excertos da parte II: arte, ressonâncias modernas e contemporâneas
19.
“O Cego” de Canetti. Extrapolando um pouco, não poderemos encontrar na
seguinte passagem de Elias Canetti alguma analogia com este processo? “O
cego não crê em nada que não tenha sido fotografado. […] o seu lema é: ver
essas fotos! Assim ele sabe o que na realidade viu, sustém-no na mão, pode pôr
o dedo em cima até abrir tranquilamente os olhos em vez de dispersá-los antes
sem nenhum sentido.”
20. […]
“Ao fim se recompensa a imperturbável cegueira de toda uma viagem. Abre os
olhos, abre-os, agora, se podes ver, aí está, sim, aí estiveste, agora… a
demonstrá-lo!” (Elias Canetti, “El ciego” in Los cinquenta caracteres –
(el testigo oidor), p. 37).
21.
Pois tal como o turista cego de Canetti, paradoxalmente o espectador da obra
de arte contemporânea está e não está lá, no espaço expositivo. É que quando
chega, ou quando está, a tentação é a de registar automaticamente a obra com
uma certa condição virtual da sua ausência tornada presente no próprio registo
a ver depois. Em casa ou noutro lugar ele vai contemplá-la ainda que fugazmente
ou mais detidamente mas já na escala reduzida da sua reprodução e recorte
reenquadrante. Fora, ele partilha essa ausência numa rememoração mediante o medium técnico que
institui como um dentro pelo contraponto mental de uma memória fotográfica,
digital, desdobrada. Mas ainda que não a registe ele pode recordá-la e
relembrar-se dela num “sítio” da Net. Pois a obra é assegurada e
garantida nessa sua condição.
Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A
Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Prefácio de José Martinho,
Ed. MIL, Lisboa, 2017, pp. 84 e 85.
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