Ah, os primeiros
minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela
manhã a caes ou a gares
Cheios de um
silêncio repousado e claro!
Os primeiros
passantes nas ruas das cidades a que se chega…
Excerto de um poema de Álvaro de Campos – c. 1914
Luís de Barreiros Tavares, “Pessoa na
Poesia de Manoel Tavares Rodrigues-Leal”, Revista Nova Águia, nº 22, 2º
semestre, 2017, pp. 212-215, Sintra, Zéfiro. [com ligeira revisão]
Fernando Pessoa - desenho de Luís de Barreiros Tavares - pincel, tinta da china sobre papel Canson Ingres Vidalon - 2010
Isento, Pessoa passa
Meu amigo Fernando
Pessoa, apesar do luar de brilhos, repousa em paz.
Companheiro ímpar,
quantas intimidades intemporais as tive. Como floresce
a foz daquele rio
manso que se chama talento e giza o génio, a voz que jamais esquece.
Manoel
Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016) escreveu dezenas de belíssimos poemas
dedicados a
Fernando
Pessoa e aos seus heterónimos, a maior parte deles ainda inéditos. Alguns foram
já publicados nas revistas Nova Águia e Caliban. É
certo que nas últimas fases da sua obra, e no fim da sua vida, se afastou do
“supra-Camões”[3]. Todavia, não deixa de reconhecer “o peso
de Fernando Pessoa sobre qualquer poeta português, ainda que eventualmente
grande”[4]. E não terá Pessoa, por seu turno,
pretendido libertar-se do peso do grande poeta e autor de Os Lusíadas,
aludindo-se daquele modo?
Este
breve ensaio reúne alguns tópicos sobre vários poemas inéditos de
Rodrigues-Leal dedicados a Fernando Pessoa nas décadas de 70-80-90 do século
passado. Poeta de linhagem e influência pessoanas, especialmente quando retratou em versos , inigualavelmente, o poeta de "Ode Marítima" e de "Tabacaria". Escutemos, se assim se pode dizer, este poema inicial, pedra de
toque deste estudo “(in
memoriam de Fernando Pessoa)”:
Silhueta negra
inconsútil
Aí vai ele descendo o
Chiado
Não há passo sem
passado
Aí vais tu Fernando
absolutamente inútil
Verme irradiando poesia
Somando a um dia mais
um dia
Talvez
fútil
Mas um verme sob a lua
danado
És
poeta
Não… viajas,
Sereno ser jamais,
Apenas versos contumazes
De um sol de profeta
Rindo rindo risos limpos e triviais…
Neste
e em quase todos os poemas evocando Pessoa, Manoel Tavares Rodrigues-Leal cruza
três dimensões do grande poeta. O homem citadino e passante do Chiado, Baixa e
Rossio, o funcionário e o poeta ou escritor. Estas facetas ou dimensões
cruzam-se. Ou melhor, cada uma reflecte, transpirando e transfluindo numa certa
osmose a atmosfera das outras.
“Silhueta
negra inconsútil / Aí vai ele descendo o Chiado”. M.T.R.-Leal consegue captar a
atmosfera das célebres fotografias de Pessoa descendo o Chiado. Assim, quase
visionamos imaginariamente o modo de andar de Pessoa. “Não há passo sem
passado”. O passo adiante só o é com o
passado (do) passo dado. Há, inclusivamente, uma série de cinco fotografias
onde Pessoa – na Baixa, Chiado ou Rossio – caminha com o seu amigo de Orpheu Augusto Ferreira Gomes.
Recentemente montou-se uma sequência destas imagens em modo de pequeno filme
onde os passos do Poeta são reconstituídos. Estas sequências mostram como
Pessoa apreciava a captação dos momentos da marcha.
Dir-se-ia
uma certa relação da escrita com o caminhar. Este poema de Rodrigues-Leal
descreve, nos movimentos das palavras em versos, o movimento sincopado daquela
figura estilizada e inteiriça (“inconsútil”). Ele ecoa os passos eternizados naquelas imagens
fotográficas.
Eis
um outro poema confluindo o caminhar, o exterior citadino de Lisboa e, de algum
modo, a meditação, ou seja, a preparação para a escrita:
Pessoa
assinava sua solidão
quando descia o Chiado, suportava a imagem de um
amigo,
quando o futuro premonia
e dialogava, mentalmente, com Mário .
Quando
um vento gelado soprava e ele compunha poemas
imerso em álcool e azuis secretos, ele ilibado do furor e
fogo antigo
dos deuses, senhor da assimetria da loucura,
servo do teorema.
E quando o rubro sol se despedia, ele jazia,
bebedor e sábio.
Ou
ainda este breve poema intitulado “Fernando Pessoa”:
o suor
do percurso de “Pessoa”
cria
beleza
gera
símbolos de angústia a frescura de Lisboa
lendo
ruas ilesas rectas
“Aí
vais tu Fernando absolutamente inútil / Verme irradiando poesia / Somando a um
dia mais um dia”. Estes três versos revelam de algum modo a atmosfera do tédio.
O indefinido tédio onde por vezes se divisa uma estranha beleza descrita e
pensada por Bernardo Soares no Livro do
Desassossego:
Ninguém ainda definiu,
com linguagem com que compreendesse quem o não tivesse experimentado, o que é o
tédio.
[…]
E é isto que eu sinto
ante a beleza plácida desta tarde que finda imperecivelmente. Olho o céu alto e
claro, onde coisas vagas, róseas, como sombras de nuvens, são uma penugem
impalpável de uma vida alada e longínqua. Baixo os olhos sobre o rio, onde a água,
não mais que levemente trémula, é de um azul que parece espelhado de um céu
mais profundo.
Escutemos
Álvaro de Campos:
O Chiado sabe-me a
açorda.
Corro ao fluir do Tejo
lá em baixo
Mas nem ali há
universo.
O tédio persiste como
uma mão regando no escuro.
Em
eco a Bernardo Soares e a Álvaro de Campos, leia-se este curto poema “(Em
memória de Fernando Pessoa)”, de 1992:
a sua figura frágil e fugidia
o tédio e a tarde (descendo o Chiado)
morrendo o dia
de tão alado o povoava e o bebia
De
novo o poema inicial. “Verme irradiando poesia […] Mas um verme sob a lua
danado”. A poesia parece aqui vingar, votada à imensidão da noite. Ela entrega-se
ao luar e a essa noite imensa, noite que tanto inspirou e povoou as páginas do Livro do Desassossego:
Lento,
no luar lá fora da noite lenta, o vento agita coisas que fazem sombra a mexer.
Não é talvez senão a roupa que deixaram estendida no andar mais alto, mas a
sombra, em si, não conhece camisas e flutua impalpável num acordo mudo com
tudo.
Mas
também à luz solar, a uma certa irreverência e afirmação da vida. Dir-se-ia
mesmo uma celebração da vida ou alegria de viver:
És
poeta
Não… viajas,
Sereno ser jamais,
Apenas versos contumazes
De um sol de profeta
Rindo rindo risos limpos e triviais…
E
a celebração da manhã e luz de Lisboa, neste passo de um outro poema de 1976:
Afinal, Pessoa era imponderável, escrevia e a sua melancolia,
ao amanhecer era água(ardente).
e todo o oiro do poema se escoa em terrestres ângulos.
O
poema, os poemas evocam Pessoa, Soares, Campos...? O mais importante aqui é a
intuição e captação das atmosferas vivenciais de Pessoa (o homem, o poeta, o
funcionário e os seus vários outros…),
o espírito de Pessoa na sua heterogeneidade.
Intuição
e captação de M.T.R.-Leal nestes e
noutros belíssimos poemas.
.
Concluindo,
escutemos mais um poema. Evocação, retrato poemático de Pessoa, sem que deixe
de manifestar-se a singularidade inconfundível, a voz pessoal do poema de
Manoel Tavares Rodrigues-Leal:
Como
Pessoa passeava no Chiado
Seu engenho, seu génio, seu ócio, rosto debruçado sobre.
Assim passeio,“Lisbon Revisited”, lírico e tão pensado, pobre mas
doado
E como Pessoa, fingidor do fingimento mais pungente,
E sofro, como tu, mestre, o caos, o “descalabro a ócio e estrelas”, esse pensamento urgente.
A pensar o pensamento que não há, habito o irreal umbigo do real,
Que é rigoroso retrato de mim-mesmo, imóvel e transeunte.
Fernando Pessoa e Manoel Tavares Rodrigues-Leal, ambos irmãos, ambos gente,
Mas naufragados: assisto-vos como poetas coincidentes, como poentes.
Post Scriptum
Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, trecho 120
Luís de Barreiros Tavares
Referências
Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e
Cultural – a ficção dos heterónimos, introdução, organização e notas António
Quadros, Europa-América, Lisboa, 1986.
Fernando
Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas e páginas
autobiográficas, introdução, organização e notas de António Quadros, Europa-América,
Lisboa, 1986.
Fernando
Pessoa, Álvaro de Campos - Livro de
Versos, edição crítica, introdução, transcrição, organização e notas de
Teresa Rita Lopes, Estampa, Lisboa, 1993.
Fernando
Pessoa, Livro do Desassossego, composto por Bernardo Soares, org.
Richard Zenith, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.
Manoel Tavares Rodrigues-Leal: cadernos de
inéditos: Limae Labor (1973-75); Fragmentos de
um livro dividido (Anónimo do séc. XX)
(1976); Poemana (1976);
caderno sem título (1976); A prostituição
dócil (1985); (Des)construção da fala [var. “do canto”]
(1992); O uso do cio
(1992).
Cf. Fernando
Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural – a ficção
dos heterónimos, p. 35. No início
do caderno Limae Labor (1973-75) encontra-se a seguinte inscrição: “Em memória
de Fernando Pessoa (Supra-Camões)”.
Lx. 30-11-85 – do caderno A prostituição
dócil.
Belas – 21-9-76. Do
caderno Fragmentos de um livro dividido
(Anónimo do séc. XX).
Lx.ª 18-11-92 – do caderno (Des)construção da fala [var. “do
canto”].
Lx. 29-2-92 – do caderno O uso do cio.
Talvez em
alusão a uma outra carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 20-1-1935
(a que se seguiu à anterior carta aqui referida – ver notas 10, 11 e 13): “O que sou essencialmente
– por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais
haja – é dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva a que
aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterónimos,
conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, VIAJO.”
Os heterónimos
Caeiro, Campos e Reis acompanham-no. Eles povoam o universo mental e vivencial
do seu dia-a-dia e na sua Lisboa da Baixa, Rossio e Chiado, outro seu mundo paralelo
de gestação da escrita: “Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de
realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro mim, as
discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu,
criador de tudo, o menos que ali houve” (carta a Adolfo Casais Monteiro – 13-01-1935;
ver notas 10, 11 e 13 ).

Fernando Pessoa - desenho de Luís de Barreiros Tavares - pincel, tinta da china sobre papel Canson Ingres Vidalon - 2010