quinta-feira, 21 de março de 2019

Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas)


excertos da parte II: arte, ressonâncias modernas e contemporâneas

19. “O Cego” de Canetti. Extrapolando um pouco, não poderemos en­contrar na seguinte passagem de Elias Canetti alguma analogia com este processo? “O cego não crê em nada que não tenha sido fotografado. […] o seu lema é: ver essas fotos! Assim ele sabe o que na realidade viu, sustém-no na mão, pode pôr o dedo em cima até abrir tranquilamente os olhos em vez de dispersá-los antes sem nenhum sentido.”

20. […] “Ao fim se recompensa a imperturbável cegueira de toda uma via­gem. Abre os olhos, abre-os, agora, se podes ver, aí está, sim, aí estiveste, agora… a demonstrá-lo!” (Elias Canetti, “El ciego” in Los cinquenta caracteres – (el testigo oidor), p. 37).

21. Pois tal como o turista cego de Canetti, paradoxalmente o especta­dor da obra de arte contemporânea está e não está lá, no espaço expositivo. É que quando chega, ou quando está, a tentação é a de registar automa­ticamente a obra com uma certa condição virtual da sua ausência tornada presente no próprio registo a ver depois. Em casa ou noutro lugar ele vai contemplá-la ainda que fugazmente ou mais detidamente mas já na escala reduzida da sua reprodução e recorte reenquadrante. Fora, ele partilha essa ausência numa rememoração mediante o medium técnico que institui como um dentro pelo contraponto mental de uma memória fotográfica, digital, desdobrada. Mas ainda que não a registe ele pode recordá-la e relembrar-se dela num “sítio” da Net. Pois a obra é assegurada e garantida nessa sua con­dição.


Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Prefácio de José Martinho, Ed. MIL, Lisboa, 2017, pp. 84 e 85.



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