Luís de Barreiros, TAVARES (2019), «Vivências com Mário Cesariny e Fernando Grade: Poetas e pintores», in Nova Águia, nº 24, 2º semestre, 194-196.
Luís
de Barreiros Tavares
Em memória do meu tio Jacinto Tavares, aguarelista de Alfama
Este breve texto relata
algumas memórias da época em que me entreguei com mais fervor e mais
explicitamente às artes plásticas (porque a arte, por vezes, também se dissimula
e manifesta-se de modos inauditos, imperceptíveis e implícitos).
Conheci Mário Cesariny de
Vasconcelos (1923-2006) numa das três exposições colectivas onde ele e eu
participámos, um privilégio que muito me honra[1].
Foi na Perve Galeria Arte e Multimédia, em Alfama, entre 2001 e 2003, num
encontro fugaz mas frutífero. Primeiro pude vê-lo e escutá-lo na formidável
tertúlia poética que se realizou após a inauguração.
O poeta e também artista
plástico Fernando Grade, que eu já conhecia há algum tempo, participou na
mostra debatendo e «contracenando» com Cesariny questões de arte e poesia, numa
gesta de discussão acalorada entre amigos. Pelo meio, Grade lia intensamente
poemas seus e de outros, enquanto Cesariny, de pé, com um copo numa mão e um
cigarro na outra, soprava a seu modo frases pensadas e pausadas, alternadas com
outras intempestivas, incendiadas por vezes com palavras obscenas.
Mas antes da tertúlia foi
a mostra e a vernissage, onde Grade
dá sempre um ar da sua graça, sacando, num gesto mágico, os seus muito
interessantes livros de poesia dos bolsos do forro da sua habitual gabardine
(“edições Mic e Fernando Grade – colecção Salamandra”) e, ao mesmo tempo, coleccionando
bolos e salgados para outros repastos.
No final, fomos no carro
do Nuno Espinho (um dos directores da Perve), um pouco apertados no seu Renault
ou Morris Mini – salvo erro – rumo ao
Cais do Sodré, para deixar o Cesariny e a sua irmã, senhora muito simpática, na
estação de comboios onde seguiriam para Oeiras, residência de ambos. Portanto,
éramos 5: o Nuno Espinho, o Grade, o Cesariny, a irmã e eu.
O Grade ia no banco da
frente, ao lado do Espinho. Atrás, a irmã do Cesariny, se bem me lembro, entre
mim e ele. Grade voltado para trás num torção difícil e nos solavancos de carro
dos Bairros antigos conversava energicamente com Cesariny. Ambos gesticulavam,
trocando recordações de lugares, pessoas, poetas , pintores, artistas, etc.
Devo confessar que me
sentia um pouco perdido, mas entusiasmado, no meio daqueles personagens. Talvez
para me pôr à vontade, o Cesariny passou furtivamente a mão pela minha cabeça.
O Nuno Espinho conduzia atento a viatura ao mesmo tempo que acompanhava o
momento escutando, falando um pouco e sorrindo. A conversa era de tal maneira
turbulenta, intensa e interessante que, a páginas tantas, a irmã do Cesariny me
segreda em tom um tanto confessional e provavelmente também para me
tranquilizar: “… não ligue ao que dizem, são doidos …”
Foram realmente alguns
minutos doidos ou loucos, mas loucos de valer e inesquecíveis, aqueles que
decorreram naquela breve viagem entre o labiríntico Bairro antigo de mouros e
judeus (Alfama) e o marítimo Cais do Sodré.
Cesariny, até avançada
idade, foi um noctívago ou, pelo menos, um homem que saía à noite para beber
uns copos: “…posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita…”
(poema “Autobiografia”). Vi-o uma ou duas vezes entre amigos no mítico bar ou
tasco do Bairro Alto: “Estádio”. Não me recordo se foi antes ou depois dos
episódios de Alfama. Cesariny, na sua pose e rosto distintos, observava ao
fundo do bar, em posição estratégica e atenta, a fauna de todas as idades…
Um poema e uma pintura
de Cesariny:
Faz-se Luz
Faz-se
luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny, in "Pena Capital"
Mário Cesariny: Linha d’Água (Sem data)
Um poema e uma pintura
de Grade:
UM BARCO DE
NÉVOAS VISITOU-ME O SANGUE
(Arte Maior)
Um barco de
névoas visitou-me o sangue
e (cada vez
mais nocturno) deixou marcas:
são limos,
corais, potros, mel de monarcas,
asas de
gaivota com que danço o tango.
Corro nesse
barco em noites de morango
ilhas onde o
sémen se esconde nas arcas,
par’cendo
maçãs velhas em vez de farpas,
ó poetas de
Bocage a Anto.
Se o barco
fugir, perdido no escuro
(o meu olhar
seco em forma de pão duro),
venham
outras sinas dar-me as mãos em fúria…
Vou ficar no
mar, a ver moças de areia,
Coberto de
sial nas mamas das sereias,
Farrapo de
génio, de sol e luxúria…
Fernando
Grade
(in ‘Os
Melhores Sonetos de Fernando Grade’. Selecção de poemas por António Cândido
Franco; quatro ilustrações do pintor Artur Bual; Livro comemorativo dos 30 anos
de Vida Literária de Fernando Grade – 1962-1992. Edição nº. 72 de Edições
Mic/Colecção Salamandra/16. Estoril – Novembro de 1992.)
Fernando
Grade: Serigrafia – Sem título
Alverca do Ribatejo – 30/05/2018
[1]
Perve Galeria - Arte e multimédia. Exposição "Sur-sensus"
- Outubro/2001 – Lisboa. Exposição
Colectiva de Arte Contemporânea – Perve Acervo 2001 (Edifício do Banco de
Portugal – Leiria). Acervo 2002 (Mostra de Arte Contemporânea no Hospital Júlio
de Matos – 2003). Nestas mostras tive também o privilégio de expor com Cruzeiro
Seixas, Raul Perez , Mário Botas, Nadir Afonso, Malangatana, Artur Bual, Luís
Feito (grupo EL Paso), Fernando Grade, Reinata, João Cutileiro, Figueiredo
Sobral (meu amigo de há mais tempo), Chissano, Ídasse, entre muitos outros. Os
curadores e organizadores destes eventos na Perve eram e são ainda o Carlos
Cabral Nunes e o Nuno Espinho. Em 2013 inaugurou-se a Casa da Liberdade, espaço
em homenagem a Mário Cesariny, em articulação com a Perve Galeria.


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