quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes: Sentido espiritual e paulino de “através” | por Luís de Barreiros Tavares

 

 

                    Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes:

                     Sentido espiritual e paulino de “através”                                             

                                                   Luís de Barreiros Tavares


Publicado na Revista Nova Águia: “Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes: Sentido espiritual e paulino de ‘através’”, Nova Águia, nº 32, 2º semestre, 2023, pp. 204-209. [foram feitos alguns reparos para a edição online; incluiu-se a dedicatória; talvez sejam necessárias algumas limagens para uma futura edição]


Apóstolo Paulo (Paulo de Tarso) 
– por El Greco

 


Teixeira de Pascoaes  1877 (Amarante) - 1952 (Gatão)

                                                                                

                                                                                a Carlos Henrique do Carmo Silva

                                                                                                      

“Agora, a Verdade é Jesus Cristo, morto e ressuscitado no coração do grande apóstolo. Jesus encontrou, no seu coração, uma nova gruta de Belém e o bafo acalentador da vaca, o hálito do Espírito Santo, que perpassa nas frases das suas epístolas, como o vento através das árvores.” (Teixeira de Pascoaes, São Paulo)

“Com Cristo fui crucificado. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.” (Gálatas 2:20)

“E porque sois filhos, Deus enviou o espírito do Seu filho para dentro dos nossos corações.” (Gálatas 4:6)

*

“’Através de algo’ quer dizer em grego:  diá [διὰ]”

Martin Heidegger, Hegel e os Gregos


“Que livro é este perturbado e perturbante, estranhamente agitado?”, escreve Leonardo Coimbra abrindo o seu texto “’São Paulo’ de Teixeira de Pascoais”. Neste texto, que se diria, também, um pouco exaltado e arrebatado, talvez por reflexo, Coimbra escreve mais à frente:” […] este livro é perturbador, para alguns leitores é mesmo um livro irritante (p. 214).” E num passo que ecoa o espírito de Paulo nos textos de Pascoaes: “O apóstolo – escreve Coimbra, de um modo poetizante –, é o centro de atracção da alma do Poeta, que, soerguida, bate as asas no ilimitado do sonho. Harpa eólia entregando-se ao vento que passa, alma dócil dando-se em emoção ao sopro do verbo que a arrepia” (p. 206).

Segundo Coimbra, Paulo é um dos “pólos da atenção espiritual do poeta [juntamente com Lucrécio]”, e encontra-se “no centro do jorramento da Vida, levando em seu impetuoso curso os mundos transfigurados e as almas renascidas” (p. 206). A belíssima conclusão do texto de Coimbra, juntamente com as restantes citações, não deixa de contextualizar, como veremos, e a seu modo, o propósito do nosso estudo:

 

“Cristo integral – abraço da Terra e do Céu, da criatura e do criador – Cristo histórico, preexistindo, mas vindo no tempo; Cristo ontológico e não cronológico, do corpo da história e não do seu princípio ou do seu fim, mas, sendo do princípio, do meio e do fim, inserindo-se no seu curso para lhe dar destino explícito, finalidade intencional, consciente e meritória.” (p. 224)

 

Não iremos aqui fazer uma análise do São Paulo de Pascoaes; livro, sem dúvida difícil e inquietante. Tão-pouco uma leitura demorada do texto de Coimbra sobre o mesmo. Trata-se apenas de pensar com uma breve passagem do livro de Pascoaes (ver epígrafe), e com ela tentar abordar a intuição do autor relativamente a um tema que achamos fundamental nas cartas de Paulo: a questão do espírito e da sua dimensão enquanto travessia, e o sentido paulino de “através”. Mas Paulo não deixa de manter na sua mensagem epistolar os laços entre alma, espírito e corpo. De um modo geral, em relação ao espírito, a alma estará mais ligada ao corpo e ao anímico (lat. anima – ver mais abaixo “espírito”). Não abordando os âmbitos mítico, simbólico e filosófico da alma, citamos alguns passos da entrada “Alma”, de Paul Van Imschoot, no NT e particularmente em Paulo (Dicionário Enciclopédico da Bíblia):

 

“[No NT] A palavra grega ψυχή (alma) vem de ψυχω (soprar, respirar) e siginifica originariamente sopro ou hálito, princípio vital, alma, vida, sede de pensamentos e sentimentos, às vezes pessoa. Portanto, ψυχή corresponde exactamente ao conteúdo do hebr. Nefeš. Só falta o sentido de garganta.”

Ψυχή significa, afinal, ser vivo, animal (Apoc. 16:3) ou homem (1 Cor.15:45)”

“S. Paulo menciona a alma ao lado de espírito e corpo [1 Tes. 5:23]”

 

Escutemos Paulo: “Que o próprio Deus da paz vos santifique, completos; e que todo o vosso espírito – e a alma e o corpo – irrepreensivelmente se conserve para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tes. 5:23). Por isso, faz sentido encontrar algum eco destes laços no seguinte passo de Coimbra, tendo como protagonistas Pascoaes (o “Poeta”) e Paulo numa partilha da travessia no tempo e no mundo, e cujo “amor puro e pleno ou caridade cristã” tem uma dimensão espiritual e evangélica (“segundo a minha boa-nova [κατὰ τὸ εὐαγγέλιόν μου] através de Cristo Jesus” Romanos 2:16): “Começa a peregrinação do Poeta querendo atravessar a alma de S. Paulo. Essa travessia é difícil, pois, sendo a alma liberdade, só é penetrável pelo amor e pelo amor puro e pleno ou caridade cristã” (p. 209).

A dimensão do espírito enquanto travessia é, por um lado, a condição de possibilidade de ele mesmo passar através de algo, e, por outro, de o que (de algo que) passa através dele (mas algo da ordem do espiritual: a palavra): “Mas ele [Jesus], respondendo, disse: ‘Ficou escrito: não é com base em pãoque viverá o ser humano, mas com base em toda a palavra saída através da boca de Deus.’” (Mateus 4:4). Pois, precisamente, na expressão com locução prepositiva “através do espírito” há a considerar o genitivo objectivo e o genitivo subjectivo (ver o nosso estudo “Da Travessia do Espírito”). Por isso, o espírito atravessa e atravessa-se. Quando a palavra espiritual – ou palavra-espírito –, correlativa do espírito, é mediada por ele, ela o medeia. A palavra, por um lado, é veiculada por ele, pelo espírito; e, por outro, perpassa-o.  Ela é veiculada por ele e veicula-se nele. Trans-re-spiração, pela palavra, do próprio movimento do espírito: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito santo os apóstolos que escolhera” (Act. Apóst. 1:2). Não esquecendo também que “através de” significa “de um lado para o outro”.

Espírito diz-se em grego πνεῦμα, que significa hálito, vento, ar em movimento. “Espírito” deriva do latim spiritus, com o mesmo sentido. Mas, se ao “espírito” corresponde o “espírito santo”, dir-se-á que esta acepção reenvia para outros planos que não somente os da alma, embora com suas relações juntamente com o corpo (1 Tes. 5:23 – ver acima sobre a “alma”).

Abordando, tanto quanto possível, algum terreno do grego, retirámos vários exemplos a partir do “Apêndice” do livro de Giorgio Agamben, Le temps qui reste e, quase na conclusão deste estudo, da página em linha “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament. Paulo emprega inúmeras vezes, e em vários contextos, uma palavra que é traduzida do grego pelo advérbio de lugar “através” (ou “através de”: locução prepositiva): διὰ (translit.: diá), ou preposição com genitivo (por exemplo: διὰ τοῦ – através do; διὰ τῆς – através da; ver citações 3, 4, 5 e 6).

Apresentarei alguns exemplos desta locução nas Cartas de Paulo (na tradução do grego por Frederico Lourenço) em vários contextos, onde o espírito (citações 4, 5, 6, 8, 9 e 11), espírito santo (2), corpo (5), fé (6, 11), Jesus Cristo (1, 3, 6 e 8), vontade de Deus (7), justiça (3), Pai (8),  etc., se manifestam nesta dinâmica da travessia, e onde o sentido do espírito de algum modo se adivinha. É, pois, no contexto do “espírito” – ventilando também o “Espírito Santo” –, que este breve estudo se situa (“o hálito do Espírito Santo, que perpassa nas frases das suas epístolas” Pascoaes). Eles parecem ser a charneira destes exemplos. O espírito está umas vezes implícito, outras vezes patente nestas passagens. Assim, o espírito é veículo de travessia. Ele veicula e é veiculado.

Em todas as passagens numeradas que seguem encontramos o advérbio “através”. Mas nem sempre “através” traduz διὰ. Damos apenas dois exemplos (prep. + acus.): “por causa de [διὰ δὲ] uns pseudoirmãos infiltrados” (Gálatas, 2:4 – com o texto grego, ver Agamben); “por causa de Cristo [διὰ τὸν Xριστν]” (Filipenses, 3:9 – com o texto grego, idem).

Consultando “Kata Biblon…”, nos Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) encontramos frequentemente διὰ sob outras formas. Sem entrar em detalhes, apresentam-se alguns exemplos: “porque” interrogativo (Marcos 2:18), “porque” (João 2:24), “por causa de” (Mar. 2:4), “por isso” (Jo. 1:31), etc. E διὰ também se encontra na tradução “através de”, sem ser “através do espírito” (ponto focal deste estudo): “dito pelo Senhor através do profeta” (Mateus 1:22), escrito através do profeta” (Mat. 2:5), “através de Jeremias” (Mat. 2:17), “através de Isaías” (Mat. 3:3), “através das searas” (Mar. 2:23), “falou através da boca dos santos” (Lucas 1:70), “falou através de uma parábola” (Luc. 8:4), etc.

Já nos Actos dos Apóstolos, de Lucas, cujo herói da narrativa é Paulo, há naturalmente algumas ressonâncias: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito santo” (1:2 – “espírito santo” é uma expressão frequente), “através da boca de todos os profetas” (3:18 – a boca é um motivo expressivo nesta obra), “Milagres invulgares fazia Deus através das mãos de Paulo” (19:11 – as mãos são outro elemento assinalável), “através de Jesus Cristo” (10:36), “indicou através do espírito” (11:28), “através da graça <de Deus>” (18:27), “enquanto Paulo apenas disse esta frase: ‘de maneira bonita falou o espírito santo através do profeta Isaías’ (28:25). Quer dizer, “falou o espírito santo através do [da fala do] profeta Isaías”.

Remontar ao Antigo Testamento e proceder a um inquérito sobre o espírito daria um outro estudo. Há, no entanto, implicações fundamentais que se transmitem para o Novo Testamento e, mais particularmente no que toca a este estudo, para a mensagem de Paulo (encontrámos boas referências na entrada “Espírito” no Dicionário Enciclopédico da Bíblia).

Mas o que importa aqui perceber é, digamos, a imanência de “através” (διὰ) na sua dimensão espiritual em Paulo.

De facto, a preposição διὰ na sua tradução com o advérbio “através” (ou loc. prep. “através de (do)”: por exemplo, διὰ τοῦ), encontra-se abundantemente na Carta aos Romanos (cerca de 50 ocorrências!). Mas também nas Cartas aos Coríntios e aos Gálatas. Pudemos confirmá-lo na consulta da tradução de Frederico Lourenço e na credenciada página em linha com o texto grego, que já referimos: (“Kata Biblon…” Liddell-Scott-Jones – autores do Greek-English Lexicon). Nesta tradução inglesa, acompanhando o texto grego com διὰ, encontra-se frequentemente “through” (através) e o correspondente “through of” (através de).

As epístolas que enunciámos acima são algumas das chamadas cartas autênticas de Paulo, por razões que não cabe aqui explicitar. As onze passagens que seguem abaixo incluem-se nestas cartas. É certo que não fizemos uma pesquisa tão exaustiva nas restantes cartas, mas também nelas encontramos a expressão significativa “através de”.

Sobre a Carta aos Romanos e as cartas autênticas de Paulo leia-se Frederico Lourenço na sua “Nota introdutória à Carta aos Romanos”:

 

“Sendo certo que esta epístola [Carta aos Romanos, “de extraordinária importância”] funciona, a vários níveis, como síntese de todo o pensamento de Paulo, não deixa de ser verdade, por outro lado, que se trata de um texto cujo alcance mais profundo só pode ser entendido por quem já tenha lido as outras cartas autênticas de Paulo, de preferência pela ordem cronológica que é hoje tida como consensual no scholarship sobre o Novo Testamento: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, e Carta a Filémon.”

 

Não esqueçamos que na passagem em epígrafe de Pascoaes encontramos a palavra “perpassa” (“perpassa nas frases”), que significa “atravessa”, entre outros sinónimos significativos (decorre, transcorre, percorre, etc.), e a locução “através de” (“através das árvores”).

Eis as passagens, sempre com as traduções de Frederico Lourenço para o português:  

1 – “Aqueles que mostram a obra da lei escrita nos seus corações, sendo testemunha a consciência deles e estando os pensamentos dentro deles a acusá-los ou a defendê-los, no dia em que Deus julga as coisas escondidas dos homens segundo a minha boa-nova através de Cristo Jesus [διὰ Ἰησοῦ χριστοῦ  χριστοῦ Ἰησοῦ }].” (Romanos 2:16 – itálicos nossos)

2 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament”: “A esperança não envergonha, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações através de um espírito santo [διὰ πνεύματος ἁγίου] que nos foi dado.” (Rom. 5:5 – itálicos nossos)

3 – Com a leitura do texto em grego a partir de Kata Biblon e Agamben, op. cit.: “Tal como através da desobediência [διὰ τῆς παρακοῆς] de uma só pessoa os muitos se tornaram perpetradores do erro, do mesmo modo também através da obediência [διὰ τῆς ὑπακοῆς] de um só muitos serão tornados justos. 

<A> lei entrou para que a transgressão abundasse. Mas onde a transgressão abundou, a graça superabundou, para que, tal como o erro reinou na morte, do mesmo modo a graça reinasse através de justiça [διὰ δικαιοσύνης] para a vida eterna através de Jesus Cristo, [διὰ Ἰησοῦ χριστοῦ] Nosso Senhor.” (Rom. 5:19 a 5:21– itálicos nossos)

4 – “O impossível <no âmbito> da lei (na medida em que ela fraquejava através da carne [διὰ τῆς σαρκός]) <foi o que> Deus <tornou possível> enviando o seu próprio filho em semelhança de uma carne de erro e, a respeito do erro, condenou o erro na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós que não caminhamos segundo a carne, mas sim segundo o espírito.” (Rom. 8:3 – itálicos nossos)

            5 – “Se o espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais através do espírito que habita em vós [διὰ {τὸ ἐνοικοῦν αὐτοῦ πνεῦμα  τοῦ ἐνοικοῦντος αὐτοῦ πνεύματος } ἐν ὑμῖν.]” (Rom. 8:11 – itálicos nossos)

6 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon: ”Exorto-vos, irmãos, através de Nosso Senhor Jesus Cristo e do amor do espírito, a que combatais comigo nas orações que fazeis a Deus por mim [διὰ τοῦ κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ χριστοῦκαὶ διὰ τῆς ἀγάπης τοῦ πνεύματος] […].” (Rom. 15:30 – itálicos nossos)

7 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon: ”[…] chegando em alegria até vós através da vontade de Deus [ἵνα ἐν χαρᾷ { ἔλθω  ἐλθὼν } πρὸς ὑμᾶς διὰ θελήματος θεοῦ], eu repouse convosco.” (Rom. 15:31 – itálicos nossos)

8 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon”: “A nós, porém, Deus <as> [“as coisas que o olho não viu e o ouvido não ouviu”] revelou através do espírito [διὰ τοῦ πνεύματος]. Pois o espírito tudo perscruta [τὸ γὰρ πνεῦμα πάντα { ἐρευνᾷ  ἐραυνᾷ }], até as profundezas de Deus.” (1 Coríntios 2:10 – itálicos nossos)

9 – Com a leitura do texto em grego a partir de Kata Biblon: “A cada um é dada a manifestação do espírito para o proveito comum. A um, através do espírito, é dado um discurso de sabedoria [ᾯ μὲν γὰρ διὰ τοῦ πνεύματος δίδοται λόγος σοφίας]; a outro, um discurso de conhecimento segundo o mesmo espírito […]” (1 Cor. 12:8 – itálicos nossos)

10 – “Pois é necessário que todos compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um seja recompensado em relação às coisas que fez através do corpo [διὰ τοῦ σώματος], quer <se trate de> coisa boa, quer de coisa má.” (2 Cor. 5:10 – itálicos nossos)

11 – Com a leitura do texto em grego “Kata Biblon” e Agamben, op.cit.: “Cristo resgatou-nos da maldição da lei ao tornar-se maldição por nós – porque ficou escrito: amaldiçoado é todo o dependurado de lenho – a fim de que para os gentios a bênção de Abraão viesse em Cristo Jesus, para que recebêssemos através da a promessa do espírito [τοῦ πνεύματος λάβωμεν διὰ τῆς πίστεως]” (Gálatas 3:13 – itálicos nossos)

Anexo

Ecoando o contexto, seguem-se três belíssimas passagens do São Paulo de Pascoaes. A primeira é do Prefácio. A segunda, curiosamente, lembra logo no início o célebre dito de Hipócrates, o médico grego: “Tudo conspira” (Sympnoia panta – no sentido de tudo respira-com ou, digamos, com-respira, com-sopra, trans-re-spira). A terceira aborda o célebre encontro com Lucas ("o médico amado”, Colossenses 4:14):  

“Não mandamos: obedecemos a correntes exteriores oriundas do Infinito. O espírito não está em nós: nós é que somos nele, como no ar que respiramos.” (p. 10)

“Tudo conspira a favor de Jesus… até aquela árvore carregada de folhas verdes, e aquele hálito de frescura que bafeja a fronte de Saulo [Paulo], e aquele murmúrio de água, entre as ervas. Mata a sede e logo sente como um alívio espiritual.” (p. 48)

“Lucas apareceu a S. Paulo, em pensamento, antes de o encarar, face a face, na rua duma cidade marítima. O fantasma nocturno ganhou existência, à luz do sol. Transitou de meio. O mesmo ser é homem ou fantasma, conforme nos aparece em sonhos ou na rua duma cidade, conforme se move no plano das coisas materiais, ou em outro plano transcendente, para lá das últimas estrelas, e em relação com o nosso espírito, que é o mesmo Espírito infinito. O que existe é o Espírito infinito e certas formas que ele encontra, no espaço, iluminando-as, semeando o espaço de luzes, que são almas.” (p. 124)

E talvez o sentido de “travessia”, de “através de” e de διὰ correspondam, de algum modo, ao que Alain Badiou designa geograficamente, e não só, como veremos, “a fundação do universalismo” em Paulo:

“Paulo vai então para Jerusalém, onde encontra Pedro e os apóstolos, e depois parte outra vez. Ignoramos as implicações deste primeiro encontro. Deve acreditar-se que não persuade Paulo da necessidade de se referir frequentemente ao ‘centro’ jerosolimitano, pois o seu segundo período de viagens militantes durará catorze anos! Cilícia, Síria, Turquia, Macedónia, Grécia. A dimensão excentrada da acção de Paulo é a subestrutura prática do seu pensamento, a qual afirma que toda a universalidade é desprovida de centro.” (Alain Badiou, São Paulo – A fundação do universalismo, p. 33)

“A sua visão das coisas, se abarca com fervor a dimensão do mundo, se vai até aos limites extremos do Império, […] é porque o cosmopolitismo urbano e as longas viagens talharam a amplitude. O universalismo de Paulo é também uma geografia interior […].” (op. cit., p. 36 – itálicos nossos)

E como vogamos em grandes incógnitas, e apenas percorremos, atravessamos, quase cegos, as grandes questões que acima de tudo nos interrogam, mas nos apelam e nos assinalam, leia-se Agamben, tendo a sua vez – o seu desafio –, divergindo de Badiou quanto ao universalismo de Paulo (para melhor contextualização, ver pp. 84-93):

“Para Paulo não se trata de ‘tolerar’ [Badiou] ou de atravessar as diferenças para encontrar para lá delas o mesmo e o universal. O universal não é para ele um princípio transcendente em função do qual se olham as diferenças – ele não dispõe de um tal ponto de vista – mas uma operação que divide as próprias divisões da lei e as torna inoperantes, sem com isso jamais alcançar um fundamento último.” (Le temps qui reste, p. 93)

Voltando a Paulo:

“Existem variedades de dons, mas <trata-se de> o mesmo espírito; e existem variedades de serviços, mas <trata-se> de o mesmo Senhor; e existem variedades de acções, mas <é> o mesmo Deus quem realiza todas as coisas em todos.” (1 Cor. 12:4 – ver citação 9, que continua esta passagem)

Post scriptum

“Indo, pois, tornai discípulos todas as nações, baptizando-os no nome do Pai, do filho e do espírito santo.” (Mateus 28:19)

Referências

Alain Badiou, São Paulo – A fundação do universalismo, posf. Carlos Vidal, trad.  Sandra Andrade, Ed. Vasco Santos, 2018.

António Freire S.J., Gramática Grega, Porto, Livraria A.I., 7ª edição, c. 1983.

BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. II: Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse, Lisboa, Quetzal, 2017.

BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. I: Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos, Lisboa, Quetzal, 2ª edição revista e aumentada, 2018.

Carlos Alberto Louro Fonseca, Iniciação ao Grego, Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Instituto de Estudos Clássicos, 2ª edição, 1987.

Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 8ª edição, 1991.

Dicionário de Latim-Português, org. António Gomes Ferreira, Porto, Porto Editora, (s/d). 

Dicionário Enciclopédico da Bíblia, org. A. Van Den Born – em colaboração com especialistas de renome internacional, trad. Frederico Stein, Petrópolis, RJ, Vozes, 1971.

Dicionário de Língua Portuguesa, Lisboa Porto Editora, 5ª edição, 1977.

Dicionário de Grego-Português e Português-Grego, Isidro Pereira, Porto, Apostolado da Imprensa, 1984.

Dictionnaire des Religions, dir. Paul Poupard, Paris, PUF, 1985.

Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1989.

Dicionário da Mitologia Grega e Romana, org. Pierre Grimal, trad. Victor Jabouille, Lisboa, Difel, 1986.

F. E. Peters, Termos Filosóficos Gregos, Um léxico Histórico, pref. de Miguel Baptista Pereira, trad. Beatriz Rodrigues Barbosa, Lisboa, Gulbenkian, 1983.

Giorgio Agamben, Le temps qui reste – Un commentaire de l’Épître aux Romains, Trad. Judith Revel, Paris, Rivage poche, 2004.

Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament. Página em linha.

Leonardo Coimbra, Dispersos – IV Filosofia e Religião, Compilação, fixação de texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel – Nota preliminar de Manuel da Costa Freitas, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1991.

Luís de Barreiros Tavares, “Da travessia do espírito”, Nova Águia 29, 1º semestre, Sintra, Zéfiro, Março de 2022. Em linha no blogue “Pessoa-Passante”.

Teixeira de Pascoaes, São Paulo, Lisboa, Ática, 1959.


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