebroso […] Chove se Deus a dá e (?) das serras vae tudo de enxurro
(Carta de Amadeo a Lucie Sousa Cardoso, Manhufe, 26 de Fevereiro de 1913).
e) Noutro enfoque, lembremos, por
exemplo, algumas das extraordinárias passagens de Pascoaes sobre os “penedos”,
em O Bailado: “Amei sempre os penedos
– esses monstros de granito plantados na solidão dos montes. Cada um encerra o
seu enigma e mostra, desde os séculos, a mesma cara bruta donde sai, ao
bater-lhe o sol, o mesmo sentimento escuro; a hora efémera de sombra que baila em volta dele…” (p. 36); “A hora
passa, mas o penedo conserva-se ainda
milhares de anos” (p. 45); “Os outeiros do outro lado são cortados a
prumo sobre amplidões onde campeia a noite sempiterna (p. 57); “Eu amo os
penedos e a sua hora efémera de
sombra – principalmente a sua hora, o
seu traço de união comigo” (p. 37)… Precisamente, há uma dimensão espiritual
nesse “traço de união”, nesse momento abrupto da matéria, da rocha inerte que
faz ver algo mais no e a partir do humano… “Ah! Se o homem fosse apenas homem,
como é só pedra este penedo?!” (p. 36), etc…
f) Pascoaes voga por vezes em atmosferas que, dir-se-ia, respiram certos
estados alucinatórios, de visões ou mesmo de um certo delírio, talvez o seu
lado místico. Nas palavras de Eduardo Lourenço “a sua poética romântica e mesmo
hiper-romântica”, “a inspiração para ele é tudo” (ver Em Roda Livre - Eduardo
Lourenço com Luís de Barreiros Tavares, p.36). No entanto, não sendo eu
um entendido em Pascoaes, creio ser
seguro afirmar que a sua obra, pelo menos uma parte significativa, tem
sobretudo uma forte carga telúrica: “E o pobre tolo / Vê diante dele a bruta
realidade / Erguer-se em grandes píncaros serranos; / Bustos de terra e
mármore, relevos / E relevos que aumentam de volume / até à forma enorme do
trovão […] E, cá em baixo, o solo é de granito. / E é também uma estátua o
pobre tolo; / Bronze de dor, sorrindo… e nos seus olhos / O choro é fina prata
liquefeita.” (O Pobre Tolo, p. 195). Ver
as anteriores alíneas d) e e). Os exemplos seriam intermináveis. Talvez esta
perspectiva vá mais de acordo com a leitura de Luísa Borges, outra conhecedora
de Pascoaes, com quem troquei breves impressões: “nada a ver com 'inspiração',
mediunidade, loucura, possessão…”. Com loucura, sim…
g) Associado a estas
paisagens crepusculares, lunares, penumbráticas e por vezes desoladoras está o
louco, ou mais propriamente o personagem de O
Pobre Tolo: “É o espectro à luz da lua” (p. 146); “O tolo é o espectro de
uma árvore” (expressão várias vezes repetida, p. 139)… Mas n’O Pobre Tolo havia a persistência na bela
ponte granítica de São Gonçalo, em Amarante: “Lá está no meio da ponte a ouvir
as vozes do Tâmega que emudecem no mês de Agosto – e a contemplar uma paisagem
de inverno: uma escultura em antigo bronze com verdete” (p. 146).
Fig.
3 “O Rata”, c. 1914-15, óleo sobre cartão, 38,5 x 37 cm
h) Detenhamo-nos, para já, no quadro
de Amadeo: “O Rata” (1914-1915 – exposto na exposição Porto – Lisboa, 1916). Esta
pintura inspira-se num curioso personagem real de Amarante, que teria, talvez,
alguma coisa a ver com a loucura.
Provavelmente Pascoaes tê-lo-á conhecido. Maria Filomena Molder faz
alusão a esta figura meio louca, ou mesmo louca. É um quadro da mesma época das duas pinturas “O
Pobre Louco”. “O Rata seria, segundo informação do Professor António Cardoso, a
alcunha de um pobre em Amarante” (Catálogo
Raisonné, p. 282). Seria provavelmente aquele que ratava os restos de
comida, côdeas, etc., com modos descuidados, famintos, tresloucados, por assim
dizer. Dir-se-ia a mesma figura representada nas pinturas dos dois loucos.
i) As alcunhas também são
habituais em O Pobre Tolo, fazendo
ecoar personagens à margem como o Rata: “Passa a Mocha, de Gatão. Agarrada a um
pau, arrasta a sua velhice de porta em porta, a mendigar” (p. 32); “A loucura e
o bom senso, a magreza e a gordura – o pobre tolo e o Preguiça que finge de
maluco para ganhar a sua vida. Lá está, no meio da ponte, a fazer pantominas, trejeitos
e caretas. Estende o chapéu aos transeuntes e ostenta, sobre os ombros de
gigante, um perfeito busto romano” (p. 49); “passa o Poupa, que tresanda”; “o Bezerra atrás da vaca”; “… o rouco
Micaelo, a bater, furioso como um doido, na pele inofensiva duma pobre cabra
que já não existe” (p. 66), etc. “As alcunhas, caricaturas de homens e
mulheres, vão passando na ponte de S. Gonçalo, sob o fantasma de uma Alcunha,
misteriosa e tremenda, que infunde medo às criancinhas – o Papão” (p. 67).
j) Retomando Amadeo.
Veja-se “A bruxa louca – cabeça” (1914), “Tristezas – cabeça” (1914-1915),
“Luto –a cabeça – boquilha” (1914-1915). Estas três pinturas e “O Rata” foram
expostas no Salão de Festas do Jardim Passos Manoel no Porto (1 a 12 de
Novembro de 1916), célebre exposição que se repetiu em Lisboa, na Liga Naval
Portuguesa (de 4 a 18 de Dezembro). Uma das duas pinturas intituladas “O Pobre
Louco” esteve patente nesta exposição (grato pela informação de Marta Soares;
conforme me disse: o “’Catálogo Amadeo, 2016–1916
Porto–Lisboa’ comprova-o”).
l) Não há elementos
comprovativos de uma visita de Pascoaes à exposição de Amadeo no Porto (grato a Marta Soares pela confirmação). “Meu querido Amadeo Cardoso: Soube agora da
estúpida agressão de que foi víctima. É com a maior indignação que o abraço e
lhe desejo rápida cura. Seu muito amigo e admirador, Teixeira de Pascoaes.”
“Muito e muito obrigado pelo seu bilhete e pelas reproduções de alguns dos seus
mais belos e estranhos trabalhos de superior artista [Edição de autor publicada
aquando da referida exposição – 12 reproduções, ver m)]. Também o felicito pelo
êxito da sua exposição, que tem sido grande, segundo me constou. Desejo-lhe o
maior sucesso, o que será pura justiça e merecidíssima consagração ao seu
talento, tão vivo, tão original e ansioso de novas criações. Não ando bem de saúde.
Mas hei-de fazer o possível para visitar a sua exposição, esse grande
acontecimento artístico“ (Teixeira de Pascoaes, em Amadeo – Fotobiografia, pp. 162 e 163).
Fig. 4 “Cabeça Negra”, 1914, óleo sobre cartão,
23,7 x 18,5 cm
m) Mas na Edição das
12 reproduções consta “Cabeça Negra” (grato a Marta Soares pela indicação).
Diríamos que há duas séries ou duas linhagens plásticas nestas cabeças tristes de
Amadeo. A pintura “Cabeça Negra” e “A bruxa louca – cabeça” (j)), entre muitas
outras, pertencem a uma das séries (1ª série). As pinturas “O Pobre Louco” (tal
como “O Rata”, “Tristezas – cabeça” –
ver h), j) ) pertencem à outra série (2ª), com diferentes traços
pictóricos relativamente à 1ª. Estes quadros são de dimensões ligeiramente
maiores. Ambas as séries partilham a expressão da pobreza e da loucura. Apesar
das diferenças picturais, elas cruzam-se nos temas e por vezes plasticamente.
Chamaríamos ao conjunto das duas séries cabeças
pobres. Estudámos a primeira série no capítulo “Cabeças… Paisagens…” (Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura,
pp. 55-58). Assim, as duas
pinturas “O Pobre Louco” fazem mais sentido e falam melhor no conjunto dessas cabeças pobres.
n) A força
expressiva plástica na sua elementaridade pictórica propositada, aliada a um
cromatismo austero e sombrio, dão força ao mundo interior dos personagens ou
daquelas cabeças aparentemente fechadas mas abertas num mundo interior de luta
pela vida, na pobreza, pela sobrevivência, enfim, por alguma luz, podendo no
entanto conduzir ao vazio da loucura. Observem-se os “dois pobres loucos” (Figs.
1 e 2), um olhando para o alto, de olhos abertos, como que cegos, mas parecendo
olhar o exterior; o outro, cabisbaixo de olhos fechados, como que olhando para
o interior, mas na solidão e desolação do espaço exterior que o rodeia, um
“malucar sozinho com as cousas” (O Pobre
Tolo, p. 119). Ou um vogar “sonâmbulo” (ver alínea c – Tolentino Mendonça).
No entanto, são dois olhares que, no seu excesso, se traduzem um no outro. Enfim,
“O Pobre Louco”, este pobre louco em duas versões é, ao mesmo tempo e
paradoxalmente, o mesmo e o outro, um e dois… Gestos e posturas um tanto
contemplativos, meditativos? Evocando de algum modo, remotamente – e talvez
subtilmente – as pinturas icónicas dos místicos e dos santos? Porém, nota bene, com um certo desacerto: o dos
traços em bruto loucura…
o) Mas todas aquelas
pinturas das duas séries reflectem (ver m)), em tons e expressões sombrios,
quer a pobreza, quer a vida campesina e agreste com uma grande densidade
plástica apesar do seu ar tosco. Os verdes, castanhos, alguns azuis por vezes,
os tons sombrios evocam de alguma maneira as paisagens agrestes e o conturbado
mundo interior, em eco às vivências de O
Pobre Tolo, em duas amplas dimensões: telúrica e espiritual. Poderíamos
pensar aqui no extraordinário poema “O Doido e a Morte”, de Pascoaes.
p) Sabemos que
nestes meios o “louco” vagante, ou vagueante, digamos, é uma figura que se
salienta a vários títulos. Ele acaba por ser um personagem relevante, fazendo a
diferença. E, “de poeta e de louco todos temos um pouco”, como diz o provérbio
em epígrafe. O louco talvez seja, afinal, aquele que paradoxalmente está já um pouco demasiado fora e um já
pouco demasiado dentro. O louco que
vagueia pelos povoados, povoações, arredores descampados e cidades como
Amarante nas primeiras décadas do século XX, é pobre, um miserável, no verdadeiro sentido da palavra (do latim: digno de
piedade, de compaixão, até por vezes ao patético, etc.)…
q) Muito provavelmente
Pascoaes terá visto várias “cabeças pobres” de Amadeo: “Como Amadeo e Pascoaes se visitavam com
alguma frequência, é muito provável que Pascoaes tivesse visto esses loucos no
atelier de Amadeo. Foram pintados em Manhufe durante a guerra” (grato a Marta
Soares pela nota enviada). “Esses loucos” tê-lo-ão inspirado na escrita
de O Pobre Tolo alguns anos mais tarde?
Referências
Amadeo de Souza-Cardoso,
Fotobiografia, Margarida Cunha Belém e Margarida
Magalhães Ramalho, Dir. Joaquim Vieira, Lisboa, Temas e
Debates, 2009.
Amadeo de Souza-Cardoso, Catálogo Raisonné
– Pintura, 2ª edição, Lisboa, Sistema
Solar (Documenta), Fundação Calouste Gulbenkian, 2016.
Amadeo Souza-Cardoso, 2016–1916
Porto–Lisboa, Porto, co-edição Museu
Nacional de Soares dos Reis, 2016 [Catálogo da exposição].
Eduardo Lourenço com Luís de
Barreiros Tavares, Em Roda Livre, Lisboa e Linda-a-Velha, MIL
e Nova Águia, DG Edições, Março 2016.
Teixeira de Pascoaes, Antologia Poética, Lisboa, Guimarães
ed., 1962.
Teixeira de Pascoaes, O
Bailado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987.
Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo, Prefácio de José Tolentino
Mendonça, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000.




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