domingo, 3 de março de 2024

O sentido do religioso em Amadeo de Souza-Cardoso – por Luís de Barreiros Tavares

 

O sentido do religioso em Amadeo de Souza-Cardoso

Luís de Barreiros Tavares


Publicado na obra colectiva: Redenção e Escatologia  Estudos de Filosofia, Religião, Literatura e Arte na Cultura Portuguesa, Vol. III, Lisboa, Universidade Católica Editora, 2022, pp. 225-234.

https://www.uceditora.ucp.pt/pt/biblioteca-de-investigacao/3189-redencao-e-escatologia.html

Procissão

Minha querida Lúcia:

No momento em que te escrevo passa sobre estas montanhas uma formidável tempestade, vento, trovões, chuva. O aspecto é tenebroso, por toda a casa ardem velas benzidas e as senhoras de joelhos a orar ao grande Deus. Estas scenas primitivas, cheias de unção religiosa, têm um raro sabôr de esthetica e sentimento. Chove se Deus a dá e (?) das serras vae tudo de enxurro. […]

Acabei ontem um trabalhosito que me parece interessante, é uma procissão em S. Gonçalo de Amarante e agora tenho uma tela maior principiada.

(Carta de Amadeo a Lucie Sousa Cardoso, Manhufe, 26 de Fevereiro de 1913)[1]


Figura 30. Amadeo de Souza-Cardoso – Procession Corpus Christi / 

/ Procissão Corpus Christi, óleo sobre madeira, 29 x 50,8 cm, 

25 de Fevereiro de 1913 (Colecção CAM / Fundação Calouste Gulbenkian)

226

Abandono por um momento um trabalho que tenho entre mãos para vir dar te algumas notícias minhas e pedir te que me dês tuas. Acabei uma taboita que me parece de bastante interesse uma procissão em S. Gonçalo de Amarante. As côres são muito vivas mas tudo está em relação. Esta que faço agora é muito maior e apenas termine não começo outro trabalho.

Carta de Amadeo a Lucie, [Manhufe, 1913][2]

Há uma relação clara entre a pintura Procissão Corpus Christi e as duas cartas de Amadeo a Lucie Pecetto, sua mulher. Repare-se nos conteúdos e datas das mesmas[3]. Comecemos pela pintura Procissão Corpus Christi, embora haja outros elementos nos textos de cariz religioso. Veremos mais à frente como esses elementos se podem relacionar com esta e outras três obras plásticas de Amadeo.

Catarina Alfaro fala-nos de uma «marcha solene», de «um efeito de espelho» nos «membros do clero» e de um «deslocamento dinâmico das figuras»: «elas desmultiplicam-se em duas ou três figurações […]». Marcha solene sugerida pelo ritmo e movimento destes efeitos: «[…] a utilização das formas geométricas, sua repetição e sua justaposição produzem um efeito rítmico reforçado pelos elementos ornamentais, como as pedras angulares que compõem o solo, as volutas sobre as casulas dos bispos e os padrões geométricos que ornamentam as asas do dragão e o manto do bispo que encabeça o cortejo»[4].

As figuras adquirem de algum modo uma aparência mecânica. Dir-se-ia autómatos ou marionetas naquele emaranhado de linhas cruzando-se numa cadência regular. Reforçando desse modo e picturalmente o cenário e o espetáculo característicos da solenidade dos cortejos populares de tradição cristã.

Por assim dizer, manifesta-se nesta obra um diálogo entre, por um lado, uma dimensão de vertentes e linguagens pictóricas modernistas[5] e de vanguarda, talvez um pouco futuristas, e, por outro, uma dimensão temática e iconográfica de cariz religioso e popular: a procissão[6].

Segundo Catarina Alfaro, Corpus Christi recebe outras «tendências de movimentos de vanguarda […] simultaneísmo, o efeito dramático dos contrastes

227

da cor e a sensação de velocidade, concepções defendidas por Sonia e Robert Delaunay, artistas de quem [Amadeo] era próximo desde 1911»[7].

Todavia, na leitura de Margarida Cunha Belém e Margarida Guimarães Ramalho, «em ‘Procissão Corpus Christi’, a composição faz lembrar o painel central de A Batalha de San Romano (c. 1456), de Paolo Uccello, sobretudo a figura do cavaleiro, e, nomeadamente, a posição do próprio cavalo. Não deixa de ser notável como uma pintura com 500 anos pode também já ter utilizado recursos de composição semelhantes ao da pintura do século XX»[8]. Nesta óptica, a par das linguagens novas da arte moderna do séc. XX, Amadeo não põe de parte as lições da grande tradição da história da pintura ocidental .

Alguns dias antes daquelas duas cartas e da realização desta pintura, Amadeo enviou a Lucie um bilhete-postal ilustrado com a «Procissão de S. Gonçalo [1187-1259] em Amarante» ([Manhufe] 13 de Fevereiro de 1913). E três anos antes, entre outras referências epistolares a procissões, há duas a assinalar: 1. uma carta em que Amadeo «encomenda a Lucie a reprodução de uma procissão de um pintor primitivo exposta num museu de Paris, possivelmente no Louvre»: «Quanto à fotografia do tal primitivo – a procissão não quero, acho muito caro. Compra-me o outro, o retrato desse senhor com barrete de dois bicos». (Carta de Amadeo a Lucie. Espinho [1910]); 2. um postal enviado por Eduardo Viana a Amadeo com uma ilustração do pintor belga flamengo «Pieter Brueghel, o Jovem» (1564-1638), reproduzindo um detalhe (procissão) da pintura «A aldeia de Carnaval com um teatro e uma procissão» (Bruxelas, 29 de Junho de 1910)[9]. Curiosamente, Amadeo emprega o termo «primitivo» relativamente a uma pintura de tema religioso cristão de uma outra época. E numa fase de arrebatamento pela pintura medieval e religiosa: «Passo os meus dias com alguns pintores primitivos que são os meus ídolos. […] Só eles possuíam essas grandes almas elevadas pelas grandes religiões. […] Hoje os artistas preocupam-se com a realidade, pretendem imitar a natureza, como se ela fosse imitável, não sentem emoções grandes porque são neutras de nascença as suas almas – em suma é o ocaso duma religião que passou. Esses artistas eram menos escravos. Para eles a arte era mais o retrato da sua própria alma que o modelo. Compreenderam que imitar a natureza buscando a realidade era uma pretensão ridícula porque o homem não é um Deus» (excertos de uma carta ao tio Francisco, na estadia de Amadeo em Bruxelas)[10].

No Catálogo Raisonné estabelecem-se duas comparações com Corpus Christi. 1. Uma relação formal e cromática entre esta obra e o Fólio 123 de

La Légende de S. Julien L’Hospitalier, transcrição manuscrita numa caligrafia

228

artística com ilustrações realizadas por Amadeo, num único exemplar, em torno do célebre conto de Flaubert. A dimensão religiosa é patente tendo como personagem central São Julião o Hospitaleiro. Não irei aqui abordar esta obra, apenas recomendo a leitura do interessantíssimo ensaio de Maria Filomena Molder incluído na edição fac-similada[11] da versão manuscrita e plástica de Amadeo. 2. Um outro desenho de Amadeo: «Procession en Espagne», de 1912[12]:




Figura 31. Fólio 123 de La Légende de S. Julien L’Hospitalier



Figura 32. «Procession en Espagne», grafite sobre papel, 26,2 x 33,6 cm, 1912 (Colecção CAM / Fundação Calouste Gulbenkian)

229

A um Deus ancestral

Regressemos às cartas de Amadeo a Lucie. Que «grande Deus» é este? «O aspecto é tenebroso, por toda a casa ardem velas benzidas e as senhoras de joelhos a orar ao grande Deus. Estas scenas primitivas cheias de unção religiosa». «Unção» reenvia aqui para uma aceção judaico-cristã com as senhoras rezando e orando ao grande Deus. Ao grande Deus mas também, talvez, aos santos e às figuras dos santinhos, por exemplo, à imagem de São Gonçalo, certamente também reproduzida em ponto pequeno para culto caseiro. Ou ante o crucifixo, como o «Cristo de Manhufe» da capela do solar de Amadeo, reproduzido numa das suas pinturas – falarei adiante destas imagens.

*

Avancemos algumas hipóteses eventualmente abertas pelo contexto das cartas de Amadeo, pelo que elas nos despertam na leitura, deslocando um pouco do seu âmbito pictórico, e tendo ainda em conta o espírito da época e do lugar.

Aquelas orações e rezas seriam eventualmente acompanhadas de outros gestos, ritos, práticas e crenças (as mezinhas, as próprias velas e outros procedimentos chegando a rondar a superstição e mesmo certas práticas mágicas). Tudo para o bem de todos, das casas e das terras.

De facto, a unção pode estender-se a atividades mágicas, o que não é de excluir de todo neste contexto. Como se sabe, ainda hoje certas práticas religiosas da ruralidade e de âmbito cristão têm a ver com atividades enraizadas em tradições populares ligadas à magia, etc.[13]Estas scenas primitivas» parecem ir também neste sentido), e, por assim dizer, a um certo âmbito pagão (paganismo, pagão: do latim paganus – da aldeia, aldeão, do campo, camponês…).

Sabemos no entanto da paradoxalidade destes contextos, pois a magia é uma esfera incompatível com a religião dos judeus e cristãos[14]. Por outro lado, «paganismo» é originalmente o «nome dado pelos primeiros cristãos ao politeísmo, ao qual os habitantes das aldeias permaneceram muito tempo fiéis»[15].

Assim, apesar das incompatibilidades de base, poderemos encontrar pontos de contacto entre estas tradições. Não é por acaso que os cultos cristãos rurais ou populares rondam figuras e objetos representativos de santos, santinhas e santinhos, como referi acima, enquanto pequenos deuses, ecoando, digamos assim, vestígios ancestrais de paganismo e politeísmo. Daí também, por exemplo, o culto na procissão de São Gonçalo cuja figura é

230

o centro do cortejo. Trata-se pois de franjas ou margens de esferas diferentes que por vezes se tangem. Entra-se assim no campo da chamada «estrutura mágico-religiosa»[16].

Por outro lado, Amadeo parece aludir, ao mesmo tempo, a um qualquer deus primitivo ancestral, não se sabe bem de que tempo, intimamente ligado à Natureza: «passa sobre estas montanhas uma formidável tempestade, vento, trovões, chuva. […] Chove se Deus a dá e (?) das serras vae tudo de enxurro. […]». Ou talvez um deus de uma qualquer religião politeísta. Por exemplo, o Zeus grego dos «trovões» e da «tempestade» (o deus dos deuses). Sobretudo na gente do campo a Natureza exerce um temor reverencial («O aspecto é tenebroso»). Tenebroso e tremendo[17]. Aquelas «senhoras de joelhos» tanto podem ser mulheres do campo, da mais humilde condição social, como as muitas mulheres na grande casa de Manhufe ou na casa do Ribeiro, solares que Amadeo habitou com a mãe, avó, irmãs, família abastada da alta burguesia rural. Embora estas últimas tivessem porventura mais acesso ao meio citadino, tanto umas como outras mantinham uma forte ligação ao campo, à terra, à Natureza. Por isso, «O grande Deus» – com letra maiúscula – é também um «grande Deus» atmosférico, telúrico, cósmico.

Mas trata-se também de uma vivência de contrastes. Amadeo tem a experiência das grandes cidades e da modernidade, como Paris naquela época, um dos grandes centros de acontecimentos artísticos na Europa.

Por outro lado, há um pendor cristão de cariz popular que atrai Amadeo, o que reforça o sentido vivencial de comunicação e osmose, talvez, entre várias dimensões do religioso, do divino e do sagrado. Assim, parece ser evidente uma dimensão sincrética no sentido do religioso nas leituras possíveis destas obras e cartas de Amadeo.

A arte e o espiritual comungam no tempo num «raro sabôr de esthetica e sentimento» com as cartas a Lucie e a pintura Corpus Christi.

231

E não pode o próprio objeto de arte, segundo o grande pintor catalão Antoni Tàpies, que produziu poderosas pinturas matéricas, ser um potenciador de forças, sejam elas mágicas ou espirituais? «[Um quadro] é um objeto que poderíeis aplicar a uma parte do corpo onde tendes dor, e serviria para irradiar uma força benéfica»[18]. «A arte esteve sempre como peixe na água no mundo da introspeção espiritual, das grandes simbologias, dos valores do inconsciente e sobretudo das muitas experiências místicas e religiosas»[19].

O Cristo popular


Figura 33. Título desconhecido “(Zinc)”, técnica mista: pintura a óleo e colagem  sobre tela, 59 x 49 cm, cerca de 1917. Colecção Eng. Ilídio Pinho.

Maria Helena de Freitas (MHF) faz uma leitura muito interessante deste quadro[20]. Eis alguns aspetos da sua análise que poderão contribuir para as linhas de força que gostaria de observar: 1. a imagem de Cristo, tosca e de cariz popular; 2. o plano esverdeado sugerindo o «zinco», cuja designação aí se encontra; 3. «zinco» pode simbolizar o calão «taberna»[21]; 4. «zinco» como

232

o material que constitui os pochoirs[22]; 5. Ainda «zinco» na possível alusão ao calão empregue pelos aviadores da 1.ª Guerra (1914-1918) para designar os seus aparelhos (Zinc); 6. a possível cabeça e olhos de aviador sugerindo os respetivos óculos, e com um dos olhos parecendo um alvo (MHF). Olho que, acrescentaríamos, por um lado, alveja, mira, refletindo um alvo a atingir, e, por outro, é alvo a atingir, olho-alvo-corpo-arma do aviador.

Mais uma vez, paradoxalmente o jogo de contrastes e, ao mesmo tempo, de correspondências entre a vivência e a experiência de Amadeo que se reparte, quer no mundo e realidade popular e religiosa, quer na sua atração pela modernidade artística e pela civilização moderna, esta última, de algum modo, na sua profanidade: a) o zinco nas tabernas, que tanto podem ser urbanas como rurais; b) o material pictural dos pochoirs na pintura vanguardista; c) o zinco, ainda, enquanto designação dos aviões, a saber, de aparelhos que refletem o avanço da técnica e da civilização; d) isto aliado à condição sacrificial do piloto, homem moderno, em contraponto e diálogo com a dimensão sacrificial e redentora da figura ou imagem sagrada de Cristo. Até porque, segundo Joana Cunha Leal, esta imagem de Cristo poderá estar ainda associada aos crucifixos, ao «Cristo das trincheiras» na 1.ª Guerra[23].

Tudo leva a crer que Amadeo se inspirou no crucifixo da capela de sua casa em Manhufe: «O Cristo de Manhufe»636.



Figura 34. “Cristo de Manhufe”, fim do século XVII – início do séc. XVIII,  madeira polícroma. Colecção particular.

233

Sentido do religioso

Conforme o título indica, trata-se neste breve estudo de pensar um possível sentido do religioso, aflorando também o sentido do divino e do sagrado em Amadeo. O que é o «religioso»? Como se sabe, o adjetivo «religioso» reenvia para o substantivo «religião» que, por sua vez tem a sua raiz etimológica no latim religare (ligar – re-ligar), religio (cuidado, culto). Ainda no Dictionnaire des Religions pode ler-se: «A ideia de religião toma corpo nos Romanos. O seu termo religio tornou-se o nosso»[24].

Eis três definições de «Religião» no mesmo artigo que poderão aclarar a leitura que fizemos de algumas obras plásticas de Amadeo na ponte, também, com alguns dos seus textos, nomeadamente as suas cartas: 1. «Uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas» (Émile Durkheim)[25]; 2. «Religio (segundo Cícero): respeito que sente o indivíduo no mais profundo do seu ser face a todo o ser que disso é digno, do divino em particular. Este respeito manifesta-se pelo cuidado que se coloca ao participar em ritos e noutros gestos tradicionais da sociedade»; 3. «Religio (segundo Lucrécio): um sistema de ameaças e de promessas que cultiva e desenvolve o fundo receoso da natureza humana, que esmaga o homem, contra o qual, se ele é nobre e corajoso, ele se revolta, e do qual triunfa graças ao conhecimento científico e à sageza filosófica». Despland acrescenta em seguida referindo-se a Cícero e a Lucrécio: «Sublinhemos que estas duas ideias que louvam a religião ou convidam a colocá-la de lado e à sua superação, de facto não falam do mesmo fenómeno: o que Cícero quer conservar não é o que Lucrécio quer abolir.»

Conclusão

Sintetizando, nestas obras plásticas e nas cartas a Lucie, Amadeo tanto aborda os ritos e cultos de cariz religioso cristão (a oração das senhoras, as procissões), como os objetos ou coisas sagradas (o crucifixo, São Gonçalo na procissão…). Estes aspetos não deixam de estar em relação com outras dimensões vivenciais de Amadeo. Quando ele manifesta o seu fascínio[26][27] por «estas scenas primitivas», certamente faz o contraponto, como referimos, com outras realidades vivenciadas: o mundo das grandes cidades. Outros cultos, diríamos, da modernidade artística (que se cruza com o religioso cristão – vejam-se as linguagens plásticas da pintura Zinc com o Cristo). É o entusiasmo640 pela velocidade, pela técnica, pelo progresso civilizacional,

234

que fica patente nesta mesma pintura, simbolizado na aviação, neste caso dramática, no panorama da 1.ª Guerra. É a solenidade tradicional e popular de Corpus Christi expressa numa linguagem plástica vanguardista.

Civilização e urbanidade em paralelo e comunicação com natureza e ruralidade: «[…] formidável tempestade, vento, trovões, chuva. O aspecto é tenebroso. […] das serras vae tudo de enxurro. […]». A cultura perpassa estas dimensões, e há um culto, dir-se-ia, delas todas nestas obras e textos de Amadeo.

Não se tratou, porém, de encontrar linhas e sentidos que re-ligassem as várias dimensões e vertentes de Amadeo aqui abordadas reenviando para algo que se caracterizaria exclusivamente de religioso. Mas de pensar e apreender com elas o que as perpassa enquanto possíveis sentidos do religioso. Por outras palavras, tentou-se descortinar o sentido, a articulação dos sentidos possíveis do religioso em Amadeo.



[1] Cf. Amadeo de Souza-Cardoso, Catálogo Raisonné – Pintura, 2.ª edição, Lisboa, Sistema Solar (Documenta), Fundação Calouste Gulbenkian, 2016, p. 200.

[2] Op. cit., p. 200.

[3] Idem, pp. 200-201.

[4] Catarina Alfaro, sobre a pintura «Procissão Corpus Christi», cf. Amadeo de Souza-Cardoso, Paris, Éditions de la Réunion des musées nationaux, Grand Palais, 2016 [Catálogo da exposição], p. 156 (todas as traduções são da minha inteira responsabilidade).

[5] No entanto, como refere Catarina Alfaro «não se pode afirmar que a escolha do tema corresponda a um acto solitário na história da pintura modernista. Francis Picabia apresentou A Procissão, Sevillha, 1912 no Salão da Secção d’ Ouro, em Paris, 1912», Idem, p. 156.

[6] Sobre o diálogo tradição popular/vanguardas artísticas no modernismo ver Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura, 2018.

[7] Idem, p. 156.

[8] Margarida Cunha Belém e Margarida Guimarães Ramalho, Fotobiografia, p. 97.

[9] Cf. op. cit., Amadeo de Souza-Cardoso, Catálogo Raisonné, p. 201.

[10] Cf. op. cit., Fotobiografia, p. 49.

[11] Ver Amadeo de Souza-Cardoso, La Légende de Saint Julien l’Hospitalier, de Flaubert, Edição fac-similada, ensaio de Maria Filomena Molder, Lisboa, Assírio & Alvim, 2016.

[12] Cf. op. cit., Catálogo Raisonné, p. 202.

[13] Sobre a «unção» na magia, embora noutros contextos, veja-se o interessante livro de José Gil recentemente publicado: Caos e Ritmo, 2018, p. ex. p. 421.

[14] Jacques Vidal, «Magie et Religion» in AA.VV., Dictionnaire des Religions [1838 pág.], 1985, p. 994.

[15] Na entrada «Paganismo» in Dicionário das Religiões, 1990.

[16] Op. cit., Dictionnaire des Religions, pp. 994-996. Sobre a relação das «Máscaras oceânicas» (Têtes Océan) de Amadeo e uma potencial dimensão mágica, ver op. cit. Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura («Máscaras ou cabeças oceânicas», pp. 59-66); Luís de Barreiros Tavares, “Máscaras e cabeças oceânicas de Amadeo de Souza-Cardoso”, revista Caliban (online).

[17] Evoquemos de passagem uma das três categorias do Numinoso, elemento ou essência não-racional da religião: mysterium, tremendum e fascinans (cf. Rudolf Otto, Le Sacré [Das Heilige]). Em lugar do racional «o sentimento [termo fulcral nesta obra] de estado de criatura» (Otto, p. 24). Curiosamente, a palavra “sentimento” é usual em Amadeo. Na primeira carta aqui citada ela ressoa neste contexto: «Estas scenas primitivas, cheias de unção religiosa, têm um raro sabôr de esthetica e sentimento». Em eco a esta expressão, para Amadeo os “pintores das grandes religiões” “sentem emoções grandes” (carta ao tio Francisco, acima citada). “Numinoso” (al.: Numinoses), deriva do latim numen (movimento de cabeça manifestando a vontade, assentimento […], poder e vontade divina) e este de nuo (aceno); reenviando também para ōmen: “agouro”, “presságio”, “augúrio”, “sinal”, “indício” (favorável ou desfavorável). Otto faz referência a ōmen no alemão, semanticamente idêntico no latim (nota do tradutor, p. 21).

[18][Un quadre] És un object que t´l podries aplicar a una part del cos on tens dolor i serviria per irradiar una força benéfica(Antoni Tàpies, L’experiència de l’art, p. 85).

[19] Antoni Tàpies, op.cit., p. 245 (in “Contribuição da arte moderna”). Ver também Wassily Kandinsky, O Espiritual na Arte.

[20] Ver op. cit., Amadeo de Souza Cardoso, Éditions de la Réunion des musées nationaux, Grand Palais, p.260.

[21] MHF, idem, p. 260: “Cumplicidade evidente com o poeta Mário de Sá-Carneiro, autor do poema ‘Manucure’, alargando assim o campo de interpretações ao domínio da literatura: ‘Antes de me erguer lembra-me ainda, / A maravilha parisiense dos balcões de zinco, / Nos bares… não sei porquê…’”

[22] Espécie de grelhas metálicas com moldes de letras. A partir de certa altura Amadeo passou a assinar os seus quadros com essas peças.

[23] Nota recolhida em MHF, idem, p. 260: «Joana Cunha Leal numa conferência intitulada “Amadeo e a Guerra”, proferida no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a 21 de Novembro de 2013, no quadro do ciclo de conferências “Sob o signo de Amadeo”. Crucifixo com a imagem do Cristo sobre os campos de batalha.» 636 MHF, idem, p. 260.

[24] Op. cit. Michel Despland, «Religion», Dictionnaire des Religions, p. 1422.

[25] Idem, «Religion», p. 1421.

[26] Fascinans, evocando outra das três noções de Rudolf Otto em O Sagrado; ver nota 17.

[27] Evocando a raiz etimológica de «entusiasmo» (do grego ἔν-θεος). Cf. enthousiasmós: «divina habitação interior», «possessão» (F.E. Peters, Termos Filosóficos Gregos, Gulbenkian, p. 75). Na acepção de quem está possuído ou habitado pelos deuses. Tal é também, dir-se-ia, a condição de Ama-


quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes: Sentido espiritual e paulino de “através” | por Luís de Barreiros Tavares

 

 

                    Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes:

                     Sentido espiritual e paulino de “através”                                             

                                                   Luís de Barreiros Tavares


Publicado na Revista Nova Águia: “Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes: Sentido espiritual e paulino de ‘através’”, Nova Águia, nº 32, 2º semestre, 2023, pp. 204-209. [foram feitos alguns reparos para a edição online; incluiu-se a dedicatória; talvez sejam necessárias algumas limagens para uma futura edição]


Apóstolo Paulo (Paulo de Tarso) 
– por El Greco

 


Teixeira de Pascoaes  1877 (Amarante) - 1952 (Gatão)

                                                                                In memoriam Manuel da Costa Freitas

                                                                                a Carlos Henrique do Carmo Silva

                                                                                                      

“Agora, a Verdade é Jesus Cristo, morto e ressuscitado no coração do grande apóstolo. Jesus encontrou, no seu coração, uma nova gruta de Belém e o bafo acalentador da vaca, o hálito do Espírito Santo, que perpassa nas frases das suas epístolas, como o vento através das árvores.” (Teixeira de Pascoaes, São Paulo)

“Com Cristo fui crucificado. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.” (Gálatas 2:20)

“E porque sois filhos, Deus enviou o espírito do Seu filho para dentro dos nossos corações.” (Gálatas 4:6)

*

“’Através de algo’ quer dizer em grego:  diá [διὰ]”

Martin Heidegger, Hegel e os Gregos


“Que livro é este perturbado e perturbante, estranhamente agitado?”, escreve Leonardo Coimbra abrindo o seu texto “’São Paulo’ de Teixeira de Pascoais”. Neste texto, que se diria, também, um pouco exaltado e arrebatado, talvez por reflexo, Coimbra escreve mais à frente:” […] este livro é perturbador, para alguns leitores é mesmo um livro irritante (p. 214).” E num passo que ecoa o espírito de Paulo nos textos de Pascoaes: “O apóstolo – escreve Coimbra, de um modo poetizante –, é o centro de atracção da alma do Poeta, que, soerguida, bate as asas no ilimitado do sonho. Harpa eólia entregando-se ao vento que passa, alma dócil dando-se em emoção ao sopro do verbo que a arrepia” (p. 206).

Segundo Coimbra, Paulo é um dos “pólos da atenção espiritual do poeta [juntamente com Lucrécio]”, e encontra-se “no centro do jorramento da Vida, levando em seu impetuoso curso os mundos transfigurados e as almas renascidas” (p. 206). A belíssima conclusão do texto de Coimbra, juntamente com as restantes citações, não deixa de contextualizar, como veremos, e a seu modo, o propósito do nosso estudo:

 

“Cristo integral – abraço da Terra e do Céu, da criatura e do criador – Cristo histórico, preexistindo, mas vindo no tempo; Cristo ontológico e não cronológico, do corpo da história e não do seu princípio ou do seu fim, mas, sendo do princípio, do meio e do fim, inserindo-se no seu curso para lhe dar destino explícito, finalidade intencional, consciente e meritória.” (p. 224)

 

Não iremos aqui fazer uma análise do São Paulo de Pascoaes; livro, sem dúvida difícil e inquietante. Tão-pouco uma leitura demorada do texto de Coimbra sobre o mesmo. Trata-se apenas de pensar com uma breve passagem do livro de Pascoaes (ver epígrafe), e com ela tentar abordar a intuição do autor relativamente a um tema que achamos fundamental nas cartas de Paulo: a questão do espírito e da sua dimensão enquanto travessia, e o sentido paulino de “através”. Mas Paulo não deixa de manter na sua mensagem epistolar os laços entre alma, espírito e corpo. De um modo geral, em relação ao espírito, a alma estará mais ligada ao corpo e ao anímico (lat. anima – ver mais abaixo “espírito”). Não abordando os âmbitos mítico, simbólico e filosófico da alma, citamos alguns passos da entrada “Alma”, de Paul Van Imschoot, no NT e particularmente em Paulo (Dicionário Enciclopédico da Bíblia):

 

“[No NT] A palavra grega ψυχή (alma) vem de ψυχω (soprar, respirar) e siginifica originariamente sopro ou hálito, princípio vital, alma, vida, sede de pensamentos e sentimentos, às vezes pessoa. Portanto, ψυχή corresponde exactamente ao conteúdo do hebr. Nefeš. Só falta o sentido de garganta.”

Ψυχή significa, afinal, ser vivo, animal (Apoc. 16:3) ou homem (1 Cor.15:45)”

“S. Paulo menciona a alma ao lado de espírito e corpo [1 Tes. 5:23]”

 

Escutemos Paulo: “Que o próprio Deus da paz vos santifique, completos; e que todo o vosso espírito – e a alma e o corpo – irrepreensivelmente se conserve para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tes. 5:23). Por isso, faz sentido encontrar algum eco destes laços no seguinte passo de Coimbra, tendo como protagonistas Pascoaes (o “Poeta”) e Paulo numa partilha da travessia no tempo e no mundo, e cujo “amor puro e pleno ou caridade cristã” tem uma dimensão espiritual e evangélica (“segundo a minha boa-nova [κατὰ τὸ εὐαγγέλιόν μου] através de Cristo Jesus” Romanos 2:16): “Começa a peregrinação do Poeta querendo atravessar a alma de S. Paulo. Essa travessia é difícil, pois, sendo a alma liberdade, só é penetrável pelo amor e pelo amor puro e pleno ou caridade cristã” (p. 209).

A dimensão do espírito enquanto travessia é, por um lado, a condição de possibilidade de ele mesmo passar através de algo, e, por outro, de o que (de algo que) passa através dele (mas algo da ordem do espiritual: a palavra): “Mas ele [Jesus], respondendo, disse: ‘Ficou escrito: não é com base em pãoque viverá o ser humano, mas com base em toda a palavra saída através da boca de Deus.’” (Mateus 4:4). Pois, precisamente, na expressão com locução prepositiva “através do espírito” há a considerar o genitivo objectivo e o genitivo subjectivo (ver o nosso estudo “Da Travessia do Espírito”). Por isso, o espírito atravessa e atravessa-se. Quando a palavra espiritual – ou palavra-espírito –, correlativa do espírito, é mediada por ele, ela o medeia. A palavra, por um lado, é veiculada por ele, pelo espírito; e, por outro, perpassa-o.  Ela é veiculada por ele e veicula-se nele. Trans-re-spiração, pela palavra, do próprio movimento do espírito: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito santo os apóstolos que escolhera” (Act. Apóst. 1:2). Não esquecendo também que “através de” significa “de um lado para o outro”.

Espírito diz-se em grego πνεῦμα, que significa hálito, vento, ar em movimento. “Espírito” deriva do latim spiritus com o mesmo sentido (de spir – sopro...; daí respirar, inspirar, etc.; "expirou e morreu", por exemplo. Mas, se ao “espírito” corresponde o “espírito santo”, dir-se-á que esta acepção reenvia para outros planos que não somente os da alma, embora com suas relações juntamente com o corpo (1 Tes. 5:23 – ver acima sobre a “alma”).

Abordando, tanto quanto possível, algum terreno do grego, retirámos vários exemplos a partir do “Apêndice” do livro de Giorgio Agamben, Le temps qui reste e, quase na conclusão deste estudo, da página em linha “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament. Paulo emprega inúmeras vezes, e em vários contextos, uma palavra que é traduzida do grego pelo advérbio de lugar “através” (ou “através de”: locução prepositiva): διὰ (translit.: diá), ou preposição com genitivo (por exemplo: διὰ τοῦ – através do; διὰ τῆς – através da; ver citações 3, 4, 5 e 6).

Apresentarei alguns exemplos desta locução nas Cartas de Paulo (na tradução do grego por Frederico Lourenço) em vários contextos, onde o espírito (citações 4, 5, 6, 8, 9 e 11), espírito santo (2), corpo (5), fé (6, 11), Jesus Cristo (1, 3, 6 e 8), vontade de Deus (7), justiça (3), Pai (8),  etc., se manifestam nesta dinâmica da travessia, e onde o sentido do espírito de algum modo se adivinha. É, pois, no contexto do “espírito” – ventilando também o “Espírito Santo” –, que este breve estudo se situa (“o hálito do Espírito Santo, que perpassa nas frases das suas epístolas” Pascoaes). Eles parecem ser a charneira destes exemplos. O espírito está umas vezes implícito, outras vezes patente nestas passagens. Assim, o espírito é veículo de travessia. Ele veicula e é veiculado.

Em todas as passagens numeradas que seguem encontramos o advérbio “através”. Mas nem sempre “através” traduz διὰ. Damos apenas dois exemplos (prep. + acus.): “por causa de [διὰ δὲ] uns pseudoirmãos infiltrados” (Gálatas, 2:4 – com o texto grego, ver Agamben); “por causa de Cristo [διὰ τὸν Xριστν]” (Filipenses, 3:9 – com o texto grego, idem).

Consultando “Kata Biblon…”, nos Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) encontramos frequentemente διὰ sob outras formas. Sem entrar em detalhes, apresentam-se alguns exemplos: “porque” interrogativo (Marcos 2:18), “porque” (João 2:24), “por causa de” (Mar. 2:4), “por isso” (Jo. 1:31), etc. E διὰ também se encontra na tradução “através de”, sem ser “através do espírito” (ponto focal deste estudo): “dito pelo Senhor através do profeta” (Mateus 1:22), escrito através do profeta” (Mat. 2:5), “através de Jeremias” (Mat. 2:17), “através de Isaías” (Mat. 3:3), “através das searas” (Mar. 2:23), “falou através da boca dos santos” (Lucas 1:70), “falou através de uma parábola” (Luc. 8:4), etc.

Já nos Actos dos Apóstolos, de Lucas, cujo herói da narrativa é Paulo, há naturalmente algumas ressonâncias: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito santo” (1:2 – “espírito santo” é uma expressão frequente), “através da boca de todos os profetas” (3:18 – a boca é um motivo expressivo nesta obra), “Milagres invulgares fazia Deus através das mãos de Paulo” (19:11 – as mãos são outro elemento assinalável), “através de Jesus Cristo” (10:36), “indicou através do espírito” (11:28), “através da graça <de Deus>” (18:27), “enquanto Paulo apenas disse esta frase: ‘de maneira bonita falou o espírito santo através do profeta Isaías’ (28:25). Quer dizer, “falou o espírito santo através do [da fala do] profeta Isaías”.

Remontar ao Antigo Testamento e proceder a um inquérito sobre o espírito daria um outro estudo. Há, no entanto, implicações fundamentais que se transmitem para o Novo Testamento e, mais particularmente no que toca a este estudo, para a mensagem de Paulo (encontrámos boas referências na entrada “Espírito” no Dicionário Enciclopédico da Bíblia).

Mas o que importa aqui perceber é, digamos, a imanência de “através” (διὰ) na sua dimensão espiritual em Paulo.

De facto, a preposição διὰ na sua tradução com o advérbio “através” (ou loc. prep. “através de (do)”: por exemplo, διὰ τοῦ), encontra-se abundantemente na Carta aos Romanos (cerca de 50 ocorrências!). Mas também nas Cartas aos Coríntios e aos Gálatas. Pudemos confirmá-lo na consulta da tradução de Frederico Lourenço e na credenciada página em linha com o texto grego, que já referimos: (“Kata Biblon…” Liddell-Scott-Jones – autores do Greek-English Lexicon). Nesta tradução inglesa, acompanhando o texto grego com διὰ, encontra-se frequentemente “through” (através) e o correspondente “through of” (através de).

As epístolas que enunciámos acima são algumas das chamadas cartas autênticas de Paulo, por razões que não cabe aqui explicitar. As onze passagens que seguem abaixo incluem-se nestas cartas. É certo que não fizemos uma pesquisa tão exaustiva nas restantes cartas, mas também nelas encontramos a expressão significativa “através de”.

Sobre a Carta aos Romanos e as cartas autênticas de Paulo leia-se Frederico Lourenço na sua “Nota introdutória à Carta aos Romanos”:

 

“Sendo certo que esta epístola [Carta aos Romanos, “de extraordinária importância”] funciona, a vários níveis, como síntese de todo o pensamento de Paulo, não deixa de ser verdade, por outro lado, que se trata de um texto cujo alcance mais profundo só pode ser entendido por quem já tenha lido as outras cartas autênticas de Paulo, de preferência pela ordem cronológica que é hoje tida como consensual no scholarship sobre o Novo Testamento: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, e Carta a Filémon.”

 

Não esqueçamos que na passagem em epígrafe de Pascoaes encontramos a palavra “perpassa” (“perpassa nas frases”), que significa “atravessa”, entre outros sinónimos significativos (decorre, transcorre, percorre, etc.), e a locução “através de” (“através das árvores”).

Eis as passagens, sempre com as traduções de Frederico Lourenço para o português:  

1 – “Aqueles que mostram a obra da lei escrita nos seus corações, sendo testemunha a consciência deles e estando os pensamentos dentro deles a acusá-los ou a defendê-los, no dia em que Deus julga as coisas escondidas dos homens segundo a minha boa-nova através de Cristo Jesus [διὰ Ἰησοῦ χριστοῦ  χριστοῦ Ἰησοῦ }].” (Romanos 2:16 – itálicos nossos)

2 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament”: “A esperança não envergonha, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações através de um espírito santo [διὰ πνεύματος ἁγίου] que nos foi dado.” (Rom. 5:5 – itálicos nossos)

3 – Com a leitura do texto em grego a partir de Kata Biblon e Agamben, op. cit.: “Tal como através da desobediência [διὰ τῆς παρακοῆς] de uma só pessoa os muitos se tornaram perpetradores do erro, do mesmo modo também através da obediência [διὰ τῆς ὑπακοῆς] de um só muitos serão tornados justos. 

<A> lei entrou para que a transgressão abundasse. Mas onde a transgressão abundou, a graça superabundou, para que, tal como o erro reinou na morte, do mesmo modo a graça reinasse através de justiça [διὰ δικαιοσύνης] para a vida eterna através de Jesus Cristo, [διὰ Ἰησοῦ χριστοῦ] Nosso Senhor.” (Rom. 5:19 a 5:21– itálicos nossos)

4 – “O impossível <no âmbito> da lei (na medida em que ela fraquejava através da carne [διὰ τῆς σαρκός]) <foi o que> Deus <tornou possível> enviando o seu próprio filho em semelhança de uma carne de erro e, a respeito do erro, condenou o erro na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós que não caminhamos segundo a carne, mas sim segundo o espírito.” (Rom. 8:3 – itálicos nossos)

            5 – “Se o espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais através do espírito que habita em vós [διὰ {τὸ ἐνοικοῦν αὐτοῦ πνεῦμα  τοῦ ἐνοικοῦντος αὐτοῦ πνεύματος } ἐν ὑμῖν.]” (Rom. 8:11 – itálicos nossos)

6 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon: ”Exorto-vos, irmãos, através de Nosso Senhor Jesus Cristo e do amor do espírito, a que combatais comigo nas orações que fazeis a Deus por mim [διὰ τοῦ κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ χριστοῦκαὶ διὰ τῆς ἀγάπης τοῦ πνεύματος] […].” (Rom. 15:30 – itálicos nossos)

7 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon: ”[…] chegando em alegria até vós através da vontade de Deus [ἵνα ἐν χαρᾷ { ἔλθω  ἐλθὼν } πρὸς ὑμᾶς διὰ θελήματος θεοῦ], eu repouse convosco.” (Rom. 15:31 – itálicos nossos)

8 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon”: “A nós, porém, Deus <as> [“as coisas que o olho não viu e o ouvido não ouviu”] revelou através do espírito [διὰ τοῦ πνεύματος]. Pois o espírito tudo perscruta [τὸ γὰρ πνεῦμα πάντα { ἐρευνᾷ  ἐραυνᾷ }], até as profundezas de Deus.” (1 Coríntios 2:10 – itálicos nossos)

9 – Com a leitura do texto em grego a partir de Kata Biblon: “A cada um é dada a manifestação do espírito para o proveito comum. A um, através do espírito, é dado um discurso de sabedoria [ᾯ μὲν γὰρ διὰ τοῦ πνεύματος δίδοται λόγος σοφίας]; a outro, um discurso de conhecimento segundo o mesmo espírito […]” (1 Cor. 12:8 – itálicos nossos)

10 – “Pois é necessário que todos compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um seja recompensado em relação às coisas que fez através do corpo [διὰ τοῦ σώματος], quer <se trate de> coisa boa, quer de coisa má.” (2 Cor. 5:10 – itálicos nossos)

11 – Com a leitura do texto em grego “Kata Biblon” e Agamben, op.cit.: “Cristo resgatou-nos da maldição da lei ao tornar-se maldição por nós – porque ficou escrito: amaldiçoado é todo o dependurado de lenho – a fim de que para os gentios a bênção de Abraão viesse em Cristo Jesus, para que recebêssemos através da a promessa do espírito [τοῦ πνεύματος λάβωμεν διὰ τῆς πίστεως]” (Gálatas 3:13 – itálicos nossos)

Anexo

Ecoando o contexto, seguem-se três belíssimas passagens do São Paulo de Pascoaes. A primeira é do Prefácio. A segunda, curiosamente, lembra logo no início o célebre dito de Hipócrates, o médico grego: “Tudo conspira” (Sympnoia panta – no sentido de tudo respira-com ou, digamos, com-respira, com-sopra, trans-re-spira). A terceira aborda o célebre encontro com Lucas ("o médico amado”, Colossenses 4:14):  

“Não mandamos: obedecemos a correntes exteriores oriundas do Infinito. O espírito não está em nós: nós é que somos nele, como no ar que respiramos.” (p. 10)

“Tudo conspira a favor de Jesus… até aquela árvore carregada de folhas verdes, e aquele hálito de frescura que bafeja a fronte de Saulo [Paulo], e aquele murmúrio de água, entre as ervas. Mata a sede e logo sente como um alívio espiritual.” (p. 48)

“Lucas apareceu a S. Paulo, em pensamento, antes de o encarar, face a face, na rua duma cidade marítima. O fantasma nocturno ganhou existência, à luz do sol. Transitou de meio. O mesmo ser é homem ou fantasma, conforme nos aparece em sonhos ou na rua duma cidade, conforme se move no plano das coisas materiais, ou em outro plano transcendente, para lá das últimas estrelas, e em relação com o nosso espírito, que é o mesmo Espírito infinito. O que existe é o Espírito infinito e certas formas que ele encontra, no espaço, iluminando-as, semeando o espaço de luzes, que são almas.” (p. 124)

E talvez o sentido de “travessia”, de “através de” e de διὰ correspondam, de algum modo, ao que Alain Badiou designa geograficamente, e não só, como veremos, “a fundação do universalismo” em Paulo:

“Paulo vai então para Jerusalém, onde encontra Pedro e os apóstolos, e depois parte outra vez. Ignoramos as implicações deste primeiro encontro. Deve acreditar-se que não persuade Paulo da necessidade de se referir frequentemente ao ‘centro’ jerosolimitano, pois o seu segundo período de viagens militantes durará catorze anos! Cilícia, Síria, Turquia, Macedónia, Grécia. A dimensão excentrada da acção de Paulo é a subestrutura prática do seu pensamento, a qual afirma que toda a universalidade é desprovida de centro.” (Alain Badiou, São Paulo – A fundação do universalismo, p. 33)

“A sua visão das coisas, se abarca com fervor a dimensão do mundo, se vai até aos limites extremos do Império, […] é porque o cosmopolitismo urbano e as longas viagens talharam a amplitude. O universalismo de Paulo é também uma geografia interior […].” (op. cit., p. 36 – itálicos nossos)

E como vogamos em grandes incógnitas, e apenas percorremos, atravessamos, quase cegos, as grandes questões que acima de tudo nos interrogam, mas nos apelam e nos assinalam, leia-se Agamben, tendo a sua vez – o seu desafio –, divergindo de Badiou quanto ao universalismo de Paulo (para melhor contextualização, ver pp. 84-93):

“Para Paulo não se trata de ‘tolerar’ [Badiou] ou de atravessar as diferenças para encontrar para lá delas o mesmo e o universal. O universal não é para ele um princípio transcendente em função do qual se olham as diferenças – ele não dispõe de um tal ponto de vista – mas uma operação que divide as próprias divisões da lei e as torna inoperantes, sem com isso jamais alcançar um fundamento último.” (Le temps qui reste, p. 93)

Voltando a Paulo:

“Existem variedades de dons, mas <trata-se de> o mesmo espírito; e existem variedades de serviços, mas <trata-se> de o mesmo Senhor; e existem variedades de acções, mas <é> o mesmo Deus quem realiza todas as coisas em todos.” (1 Cor. 12:4 – ver citação 9, que continua esta passagem)

Post scriptum

“Indo, pois, tornai discípulos todas as nações, baptizando-os no nome do Pai, do filho e do espírito santo.” (Mateus 28:19)

Referências

Alain Badiou, São Paulo – A fundação do universalismo, posf. Carlos Vidal, trad.  Sandra Andrade, Ed. Vasco Santos, 2018.

António Freire S.J., Gramática Grega, Porto, Livraria A.I., 7ª edição, c. 1983.

BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. II: Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse, Lisboa, Quetzal, 2017.

BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. I: Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos, Lisboa, Quetzal, 2ª edição revista e aumentada, 2018.

Carlos Alberto Louro Fonseca, Iniciação ao Grego, Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Instituto de Estudos Clássicos, 2ª edição, 1987.

Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 8ª edição, 1991.

Dicionário de Latim-Português, org. António Gomes Ferreira, Porto, Porto Editora, (s/d). 

Dicionário Enciclopédico da Bíblia, org. A. Van Den Born – em colaboração com especialistas de renome internacional, trad. Frederico Stein, Petrópolis, RJ, Vozes, 1971.

Dicionário de Língua Portuguesa, Lisboa Porto Editora, 5ª edição, 1977.

Dicionário de Grego-Português e Português-Grego, Isidro Pereira, Porto, Apostolado da Imprensa, 1984.

Dictionnaire des Religions, dir. Paul Poupard, Paris, PUF, 1985.

Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1989.

Dicionário da Mitologia Grega e Romana, org. Pierre Grimal, trad. Victor Jabouille, Lisboa, Difel, 1986.

F. E. Peters, Termos Filosóficos Gregos, Um léxico Histórico, pref. de Miguel Baptista Pereira, trad. Beatriz Rodrigues Barbosa, Lisboa, Gulbenkian, 1983.

Giorgio Agamben, Le temps qui reste – Un commentaire de l’Épître aux Romains, Trad. Judith Revel, Paris, Rivage poche, 2004.

Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament. Página em linha.

Leonardo Coimbra, Dispersos – IV Filosofia e Religião, Compilação, fixação de texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel – Nota preliminar de Manuel da Costa Freitas, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1991.

Luís de Barreiros Tavares, “Da travessia do espírito”, Nova Águia 29, 1º semestre, Sintra, Zéfiro, Março de 2022. Em linha no blogue “Pessoa-Passante”.

Teixeira de Pascoaes, São Paulo, Lisboa, Ática, 1959.


"Pessoa, persona, pessoa como eu" – Filme documentário – Curta metragem

  Filme documentário (c 25 min): "Pessoa, persona, pessoa como eu". Um olhar sobre Fernando Pessoa – por Manoel Tavares Rodrigues-...