Trechos da Parte II: "Arte: Ressonâncias Modernas e Contemporâneas".
"3. A fácil acessibilidade da Web (Teia) traz uma zona e tempo de conforto aparentes no caso de recairmos numa dependência ['As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha' (...) Zygmunt Bauman]. Supomo-nos livres nestas movimentações permanentes com meros 'cliques'. Mas ficamos confinados na medida em que encontramos sérias dificuldades em nos entregarmos a outras actividades ou demoras fora disso. O online produz essa tentação de circulação constante e respectiva dificuldade em sair. Em sair, precisamente. Daí a clausura, o encapsulamento, o dentro em que se tornou aquele fora pretensamente evasivo… flashs contínuos, planos que se sobrepõem a uma velocidade, a da luz, que nos faz acompanhar esquecendo essa sucessão…"
Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Prefácio de José Martinho, Ed. MIL, Lisboa, 2017, p. 89.
15. Quantas vezes uma fotografia de divulgação – catálogo, revista, jornal – abrange o próprio contexto envolvente da sala como uma segunda composição enquadrante? Novo passe-partout – da respectiva composição do quadro ou do objecto artístico? Hoje quase sistematicamente. A obra já não é só o que lá está no espaço de exposição “real” mas também e muito significativamente a sua própria conversão no frame em escala fotográfica no jornal, revista, catálogo ou numa reportagem vídeo televisiva e/ou digitalmente visionável. Uma expressão que se ajusta aqui muito bem: ”… estar a trabalhar para a fotografia…”. Ou mesmo ao ponto de uma lógica de “o ficar bem na fotografia”.
Idem, pp. 83 e 84.
"6. [...] com a banalização e institucionalização (museu) desse dispositivo envolvente da arquitectura e do design da sala, quer dizer, com essa exteriorização, operou-se uma interiorização. O mesmo acontecendo relativamente à pintura. O espectador interiorizou esse processo de exposição. Este tornou-se um a priori. O passe-partout das paredes e das páginas brancas do catálogo tornou-se um dado adquirido. A obra já conta e acomoda-se com esse enquadramento que é não só uma espécie de passe-partout mas também um partis-pris – algo que já pré-concebido, pré-conceptualizado – com a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. É que a fotografia da obra sobre-enquadra-a e redobra-a: não só no seu recorte, no seu formato material, mas também no enfoque do enquadramento espacial, de uma forma hiper-estética à maneira por vezes de uma cosmética. Dá-se uma dupla distanciação formatando a obra apenas como imagem. Imagem da obra ou obra tornada pura imagem? Este devir transparente da mostra, da exposição, na sua banalização sobre-expositiva retirou a opacidade e a densidade da obra."
Idem, pp. 80 e 81.
"6. [...] com a banalização e institucionalização (museu) desse dispositivo envolvente da arquitectura e do design da sala, quer dizer, com essa exteriorização, operou-se uma interiorização. O mesmo acontecendo relativamente à pintura. O espectador interiorizou esse processo de exposição. Este tornou-se um a priori. O passe-partout das paredes e das páginas brancas do catálogo tornou-se um dado adquirido. A obra já conta e acomoda-se com esse enquadramento que é não só uma espécie de passe-partout mas também um partis-pris – algo que já pré-concebido, pré-conceptualizado – com a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. É que a fotografia da obra sobre-enquadra-a e redobra-a: não só no seu recorte, no seu formato material, mas também no enfoque do enquadramento espacial, de uma forma hiper-estética à maneira por vezes de uma cosmética. Dá-se uma dupla distanciação formatando a obra apenas como imagem. Imagem da obra ou obra tornada pura imagem? Este devir transparente da mostra, da exposição, na sua banalização sobre-expositiva retirou a opacidade e a densidade da obra."
Idem, pp. 80 e 81.

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