Sobre uma passagem no São Paulo de
Pascoaes:
Sentido espiritual e paulino de “através”
Luís
de Barreiros Tavares
Publicado na Revista Nova Águia: “Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes: Sentido espiritual e paulino de ‘através’”, Nova Águia, nº 32, 2º semestre, 2023, pp. 204-209. [foram feitos alguns reparos para a edição online; incluiu-se a dedicatória; talvez sejam necessárias algumas limagens para uma futura edição]
Apóstolo Paulo (Paulo de Tarso) – por El Greco
a Carlos Henrique do Carmo Silva
“Agora,
a Verdade é Jesus Cristo, morto e ressuscitado no coração do grande apóstolo.
Jesus encontrou, no seu coração, uma nova gruta de Belém e o bafo acalentador
da vaca, o hálito do Espírito Santo, que perpassa nas
frases das suas epístolas, como o vento através das árvores.” (Teixeira de
Pascoaes, São Paulo)
“Com Cristo fui crucificado. Já não sou eu que
vivo, mas é Cristo que vive em mim.” (Gálatas 2:20)
“E porque sois filhos, Deus enviou o espírito do
Seu filho para dentro dos nossos corações.” (Gálatas 4:6)
*
“’Através de algo’ quer dizer em grego: diá [διὰ]”
Martin
Heidegger, Hegel e os Gregos
“Que livro é este perturbado e perturbante,
estranhamente agitado?”, escreve Leonardo Coimbra abrindo o seu texto “’São
Paulo’ de Teixeira de Pascoais”. Neste texto, que se diria, também, um pouco
exaltado e arrebatado, talvez por reflexo, Coimbra escreve mais à frente:” […]
este livro é perturbador, para alguns leitores é mesmo um livro irritante (p.
214).” E num passo que ecoa o espírito de Paulo nos textos de Pascoaes: “O
apóstolo – escreve Coimbra, de um modo poetizante –, é o centro de atracção da alma
do Poeta, que, soerguida, bate as asas no ilimitado do sonho. Harpa eólia
entregando-se ao vento que passa, alma dócil dando-se em emoção ao sopro do
verbo que a arrepia” (p. 206).
Segundo Coimbra, Paulo é um dos “pólos da
atenção espiritual do poeta [juntamente com Lucrécio]”, e encontra-se “no
centro do jorramento da Vida, levando em seu impetuoso curso os mundos
transfigurados e as almas renascidas” (p. 206). A belíssima conclusão do texto
de Coimbra, juntamente com as restantes citações, não deixa de contextualizar,
como veremos, e a seu modo, o propósito do nosso estudo:
“Cristo integral – abraço da Terra e do Céu,
da criatura e do criador – Cristo histórico, preexistindo, mas vindo no tempo;
Cristo ontológico e não cronológico, do corpo da história e não do seu
princípio ou do seu fim, mas, sendo do princípio, do meio e do fim,
inserindo-se no seu curso para lhe dar destino explícito, finalidade
intencional, consciente e meritória.” (p. 224)
Não iremos aqui fazer uma análise do São
Paulo de Pascoaes; livro, sem dúvida difícil e inquietante. Tão-pouco uma
leitura demorada do texto de Coimbra sobre o mesmo. Trata-se apenas de pensar
com uma breve passagem do livro de Pascoaes (ver epígrafe), e com ela tentar
abordar a intuição do autor relativamente a um tema que achamos fundamental nas
cartas de Paulo: a questão do espírito e da sua dimensão enquanto travessia,
e o sentido paulino de “através”. Mas Paulo não deixa de manter na sua mensagem
epistolar os laços entre alma, espírito e corpo. De um modo geral, em relação
ao espírito, a alma estará mais ligada ao corpo e ao anímico (lat. anima
– ver mais abaixo “espírito”). Não abordando os âmbitos mítico, simbólico e
filosófico da alma, citamos alguns passos da entrada “Alma”, de Paul Van
Imschoot, no NT e particularmente em Paulo (Dicionário Enciclopédico da
Bíblia):
“[No NT] A palavra grega ψυχή (alma) vem de ψυχω (soprar, respirar) e siginifica
originariamente sopro ou hálito, princípio vital, alma, vida, sede de
pensamentos e sentimentos, às vezes pessoa. Portanto, ψυχή corresponde exactamente ao conteúdo
do hebr. Nefeš. Só falta o sentido de garganta.”
“Ψυχή significa, afinal, ser vivo, animal (Apoc. 16:3)
ou homem (1 Cor.15:45)”
“S. Paulo menciona a alma ao lado de espírito
e corpo [1 Tes. 5:23]”
Escutemos Paulo: “Que o próprio Deus da paz vos
santifique, completos; e que todo o vosso espírito – e a alma e o corpo –
irrepreensivelmente se conserve para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1
Tes. 5:23). Por isso, faz sentido encontrar algum eco destes laços no seguinte
passo de Coimbra, tendo como protagonistas Pascoaes (o “Poeta”) e Paulo numa
partilha da travessia no tempo e no mundo, e cujo “amor puro e pleno ou
caridade cristã” tem uma dimensão espiritual e evangélica (“segundo a minha boa-nova [κατὰ τὸ εὐαγγέλιόν μου] através de Cristo Jesus” Romanos
2:16): “Começa a peregrinação do Poeta
querendo atravessar a alma de S. Paulo. Essa travessia é difícil, pois, sendo a
alma liberdade, só é penetrável pelo amor e pelo amor puro e pleno ou caridade
cristã” (p. 209).
A dimensão do espírito enquanto travessia é, por um lado, a condição de possibilidade de ele
mesmo passar através de algo, e, por outro, de o que (de algo que) passa através
dele (mas algo da ordem do espiritual: a palavra): “Mas ele [Jesus],
respondendo, disse: ‘Ficou escrito: não é com base em pão só que
viverá o ser humano, mas com base em toda a palavra saída através da
boca de Deus.’” (Mateus 4:4). Pois, precisamente, na expressão com locução
prepositiva “através do espírito” há a considerar o genitivo objectivo e o genitivo
subjectivo (ver o nosso estudo “Da Travessia do Espírito”). Por isso, o
espírito atravessa e atravessa-se. Quando a palavra espiritual – ou
palavra-espírito –, correlativa do espírito, é mediada por ele, ela o medeia. A
palavra, por um lado, é veiculada por ele, pelo espírito; e, por outro,
perpassa-o. Ela é veiculada por ele e veicula-se nele. Trans-re-spiração, pela
palavra, do próprio movimento do espírito: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito
santo os apóstolos que escolhera” (Act. Apóst. 1:2). Não esquecendo também que
“através de” significa “de um lado para o outro”.
Espírito diz-se em grego πνεῦμα, que significa hálito, vento, ar em
movimento. “Espírito” deriva do latim spiritus, com o mesmo sentido. Mas, se ao “espírito”
corresponde o “espírito santo”, dir-se-á que esta acepção reenvia para outros
planos que não somente os da alma, embora com suas relações juntamente com o
corpo (1 Tes. 5:23 – ver acima sobre a “alma”).
Abordando, tanto quanto possível, algum
terreno do grego, retirámos vários exemplos a
partir do “Apêndice” do livro de Giorgio Agamben, Le temps qui reste e,
quase na conclusão deste estudo, da página em linha “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament”. Paulo emprega inúmeras vezes, e em vários
contextos, uma palavra que é traduzida do grego pelo advérbio de lugar “através”
(ou “através de”: locução prepositiva): διὰ (translit.: diá), ou preposição com
genitivo (por exemplo: διὰ τοῦ – através do; διὰ τῆς – através da;
ver citações 3, 4, 5 e 6).
Apresentarei alguns exemplos desta locução nas Cartas de Paulo (na tradução do grego por Frederico
Lourenço) em vários contextos, onde o espírito (citações 4, 5, 6, 8, 9 e 11), espírito
santo (2), corpo (5), fé (6, 11), Jesus Cristo (1, 3, 6 e 8), vontade de Deus
(7), justiça (3), Pai (8), etc., se
manifestam nesta dinâmica da travessia, e onde o sentido do espírito de
algum modo se adivinha. É, pois, no contexto do “espírito” – ventilando também
o “Espírito Santo” –, que este breve estudo se situa (“o hálito do Espírito
Santo, que perpassa nas frases das suas epístolas” Pascoaes). Eles parecem ser
a charneira destes exemplos. O espírito está umas vezes implícito, outras vezes
patente nestas passagens. Assim, o espírito é veículo de travessia. Ele veicula
e é veiculado.
Em todas as passagens numeradas que seguem encontramos
o advérbio “através”. Mas nem sempre “através” traduz διὰ.
Damos apenas dois exemplos (prep. + acus.): “por causa de [διὰ δὲ] uns pseudoirmãos infiltrados” (Gálatas, 2:4 –
com o texto grego, ver Agamben); “por causa de Cristo [διὰ τὸν Xριστὸν]” (Filipenses, 3:9 – com
o texto grego, idem).
Consultando “Kata Biblon…”, nos Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) encontramos frequentemente
διὰ sob outras formas. Sem entrar em detalhes, apresentam-se
alguns exemplos: “porque” interrogativo (Marcos 2:18), “porque” (João 2:24), “por
causa de” (Mar. 2:4), “por isso” (Jo. 1:31), etc. E διὰ também se encontra na
tradução “através de”, sem ser “através do espírito” (ponto focal deste estudo):
“dito pelo Senhor através do profeta” (Mateus 1:22), “escrito através
do profeta” (Mat. 2:5), “através de Jeremias” (Mat. 2:17), “através de Isaías” (Mat. 3:3), “através das searas” (Mar. 2:23), “falou através da boca dos
santos” (Lucas 1:70), “falou através de uma parábola” (Luc. 8:4), etc.
Já nos Actos dos Apóstolos, de Lucas, cujo herói
da narrativa é Paulo, há naturalmente algumas ressonâncias: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito santo” (1:2
– “espírito santo” é uma expressão frequente), “através da boca de todos os
profetas” (3:18 – a boca é um motivo expressivo nesta obra),
“Milagres invulgares fazia Deus através
das mãos de Paulo” (19:11 – as mãos são outro elemento assinalável), “através de Jesus Cristo”
(10:36), “indicou através do espírito” (11:28), “através
da graça <de Deus>” (18:27), “enquanto Paulo apenas disse esta frase: ‘de maneira
bonita falou o espírito santo através do profeta
Isaías’” (28:25). Quer dizer, “falou o espírito santo através do [da
fala do] profeta Isaías”.
Remontar ao Antigo Testamento e
proceder a um inquérito sobre o espírito daria um outro estudo. Há, no
entanto, implicações fundamentais que se transmitem para o Novo Testamento
e, mais particularmente no que toca a este estudo, para a mensagem de Paulo
(encontrámos boas referências na entrada “Espírito” no Dicionário
Enciclopédico da Bíblia).
Mas o que importa aqui perceber é,
digamos, a imanência de “através” (διὰ) na sua dimensão espiritual em Paulo.
De facto, a preposição διὰ na sua tradução com o
advérbio “através” (ou loc. prep. “através de (do)”: por exemplo, διὰ τοῦ), encontra-se
abundantemente na Carta aos Romanos (cerca de 50 ocorrências!). Mas também nas
Cartas aos Coríntios e aos Gálatas. Pudemos confirmá-lo na consulta da tradução
de Frederico Lourenço e na credenciada página em linha com o texto grego, que
já referimos: (“Kata
Biblon…” Liddell-Scott-Jones – autores do Greek-English Lexicon). Nesta tradução inglesa, acompanhando o texto grego
com διὰ, encontra-se frequentemente “through”
(através) e o correspondente “through of” (através de).
As
epístolas que enunciámos acima são algumas das
chamadas cartas autênticas de Paulo, por razões que não cabe aqui explicitar. As
onze passagens que seguem abaixo incluem-se nestas cartas. É certo que não
fizemos uma pesquisa tão exaustiva nas restantes cartas, mas também nelas
encontramos a expressão significativa “através de”.
Sobre a Carta aos Romanos e as cartas
autênticas de Paulo leia-se Frederico Lourenço na sua “Nota introdutória à
Carta aos Romanos”:
“Sendo certo que esta epístola [Carta aos
Romanos, “de extraordinária importância”] funciona, a vários níveis, como
síntese de todo o pensamento de Paulo, não deixa de ser verdade, por outro
lado, que se trata de um texto cujo alcance mais profundo só pode ser entendido
por quem já tenha lido as outras cartas autênticas de Paulo, de preferência
pela ordem cronológica que é hoje tida como consensual no scholarship
sobre o Novo Testamento: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios,
2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, e Carta a
Filémon.”
Não esqueçamos que na passagem em epígrafe de
Pascoaes encontramos a palavra “perpassa” (“perpassa nas frases”), que
significa “atravessa”, entre outros sinónimos significativos (decorre,
transcorre, percorre, etc.), e a locução “através de” (“através das árvores”).
Eis as passagens, sempre com as traduções de Frederico
Lourenço para o português:
1 – “Aqueles que mostram a obra da lei escrita nos
seus corações, sendo testemunha a consciência deles e estando os pensamentos
dentro deles a acusá-los ou a defendê-los, no dia em que Deus julga as coisas
escondidas dos homens segundo a minha boa-nova através
de Cristo Jesus [διὰ { Ἰησοῦ χριστοῦ ⬪ χριστοῦ Ἰησοῦ }].” (Romanos 2:16 – itálicos nossos)
2 – Com a leitura do
texto em grego a partir de “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament”: “A esperança não envergonha,
porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações através de um espírito
santo [διὰ πνεύματος ἁγίου] que nos foi dado.” (Rom. 5:5 –
itálicos nossos)
3 – Com a leitura do
texto em grego a partir de Kata Biblon e Agamben, op. cit.: “Tal
como através da desobediência [διὰ τῆς παρακοῆς] de uma só pessoa os muitos se tornaram
perpetradores do erro, do mesmo modo também através da obediência
[διὰ τῆς ὑπακοῆς] de um só muitos serão tornados justos.
<A> lei
entrou para que a transgressão abundasse. Mas onde a transgressão abundou, a
graça superabundou, para que, tal como o erro reinou na morte, do mesmo modo a
graça reinasse através de justiça [διὰ δικαιοσύνης] para a vida eterna através
de Jesus Cristo, [διὰ Ἰησοῦ χριστοῦ] Nosso Senhor.” (Rom. 5:19 a 5:21–
itálicos nossos)
4 – “O impossível <no
âmbito> da lei (na medida em que ela fraquejava através da carne [διὰ τῆς σαρκός]) <foi o que> Deus
<tornou possível> enviando o seu próprio filho em semelhança de uma carne
de erro e, a respeito do erro, condenou o erro na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós que não caminhamos
segundo a carne, mas sim segundo o espírito.” (Rom. 8:3 – itálicos nossos)
5 – “Se o
espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Aquele que
ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais através
do espírito que habita em vós [διὰ
{τὸ ἐνοικοῦν αὐτοῦ πνεῦμα ⬪ τοῦ ἐνοικοῦντος αὐτοῦ πνεύματος } ἐν ὑμῖν.]” (Rom. 8:11 – itálicos nossos)
6 – Com
a leitura do texto em grego a partir de “Kata
Biblon”: ”Exorto-vos, irmãos, através de Nosso Senhor
Jesus Cristo e do amor do espírito, a que combatais comigo nas orações que
fazeis a Deus por mim [διὰ τοῦ κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ χριστοῦ, καὶ διὰ τῆς ἀγάπης τοῦ πνεύματος] […].” (Rom. 15:30 –
itálicos nossos)
7 – Com a leitura do texto em grego
a partir de “Kata Biblon”: ”[…] chegando em alegria até vós através da
vontade de Deus [ἵνα ἐν χαρᾷ { ἔλθω ⬪ ἐλθὼν } πρὸς ὑμᾶς διὰ θελήματος θεοῦ], eu repouse convosco.” (Rom. 15:31 – itálicos
nossos)
8 – Com
a leitura do texto em grego a partir de “Kata
Biblon”: “A nós, porém, Deus <as>
[“as coisas que o olho não viu e o ouvido não ouviu”] revelou através do
espírito [διὰ τοῦ πνεύματος]. Pois o espírito tudo perscruta [τὸ γὰρ πνεῦμα πάντα { ἐρευνᾷ ⬪ ἐραυνᾷ }], até as profundezas
de Deus.” (1 Coríntios 2:10 – itálicos nossos)
9 – Com a leitura do texto em grego
a partir de “Kata Biblon…”: “A cada um é dada a manifestação do espírito para
o proveito comum. A um, através do espírito, é dado um discurso de
sabedoria [ᾯ μὲν γὰρ διὰ τοῦ πνεύματος δίδοται λόγος σοφίας];
a outro, um discurso de conhecimento segundo o mesmo espírito […]” (1 Cor. 12:8
– itálicos nossos)
10 – “Pois é necessário que todos compareçamos
diante do tribunal de Cristo, para que cada um seja recompensado em relação às
coisas que fez através do corpo [διὰ τοῦ σώματος], quer <se trate de> coisa boa, quer de
coisa má.” (2 Cor. 5:10 – itálicos nossos)
11 – Com a leitura do texto em grego “Kata
Biblon…” e Agamben, op.cit.: “Cristo
resgatou-nos da maldição da lei ao tornar-se maldição por nós – porque ficou
escrito: amaldiçoado é todo o dependurado de lenho – a fim de que para os
gentios a bênção de Abraão viesse em Cristo Jesus, para que recebêssemos através
da fé a promessa do espírito [τοῦ πνεύματος λάβωμεν διὰ
τῆς πίστεως]” (Gálatas
3:13 – itálicos nossos)
Anexo
Ecoando
o contexto, seguem-se três belíssimas passagens do São Paulo de Pascoaes.
A primeira é do Prefácio. A segunda, curiosamente, lembra logo no início o
célebre dito de Hipócrates, o médico grego: “Tudo conspira” (Sympnoia panta
– no sentido de tudo respira-com ou, digamos, com-respira, com-sopra,
trans-re-spira). A terceira aborda o célebre encontro com Lucas ("o médico amado”, Colossenses 4:14):
“Não
mandamos: obedecemos a correntes exteriores oriundas do Infinito. O espírito
não está em nós: nós é que somos nele, como no ar que respiramos.” (p. 10)
“Tudo
conspira a favor de Jesus… até aquela árvore carregada de folhas verdes, e
aquele hálito de frescura que bafeja a fronte de Saulo [Paulo], e aquele
murmúrio de água, entre as ervas. Mata a sede e logo sente como um alívio
espiritual.” (p. 48)
“Lucas
apareceu a S. Paulo, em pensamento, antes de o encarar, face a face, na rua
duma cidade marítima. O fantasma nocturno ganhou existência, à luz do sol.
Transitou de meio. O mesmo ser é homem ou fantasma, conforme nos aparece em
sonhos ou na rua duma cidade, conforme se move no plano das coisas materiais,
ou em outro plano transcendente, para lá das últimas estrelas, e em relação com
o nosso espírito, que é o mesmo Espírito infinito. O que existe é o Espírito
infinito e certas formas que ele encontra, no espaço, iluminando-as, semeando o
espaço de luzes, que são almas.” (p. 124)
E
talvez o sentido de “travessia”, de “através de” e de διὰ correspondam,
de algum modo, ao que Alain Badiou designa geograficamente, e não só, como
veremos, “a fundação do universalismo” em Paulo:
“Paulo
vai então para Jerusalém, onde encontra Pedro e os apóstolos, e depois parte
outra vez. Ignoramos as implicações deste primeiro encontro. Deve acreditar-se
que não persuade Paulo da necessidade de se referir frequentemente ao ‘centro’
jerosolimitano, pois o seu segundo período de viagens militantes durará catorze
anos! Cilícia, Síria, Turquia, Macedónia, Grécia. A dimensão excentrada
da acção de Paulo é a subestrutura prática do seu pensamento, a qual afirma que
toda a universalidade é desprovida de centro.” (Alain Badiou, São Paulo – A
fundação do universalismo, p. 33)
“A
sua visão das coisas, se abarca com fervor a dimensão do mundo, se vai até aos
limites extremos do Império, […] é porque o cosmopolitismo urbano e as longas
viagens talharam a amplitude. O universalismo de Paulo é também uma
geografia interior […].” (op. cit., p. 36 – itálicos nossos)
E
como vogamos em grandes incógnitas, e apenas percorremos, atravessamos, quase
cegos, as grandes questões que acima de tudo nos interrogam, mas nos apelam e
nos assinalam, leia-se Agamben, tendo a sua vez – o seu desafio –, divergindo
de Badiou quanto ao universalismo de Paulo (para melhor contextualização, ver
pp. 84-93):
“Para
Paulo não se trata de ‘tolerar’ [Badiou] ou de atravessar as diferenças para
encontrar para lá delas o mesmo e o universal. O universal não é para ele um
princípio transcendente em função do qual se olham as diferenças – ele não
dispõe de um tal ponto de vista – mas uma operação que divide as próprias
divisões da lei e as torna inoperantes, sem com isso jamais alcançar um
fundamento último.” (Le temps qui reste, p. 93)
Voltando
a Paulo:
“Existem
variedades de dons, mas <trata-se de> o mesmo espírito; e existem
variedades de serviços, mas <trata-se> de o mesmo Senhor; e existem
variedades de acções, mas <é> o mesmo Deus quem realiza todas as coisas
em todos.” (1 Cor. 12:4 – ver citação 9, que continua esta passagem)
Post
scriptum
“Indo,
pois, tornai discípulos todas as nações, baptizando-os no nome do Pai, do filho
e do espírito santo.” (Mateus 28:19)
Referências
Alain Badiou, São Paulo – A fundação do
universalismo, posf. Carlos Vidal, trad.
Sandra Andrade, Ed. Vasco Santos, 2018.
António Freire S.J., Gramática Grega,
Porto, Livraria A.I., 7ª edição, c. 1983.
BÍBLIA, trad. do texto grego,
apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. II: Novo Testamento:
Apóstolos, Epístolas, Apocalipse, Lisboa, Quetzal, 2017.
BÍBLIA, trad. do texto grego,
apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. I: Novo Testamento: Os Quatro
Evangelhos, Lisboa, Quetzal, 2ª edição revista e aumentada, 2018.
Carlos Alberto Louro Fonseca, Iniciação
ao Grego, Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra – Instituto de Estudos Clássicos, 2ª edição, 1987.
Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova
Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 8ª edição, 1991.
Dicionário de Latim-Português, org. António Gomes
Ferreira, Porto, Porto Editora, (s/d).
Dicionário Enciclopédico da
Bíblia, org. A. Van
Den Born – em colaboração com especialistas de renome internacional, trad.
Frederico Stein, Petrópolis, RJ, Vozes, 1971.
Dicionário de Língua
Portuguesa, Lisboa Porto
Editora, 5ª edição, 1977.
Dicionário de
Grego-Português e Português-Grego, Isidro Pereira, Porto, Apostolado da Imprensa, 1984.
Dictionnaire des
Religions, dir. Paul
Poupard, Paris, PUF, 1985.
Jean Chevalier, Alain
Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1989.
Dicionário da
Mitologia Grega e Romana, org. Pierre Grimal, trad. Victor Jabouille, Lisboa, Difel, 1986.
F. E. Peters, Termos Filosóficos Gregos, Um léxico
Histórico, pref. de Miguel Baptista Pereira, trad. Beatriz Rodrigues
Barbosa, Lisboa, Gulbenkian, 1983.
Giorgio Agamben, Le temps qui reste – Un
commentaire de l’Épître aux Romains, Trad. Judith Revel, Paris, Rivage
poche, 2004.
Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament. Página em linha.
Leonardo Coimbra, Dispersos – IV Filosofia
e Religião, Compilação, fixação de texto e notas de Pinharanda Gomes e
Paulo Samuel – Nota preliminar de Manuel da Costa Freitas, Lisboa/São Paulo,
Verbo, 1991.
Luís de Barreiros Tavares, “Da travessia do espírito”,
Nova Águia 29, 1º semestre, Sintra, Zéfiro, Março de 2022. Em linha no blogue
“Pessoa-Passante”.
Teixeira de Pascoaes, São Paulo,
Lisboa, Ática, 1959.
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