quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes: Sentido espiritual e paulino de “através” | por Luís de Barreiros Tavares

 

 

                    Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes:

                     Sentido espiritual e paulino de “através”                                             

                                                   Luís de Barreiros Tavares


Publicado na Revista Nova Águia: “Sobre uma passagem no São Paulo de Pascoaes: Sentido espiritual e paulino de ‘através’”, Nova Águia, nº 32, 2º semestre, 2023, pp. 204-209. [foram feitos alguns reparos para a edição online; incluiu-se a dedicatória; talvez sejam necessárias algumas limagens para uma futura edição]


Apóstolo Paulo (Paulo de Tarso) 
– por El Greco

 


Teixeira de Pascoaes  1877 (Amarante) - 1952 (Gatão)

                                                                                In memoriam Manuel da Costa Freitas

                                                                                a Carlos Henrique do Carmo Silva

                                                                                                      

“Agora, a Verdade é Jesus Cristo, morto e ressuscitado no coração do grande apóstolo. Jesus encontrou, no seu coração, uma nova gruta de Belém e o bafo acalentador da vaca, o hálito do Espírito Santo, que perpassa nas frases das suas epístolas, como o vento através das árvores.” (Teixeira de Pascoaes, São Paulo)

“Com Cristo fui crucificado. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.” (Gálatas 2:20)

“E porque sois filhos, Deus enviou o espírito do Seu filho para dentro dos nossos corações.” (Gálatas 4:6)

*

“’Através de algo’ quer dizer em grego:  diá [διὰ]”

Martin Heidegger, Hegel e os Gregos


“Que livro é este perturbado e perturbante, estranhamente agitado?”, escreve Leonardo Coimbra abrindo o seu texto “’São Paulo’ de Teixeira de Pascoais”. Neste texto, que se diria, também, um pouco exaltado e arrebatado, talvez por reflexo, Coimbra escreve mais à frente:” […] este livro é perturbador, para alguns leitores é mesmo um livro irritante (p. 214).” E num passo que ecoa o espírito de Paulo nos textos de Pascoaes: “O apóstolo – escreve Coimbra, de um modo poetizante –, é o centro de atracção da alma do Poeta, que, soerguida, bate as asas no ilimitado do sonho. Harpa eólia entregando-se ao vento que passa, alma dócil dando-se em emoção ao sopro do verbo que a arrepia” (p. 206).

Segundo Coimbra, Paulo é um dos “pólos da atenção espiritual do poeta [juntamente com Lucrécio]”, e encontra-se “no centro do jorramento da Vida, levando em seu impetuoso curso os mundos transfigurados e as almas renascidas” (p. 206). A belíssima conclusão do texto de Coimbra, juntamente com as restantes citações, não deixa de contextualizar, como veremos, e a seu modo, o propósito do nosso estudo:

 

“Cristo integral – abraço da Terra e do Céu, da criatura e do criador – Cristo histórico, preexistindo, mas vindo no tempo; Cristo ontológico e não cronológico, do corpo da história e não do seu princípio ou do seu fim, mas, sendo do princípio, do meio e do fim, inserindo-se no seu curso para lhe dar destino explícito, finalidade intencional, consciente e meritória.” (p. 224)

 

Não iremos aqui fazer uma análise do São Paulo de Pascoaes; livro, sem dúvida difícil e inquietante. Tão-pouco uma leitura demorada do texto de Coimbra sobre o mesmo. Trata-se apenas de pensar com uma breve passagem do livro de Pascoaes (ver epígrafe), e com ela tentar abordar a intuição do autor relativamente a um tema que achamos fundamental nas cartas de Paulo: a questão do espírito e da sua dimensão enquanto travessia, e o sentido paulino de “através”. Mas Paulo não deixa de manter na sua mensagem epistolar os laços entre alma, espírito e corpo. De um modo geral, em relação ao espírito, a alma estará mais ligada ao corpo e ao anímico (lat. anima – ver mais abaixo “espírito”). Não abordando os âmbitos mítico, simbólico e filosófico da alma, citamos alguns passos da entrada “Alma”, de Paul Van Imschoot, no NT e particularmente em Paulo (Dicionário Enciclopédico da Bíblia):

 

“[No NT] A palavra grega ψυχή (alma) vem de ψυχω (soprar, respirar) e siginifica originariamente sopro ou hálito, princípio vital, alma, vida, sede de pensamentos e sentimentos, às vezes pessoa. Portanto, ψυχή corresponde exactamente ao conteúdo do hebr. Nefeš. Só falta o sentido de garganta.”

Ψυχή significa, afinal, ser vivo, animal (Apoc. 16:3) ou homem (1 Cor.15:45)”

“S. Paulo menciona a alma ao lado de espírito e corpo [1 Tes. 5:23]”

 

Escutemos Paulo: “Que o próprio Deus da paz vos santifique, completos; e que todo o vosso espírito – e a alma e o corpo – irrepreensivelmente se conserve para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tes. 5:23). Por isso, faz sentido encontrar algum eco destes laços no seguinte passo de Coimbra, tendo como protagonistas Pascoaes (o “Poeta”) e Paulo numa partilha da travessia no tempo e no mundo, e cujo “amor puro e pleno ou caridade cristã” tem uma dimensão espiritual e evangélica (“segundo a minha boa-nova [κατὰ τὸ εὐαγγέλιόν μου] através de Cristo Jesus” Romanos 2:16): “Começa a peregrinação do Poeta querendo atravessar a alma de S. Paulo. Essa travessia é difícil, pois, sendo a alma liberdade, só é penetrável pelo amor e pelo amor puro e pleno ou caridade cristã” (p. 209).

A dimensão do espírito enquanto travessia é, por um lado, a condição de possibilidade de ele mesmo passar através de algo, e, por outro, de o que (de algo que) passa através dele (mas algo da ordem do espiritual: a palavra): “Mas ele [Jesus], respondendo, disse: ‘Ficou escrito: não é com base em pãoque viverá o ser humano, mas com base em toda a palavra saída através da boca de Deus.’” (Mateus 4:4). Pois, precisamente, na expressão com locução prepositiva “através do espírito” há a considerar o genitivo objectivo e o genitivo subjectivo (ver o nosso estudo “Da Travessia do Espírito”). Por isso, o espírito atravessa e atravessa-se. Quando a palavra espiritual – ou palavra-espírito –, correlativa do espírito, é mediada por ele, ela o medeia. A palavra, por um lado, é veiculada por ele, pelo espírito; e, por outro, perpassa-o.  Ela é veiculada por ele e veicula-se nele. Trans-re-spiração, pela palavra, do próprio movimento do espírito: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito santo os apóstolos que escolhera” (Act. Apóst. 1:2). Não esquecendo também que “através de” significa “de um lado para o outro”.

Espírito diz-se em grego πνεῦμα, que significa hálito, vento, ar em movimento. “Espírito” deriva do latim spiritus com o mesmo sentido (de spir – sopro...; daí respirar, inspirar, etc.; "expirou e morreu", por exemplo. Mas, se ao “espírito” corresponde o “espírito santo”, dir-se-á que esta acepção reenvia para outros planos que não somente os da alma, embora com suas relações juntamente com o corpo (1 Tes. 5:23 – ver acima sobre a “alma”).

Abordando, tanto quanto possível, algum terreno do grego, retirámos vários exemplos a partir do “Apêndice” do livro de Giorgio Agamben, Le temps qui reste e, quase na conclusão deste estudo, da página em linha “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament. Paulo emprega inúmeras vezes, e em vários contextos, uma palavra que é traduzida do grego pelo advérbio de lugar “através” (ou “através de”: locução prepositiva): διὰ (translit.: diá), ou preposição com genitivo (por exemplo: διὰ τοῦ – através do; διὰ τῆς – através da; ver citações 3, 4, 5 e 6).

Apresentarei alguns exemplos desta locução nas Cartas de Paulo (na tradução do grego por Frederico Lourenço) em vários contextos, onde o espírito (citações 4, 5, 6, 8, 9 e 11), espírito santo (2), corpo (5), fé (6, 11), Jesus Cristo (1, 3, 6 e 8), vontade de Deus (7), justiça (3), Pai (8),  etc., se manifestam nesta dinâmica da travessia, e onde o sentido do espírito de algum modo se adivinha. É, pois, no contexto do “espírito” – ventilando também o “Espírito Santo” –, que este breve estudo se situa (“o hálito do Espírito Santo, que perpassa nas frases das suas epístolas” Pascoaes). Eles parecem ser a charneira destes exemplos. O espírito está umas vezes implícito, outras vezes patente nestas passagens. Assim, o espírito é veículo de travessia. Ele veicula e é veiculado.

Em todas as passagens numeradas que seguem encontramos o advérbio “através”. Mas nem sempre “através” traduz διὰ. Damos apenas dois exemplos (prep. + acus.): “por causa de [διὰ δὲ] uns pseudoirmãos infiltrados” (Gálatas, 2:4 – com o texto grego, ver Agamben); “por causa de Cristo [διὰ τὸν Xριστν]” (Filipenses, 3:9 – com o texto grego, idem).

Consultando “Kata Biblon…”, nos Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) encontramos frequentemente διὰ sob outras formas. Sem entrar em detalhes, apresentam-se alguns exemplos: “porque” interrogativo (Marcos 2:18), “porque” (João 2:24), “por causa de” (Mar. 2:4), “por isso” (Jo. 1:31), etc. E διὰ também se encontra na tradução “através de”, sem ser “através do espírito” (ponto focal deste estudo): “dito pelo Senhor através do profeta” (Mateus 1:22), escrito através do profeta” (Mat. 2:5), “através de Jeremias” (Mat. 2:17), “através de Isaías” (Mat. 3:3), “através das searas” (Mar. 2:23), “falou através da boca dos santos” (Lucas 1:70), “falou através de uma parábola” (Luc. 8:4), etc.

Já nos Actos dos Apóstolos, de Lucas, cujo herói da narrativa é Paulo, há naturalmente algumas ressonâncias: “tendo [Jesus] instruído através de um espírito santo” (1:2 – “espírito santo” é uma expressão frequente), “através da boca de todos os profetas” (3:18 – a boca é um motivo expressivo nesta obra), “Milagres invulgares fazia Deus através das mãos de Paulo” (19:11 – as mãos são outro elemento assinalável), “através de Jesus Cristo” (10:36), “indicou através do espírito” (11:28), “através da graça <de Deus>” (18:27), “enquanto Paulo apenas disse esta frase: ‘de maneira bonita falou o espírito santo através do profeta Isaías’ (28:25). Quer dizer, “falou o espírito santo através do [da fala do] profeta Isaías”.

Remontar ao Antigo Testamento e proceder a um inquérito sobre o espírito daria um outro estudo. Há, no entanto, implicações fundamentais que se transmitem para o Novo Testamento e, mais particularmente no que toca a este estudo, para a mensagem de Paulo (encontrámos boas referências na entrada “Espírito” no Dicionário Enciclopédico da Bíblia).

Mas o que importa aqui perceber é, digamos, a imanência de “através” (διὰ) na sua dimensão espiritual em Paulo.

De facto, a preposição διὰ na sua tradução com o advérbio “através” (ou loc. prep. “através de (do)”: por exemplo, διὰ τοῦ), encontra-se abundantemente na Carta aos Romanos (cerca de 50 ocorrências!). Mas também nas Cartas aos Coríntios e aos Gálatas. Pudemos confirmá-lo na consulta da tradução de Frederico Lourenço e na credenciada página em linha com o texto grego, que já referimos: (“Kata Biblon…” Liddell-Scott-Jones – autores do Greek-English Lexicon). Nesta tradução inglesa, acompanhando o texto grego com διὰ, encontra-se frequentemente “through” (através) e o correspondente “through of” (através de).

As epístolas que enunciámos acima são algumas das chamadas cartas autênticas de Paulo, por razões que não cabe aqui explicitar. As onze passagens que seguem abaixo incluem-se nestas cartas. É certo que não fizemos uma pesquisa tão exaustiva nas restantes cartas, mas também nelas encontramos a expressão significativa “através de”.

Sobre a Carta aos Romanos e as cartas autênticas de Paulo leia-se Frederico Lourenço na sua “Nota introdutória à Carta aos Romanos”:

 

“Sendo certo que esta epístola [Carta aos Romanos, “de extraordinária importância”] funciona, a vários níveis, como síntese de todo o pensamento de Paulo, não deixa de ser verdade, por outro lado, que se trata de um texto cujo alcance mais profundo só pode ser entendido por quem já tenha lido as outras cartas autênticas de Paulo, de preferência pela ordem cronológica que é hoje tida como consensual no scholarship sobre o Novo Testamento: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, e Carta a Filémon.”

 

Não esqueçamos que na passagem em epígrafe de Pascoaes encontramos a palavra “perpassa” (“perpassa nas frases”), que significa “atravessa”, entre outros sinónimos significativos (decorre, transcorre, percorre, etc.), e a locução “através de” (“através das árvores”).

Eis as passagens, sempre com as traduções de Frederico Lourenço para o português:  

1 – “Aqueles que mostram a obra da lei escrita nos seus corações, sendo testemunha a consciência deles e estando os pensamentos dentro deles a acusá-los ou a defendê-los, no dia em que Deus julga as coisas escondidas dos homens segundo a minha boa-nova através de Cristo Jesus [διὰ Ἰησοῦ χριστοῦ  χριστοῦ Ἰησοῦ }].” (Romanos 2:16 – itálicos nossos)

2 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament”: “A esperança não envergonha, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações através de um espírito santo [διὰ πνεύματος ἁγίου] que nos foi dado.” (Rom. 5:5 – itálicos nossos)

3 – Com a leitura do texto em grego a partir de Kata Biblon e Agamben, op. cit.: “Tal como através da desobediência [διὰ τῆς παρακοῆς] de uma só pessoa os muitos se tornaram perpetradores do erro, do mesmo modo também através da obediência [διὰ τῆς ὑπακοῆς] de um só muitos serão tornados justos. 

<A> lei entrou para que a transgressão abundasse. Mas onde a transgressão abundou, a graça superabundou, para que, tal como o erro reinou na morte, do mesmo modo a graça reinasse através de justiça [διὰ δικαιοσύνης] para a vida eterna através de Jesus Cristo, [διὰ Ἰησοῦ χριστοῦ] Nosso Senhor.” (Rom. 5:19 a 5:21– itálicos nossos)

4 – “O impossível <no âmbito> da lei (na medida em que ela fraquejava através da carne [διὰ τῆς σαρκός]) <foi o que> Deus <tornou possível> enviando o seu próprio filho em semelhança de uma carne de erro e, a respeito do erro, condenou o erro na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós que não caminhamos segundo a carne, mas sim segundo o espírito.” (Rom. 8:3 – itálicos nossos)

            5 – “Se o espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais através do espírito que habita em vós [διὰ {τὸ ἐνοικοῦν αὐτοῦ πνεῦμα  τοῦ ἐνοικοῦντος αὐτοῦ πνεύματος } ἐν ὑμῖν.]” (Rom. 8:11 – itálicos nossos)

6 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon: ”Exorto-vos, irmãos, através de Nosso Senhor Jesus Cristo e do amor do espírito, a que combatais comigo nas orações que fazeis a Deus por mim [διὰ τοῦ κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ χριστοῦκαὶ διὰ τῆς ἀγάπης τοῦ πνεύματος] […].” (Rom. 15:30 – itálicos nossos)

7 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon: ”[…] chegando em alegria até vós através da vontade de Deus [ἵνα ἐν χαρᾷ { ἔλθω  ἐλθὼν } πρὸς ὑμᾶς διὰ θελήματος θεοῦ], eu repouse convosco.” (Rom. 15:31 – itálicos nossos)

8 – Com a leitura do texto em grego a partir de “Kata Biblon”: “A nós, porém, Deus <as> [“as coisas que o olho não viu e o ouvido não ouviu”] revelou através do espírito [διὰ τοῦ πνεύματος]. Pois o espírito tudo perscruta [τὸ γὰρ πνεῦμα πάντα { ἐρευνᾷ  ἐραυνᾷ }], até as profundezas de Deus.” (1 Coríntios 2:10 – itálicos nossos)

9 – Com a leitura do texto em grego a partir de Kata Biblon: “A cada um é dada a manifestação do espírito para o proveito comum. A um, através do espírito, é dado um discurso de sabedoria [ᾯ μὲν γὰρ διὰ τοῦ πνεύματος δίδοται λόγος σοφίας]; a outro, um discurso de conhecimento segundo o mesmo espírito […]” (1 Cor. 12:8 – itálicos nossos)

10 – “Pois é necessário que todos compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um seja recompensado em relação às coisas que fez através do corpo [διὰ τοῦ σώματος], quer <se trate de> coisa boa, quer de coisa má.” (2 Cor. 5:10 – itálicos nossos)

11 – Com a leitura do texto em grego “Kata Biblon” e Agamben, op.cit.: “Cristo resgatou-nos da maldição da lei ao tornar-se maldição por nós – porque ficou escrito: amaldiçoado é todo o dependurado de lenho – a fim de que para os gentios a bênção de Abraão viesse em Cristo Jesus, para que recebêssemos através da a promessa do espírito [τοῦ πνεύματος λάβωμεν διὰ τῆς πίστεως]” (Gálatas 3:13 – itálicos nossos)

Anexo

Ecoando o contexto, seguem-se três belíssimas passagens do São Paulo de Pascoaes. A primeira é do Prefácio. A segunda, curiosamente, lembra logo no início o célebre dito de Hipócrates, o médico grego: “Tudo conspira” (Sympnoia panta – no sentido de tudo respira-com ou, digamos, com-respira, com-sopra, trans-re-spira). A terceira aborda o célebre encontro com Lucas ("o médico amado”, Colossenses 4:14):  

“Não mandamos: obedecemos a correntes exteriores oriundas do Infinito. O espírito não está em nós: nós é que somos nele, como no ar que respiramos.” (p. 10)

“Tudo conspira a favor de Jesus… até aquela árvore carregada de folhas verdes, e aquele hálito de frescura que bafeja a fronte de Saulo [Paulo], e aquele murmúrio de água, entre as ervas. Mata a sede e logo sente como um alívio espiritual.” (p. 48)

“Lucas apareceu a S. Paulo, em pensamento, antes de o encarar, face a face, na rua duma cidade marítima. O fantasma nocturno ganhou existência, à luz do sol. Transitou de meio. O mesmo ser é homem ou fantasma, conforme nos aparece em sonhos ou na rua duma cidade, conforme se move no plano das coisas materiais, ou em outro plano transcendente, para lá das últimas estrelas, e em relação com o nosso espírito, que é o mesmo Espírito infinito. O que existe é o Espírito infinito e certas formas que ele encontra, no espaço, iluminando-as, semeando o espaço de luzes, que são almas.” (p. 124)

E talvez o sentido de “travessia”, de “através de” e de διὰ correspondam, de algum modo, ao que Alain Badiou designa geograficamente, e não só, como veremos, “a fundação do universalismo” em Paulo:

“Paulo vai então para Jerusalém, onde encontra Pedro e os apóstolos, e depois parte outra vez. Ignoramos as implicações deste primeiro encontro. Deve acreditar-se que não persuade Paulo da necessidade de se referir frequentemente ao ‘centro’ jerosolimitano, pois o seu segundo período de viagens militantes durará catorze anos! Cilícia, Síria, Turquia, Macedónia, Grécia. A dimensão excentrada da acção de Paulo é a subestrutura prática do seu pensamento, a qual afirma que toda a universalidade é desprovida de centro.” (Alain Badiou, São Paulo – A fundação do universalismo, p. 33)

“A sua visão das coisas, se abarca com fervor a dimensão do mundo, se vai até aos limites extremos do Império, […] é porque o cosmopolitismo urbano e as longas viagens talharam a amplitude. O universalismo de Paulo é também uma geografia interior […].” (op. cit., p. 36 – itálicos nossos)

E como vogamos em grandes incógnitas, e apenas percorremos, atravessamos, quase cegos, as grandes questões que acima de tudo nos interrogam, mas nos apelam e nos assinalam, leia-se Agamben, tendo a sua vez – o seu desafio –, divergindo de Badiou quanto ao universalismo de Paulo (para melhor contextualização, ver pp. 84-93):

“Para Paulo não se trata de ‘tolerar’ [Badiou] ou de atravessar as diferenças para encontrar para lá delas o mesmo e o universal. O universal não é para ele um princípio transcendente em função do qual se olham as diferenças – ele não dispõe de um tal ponto de vista – mas uma operação que divide as próprias divisões da lei e as torna inoperantes, sem com isso jamais alcançar um fundamento último.” (Le temps qui reste, p. 93)

Voltando a Paulo:

“Existem variedades de dons, mas <trata-se de> o mesmo espírito; e existem variedades de serviços, mas <trata-se> de o mesmo Senhor; e existem variedades de acções, mas <é> o mesmo Deus quem realiza todas as coisas em todos.” (1 Cor. 12:4 – ver citação 9, que continua esta passagem)

Post scriptum

“Indo, pois, tornai discípulos todas as nações, baptizando-os no nome do Pai, do filho e do espírito santo.” (Mateus 28:19)

Referências

Alain Badiou, São Paulo – A fundação do universalismo, posf. Carlos Vidal, trad.  Sandra Andrade, Ed. Vasco Santos, 2018.

António Freire S.J., Gramática Grega, Porto, Livraria A.I., 7ª edição, c. 1983.

BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. II: Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse, Lisboa, Quetzal, 2017.

BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. I: Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos, Lisboa, Quetzal, 2ª edição revista e aumentada, 2018.

Carlos Alberto Louro Fonseca, Iniciação ao Grego, Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Instituto de Estudos Clássicos, 2ª edição, 1987.

Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa, 8ª edição, 1991.

Dicionário de Latim-Português, org. António Gomes Ferreira, Porto, Porto Editora, (s/d). 

Dicionário Enciclopédico da Bíblia, org. A. Van Den Born – em colaboração com especialistas de renome internacional, trad. Frederico Stein, Petrópolis, RJ, Vozes, 1971.

Dicionário de Língua Portuguesa, Lisboa Porto Editora, 5ª edição, 1977.

Dicionário de Grego-Português e Português-Grego, Isidro Pereira, Porto, Apostolado da Imprensa, 1984.

Dictionnaire des Religions, dir. Paul Poupard, Paris, PUF, 1985.

Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robert Laffont, 1989.

Dicionário da Mitologia Grega e Romana, org. Pierre Grimal, trad. Victor Jabouille, Lisboa, Difel, 1986.

F. E. Peters, Termos Filosóficos Gregos, Um léxico Histórico, pref. de Miguel Baptista Pereira, trad. Beatriz Rodrigues Barbosa, Lisboa, Gulbenkian, 1983.

Giorgio Agamben, Le temps qui reste – Un commentaire de l’Épître aux Romains, Trad. Judith Revel, Paris, Rivage poche, 2004.

Kata Biblon Wiki Lexicon of the Greek New Testament. Página em linha.

Leonardo Coimbra, Dispersos – IV Filosofia e Religião, Compilação, fixação de texto e notas de Pinharanda Gomes e Paulo Samuel – Nota preliminar de Manuel da Costa Freitas, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1991.

Luís de Barreiros Tavares, “Da travessia do espírito”, Nova Águia 29, 1º semestre, Sintra, Zéfiro, Março de 2022. Em linha no blogue “Pessoa-Passante”.

Teixeira de Pascoaes, São Paulo, Lisboa, Ática, 1959.


quinta-feira, 30 de março de 2023

 

 Apontamentos com Pinharanda Gomes: A douta ignorância                                                      

                                                        

                                                         Luís de Barreiros Tavares

                                                                                                                        In memoriam Pinharanda Gomes

«Apontamentos com Pinharanda Gomes: A Douta Ignorância», Nova Águia, nº 31, Março, 1º semestre, 2023, pp. 118-121.

 

“A filosofia mostra o carismático pudor de ainda não saber o todo de tudo, mesmo que aceda, ou vá acedendo, a algum grau de saber. Como se diz no adágio paradoxal, se sabe demais já não é filosofia. […] E que é a sabedoria? Se soubéssemos objectivamente e sem equívoco, a filosofia já não seria necessária.” Pinharanda Gomes em entrevista concedida a Luís de Barreiros Tavares

 

Este breve estudo reúne dois trechos de dois títulos do pensador e filósofo Jesué Pinharanda Gomes (1939-2019): Teoria do Pão e da Palavra (1973); Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Ascese Filosófica) (1974). A partir deles procedi ao esboço de algumas reflexões, abordando vários autores. Acrescentei no final o excerto de uma entrevista concedida por Martin Heidegger a Richard Wisser (1969). As três partes correspondem-se nos seus contextos.

1

No grego encontra-se, por exemplo, o verbo interrogar na forma manifestamente reflexa, […] o interrogar é sempre interrogar-se, ou bouleomai. Interrogar-se a si mesmo, verbo que se encontra, já nas determinantes do pensamento de Heraclito, quando este afirma ter começado por se interrogar (Fragmento 101), ou examinar a si mesmo. Certo que o verbo interrogar, na forma latina, supõe uma relação (inter) e uma acção (rogare), o que se não torna logo explícito, mas que aponta sem dúvida para o mesmo sentido reflexo do verbo grego, ou seja, para o seguinte: a interrogação é sempre feita pelo sujeito que interroga e, este sujeito, interroga a sua própria pessoa, ou a si mesmo se interroga.

(Pensamento e Movimento, pp. 80-81)

 

 “A interrogação é sempre feita pelo sujeito que interroga e, este sujeito, interroga a sua própria pessoa, ou a si mesmo se interroga.” Pinharanda Gomes

Originariamente, na própria interrogação há uma interrogação intrínseca a si mesma. Uma interrogação que se interroga. No espanto, por exemplo, atitude inicial que caracteriza o filósofo, há como que uma exclamação e uma interrogação que se entrelaçam.  Exclamação e interrogação no ser expectante, na perplexidade, no pasmo do espectáculo e admiração (thaumazein), o espanto de as coisas serem como são (Platão, Teeteto, 155 d; Aristóteles, Metafísica, 982 b). Digamos que no espanto, na exclamação-afirmação do espanto (“de as coisas serem como são”), há uma interrogação. A própria exclamação, na afirmação de as coisas serem como são, interroga-se. Implicitamente há uma afirmação e uma negação. E, nessa medida, a própria interrogação se interroga.

Enfim, no sujeito e suporte afirmativo de si – e no seu movimento mais fundamental – há uma interrogação de si. Por isso, “a interrogação é sempre feita pelo sujeito que interroga e, este sujeito, interroga a sua própria pessoa…”. Não será este o despontar do pensamento no seu sentido originário?

Mas poderemos ainda entender deste modo: o espanto filosófico, na sua imanência, afirma e nega, constata como podendo ser (pode ser!), e suspende essa constatação com um não pode ser! – expressando surpresa, mas reiterando, no fundo, um “é mesmo!”.

2

Como o douto ignorante escolhe a liberdade da interrogação perpétua, o vão sábio acolhe-se à sombra da perpétua autoridade, onde morre sem vivificância. De modo semelhante, o temperado e modesto escolhe o pão que baste, na liberdade que sobeje, no mesmo instante em que o glutão e ambicioso prende com as mãos ambas o pão que houver, sem cuidar da liberdade necessária. A liberdade é, para o guloso, ou para o vão sábio, o mesmo que as pepitas são para o galo. Situam-se numa esfera excêntrica à massiva situação em que se insere.

A filosofia é a preferência da douta ignorância e da temperança, onde a ciência é a opção pela sabedoria e pela gula. Sábio, o homem não pode ser filósofo, mas, filósofo pode sagrar-se sábio, porque o essencial vem, para a sua potencialidade operante, por acréscimo. Por isso, em vez de colher os lírios dos campos, ou de caçar as aves do céu, sobe à cumeada da serrania e, de lá, segundo a norma superna, olha para os lírios, enquanto segue as aves, augurando, pelo odor e pelo voo, o destino de quanto há no que, pelos sentidos ilusórios, se julga haver.

(Teoria do Pão e da Palavra, p. 17)

Dir-se-ia até que a filosofia prefere, no fundo, não saber. Ou antes, ela não quer saber, prefere não saber, na medida em que se retira do movimento da ciência na sua “opção pela sabedoria e pela gula”. Mas trata-se aqui, na filosofia, da “douta ignorância”. Esta guarda um paradoxo essencial e fértil (a sábia ignorância) que que remonta a Nicolau de Cusa assinando De Docta Ignorantia (1440) e sua coincidentia oppositorum. Mais remota ainda é aquela máxima atribuída, lendariamente e popularmente, a Sócrates, mas contextualizável na transmissão dos seus diálogos: “só sei que nada sei”. Por exemplo: “É assim, senhores Atenienses: foi só a minha sabedoria que me conseguiu tal fama. Mas que sabedoria? A que provavelmente é a sabedoria humana. Há realmente algumas probabilidades de eu ser sábio neste domínio; os que falaram há bocado com certeza sabem alguma coisa de mais elevado do que esta ciência humana; ou então não sei que dizer; a essa não a conheço eu; e quem afirma o contrário mente e levanta-me calúnias.” (Platão, A defesa de Sócrates, pp. 20-21 [20d], trad. Agostinho da Silva). Em ressonância com estas vertentes do pensar, o filósofo português Francisco Sanches (1550-1663) escreveu Quod Nihil Scitur (1581), e mais tarde publica-se Discours de la méthode (1637), de Descartes (1596-1650). Curiosamente, logo no intróito – e sem poder aqui aprofundar – Sanches interpela a própria linguagem: “Voltei-me então para mim próprio; e pondo tudo em dúvida, como se até então nada se tivesse dito, comecei a examinar as próprias coisas: é esse o verdadeiro meio de saber (itálicos nossos; “Francisco Sanches ao leitor” in Que Nada se Sabe, p. 57). Tanto assim que: “Comecemos pelo nome, pois para mim todas as definições são verbais [definitio nominis – em nota de rodapé], bem como quase todas as questões” (op. cit., p. 63-64).[1]

“A filosofia é a preferência da douta ignorância” Pinharanda Gomes

Na douta ignorância não se deixa, todavia, de saber. O filósofo (philo-sophos) é, como a própria etimologia indica, o amigo do saber, da sabedoria. A filosofia (philo-sophia) é a amizade, ou o amor – como se costuma dizer – da sabedoria. Na sua condição de saber na “douta ignorância”, o filósofo será sábio na medida da sua abertura (“sua potencialidade operante”) que se questiona, se interroga, enquanto o dado da ciência, tido como adquirido numa certa época ou momento, sempre ainda suscita uma interpelação que, no entanto, a ciência suspende para fora de si. Não é o que Pinharanda Gomes sugere nesta forma alegórica ou metafórica? “A liberdade é, para o guloso, ou para o vão sábio, o mesmo que as pepitas são para o galo. Situam-se numa esfera excêntrica à massiva situação em que se insere.” É para aquela interpelação que há a “Filosofia das ciências” (a chamada Epistemologia). É interessante assinalar que os exemplos do genitivo objectivo e do genitivo subjectivo na expressão “Filosofia das ciências” são um bom ponto de partida para pensar a complexidade da relação entre a filosofia e a ciência. Filosofia das ciências: reflexão filosófica acerca das ciências; a filosofia exerce-se sobre as ciências; as ciências são o alvo, objecto (genitivo objectivo). Filosofia das ciências: há uma dimensão filosófica inerente às ciências; elas abrangem uma dimensão filosófica; as ciências exercem acção como sujeito (genitivo subjectivo). A chamada “Filosofia com ciências”, sustentada pelo filósofo Fernando Belo (1933-2018), parece dar um passo na compreensão desta problemática. Não indo mais longe, refiro aquilo que Belo designa como a «componente filosófica ocultada» («composante philosophique cachée»). Cito apenas um breve passo apelando ao contexto, despertando a leitura: “[…] a representação do objecto (exterior) no sujeito (interior), a ideia, o que pressupõe a oposição dentro/fora.” (La philosophie avec sciences au XX siècle, p. 13).[2]

 

3

 

O segundo trecho de Pinharanda Gomes é reflexivo, com alguns elementos metafóricos numa dimensão espiritual que tanto caracterizam o seu estilo a par de uma elegância de escrita. O filósofo considera a dimensão filosófica e questionante do saber como douta ignorância (“a interrogação perpétua”). A douta ignorância será uma sábia ignorância (“douta”, do lat. doctus: sábio – “o douto ignorante”). Ele opõe-na ao saber da ciência como suposta “opção pela sabedoria”, enquanto saber consumado “pela gula”. Não esqueçamos que a etimologia latina de “ciência” – scientia – remete para scire, verbo “saber” (vj. acima Sanches: Quod nhil scitur). Poderemos considerar a douta ignorância no seu carácter interrogativo como a essência do pensar. O que se propõe aqui? Na linha da nossa presente leitura, se estabelecermos uma ponte entre esta dimensão da douta ignorância, em Pinharanda Gomes, e a questão do pensar em Martin Heidegger (o filósofo alemão entregou-se a esta questão, por exemplo: A que chamamos pensar?Was heisst Denken?)  no contraponto à ciência, talvez possamos abrir algum caminho – dar algum passo possível – para o lugar da ciência e da filosofia nos nossos tempos.

Será pertinente lembrar uma entrevista concedida por Martin Heidegger a Richard Wisser em 24 de Setembro de 1969. Transcrevo a passagem onde Wisser questiona Heidegger sobre a sua polémica declaração: “a ciência não pensa”.

 

“Eu só posso pensar o que é a física na forma de uma interrogação filosófica.” Martin Heidegger

Wisser: duas coisas que o Sr. sempre põe em questão e das quais sublinha o carácter problemático: a pretensão da ciência à dominação e uma maneira de conceber a técnica que só vê nela um meio útil de alcançar mais rapidamente o propósito a cada vez desejado. Precisamente em nossa época, onde a maior parte dos homens espera tudo da ciência e onde se lhe demonstra, por meio de transmissões televisivas mundiais, ou seja, extra-terrestres, que o homem alcança por meio da técnica aquilo a que se propõe nessa época, suas ideias sobre a ciência e sobre a essência da técnica tornam-se quebra-cabeças para muitas pessoas. Em primeiro lugar, o que o Sr. entende quando afirma que a ciência não pensa?

Heidegger: comecemos pelos quebra-cabeças: penso que eles são inteiramente salutares! O facto de que há ainda muito poucos quebra-cabeças hoje no mundo e também uma grande ausência de ideias é, precisamente, função do esquecimento do Ser. E essa sentença: a ciência não pensa, que causou tanto alvoroço, quando a pronunciei no contexto de uma conferência em Freibourg, significa: a ciência não se move na dimensão da filosofia. Mas, sem o saber, ela se enraíza nessa dimensão. Por exemplo, a física se move no espaço, no tempo no movimento. A ciência como ciência não pode decidir o que é o movimento, o espaço, o tempo. A ciência não pensa, ela não pode mesmo pensar nesse sentido com os seus métodos. Eu não posso dizer, por exemplo, com os métodos da física, o que é a física. Eu só posso pensar o que é a física na forma de uma interrogação filosófica. A sentença: a ciência não pensa não é uma repreensão, mas uma simples constatação da estrutura interna da ciência; é próprio da sua essência que, de uma parte, ela dependa do que a filosofia pensa, mas que, de outra parte, ela esqueça e negligencie o que aí exige ser pensado.

 

Bibliografia

GOMES, Pinharanda (1974). Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Ascese Filosófica). Porto: Lello & Irmão.

______ (1989). Teoria do Pão e da Palavra, (1ª edição 1973). Separata da Nova Renascença, Vol. IX, nº 34.

______ (2015). Entrevista concedida a Luís de Barreiros Tavares. in Nova Águia, nº15, 1º semestre. Sintra: Zéfiro, pp. 258-262.

*

ARISTÓTELES (1990). Metafísica. Ed. trilingue [grego, latim, castelhano]Trad. Valentín García YebraMadrid: Ed. Gredos.

BELO, Fernando (2009). La philosophie avec sciences au XX siècle. Paris: L’Harmattan.

HEIDEGGER, Martin (1959). Qu’appelle-t-on penser?. Trad. Aloy Becker et Gérard Granel. Paris: PUF.

 ______ (1969). Entrevista concedida a Richard Wisser em 24 de Setembro de 1969 e transmitida pelo canal 2 da televisão alemã ZDF, por ocasião do seu octogésimo aniversário. Tradução de Antonio Abranches. Ligação PDF e publicação no Youtube.

PLATÂO, A defesa de Sócrates (1937). Tradução e pref. de Agostinho da Silva. Lisboa: Seara Nova.

______ (1965). Apologie de Socrate, Criton, Phédon. Trad. et notes para E. Chambry. Paris: Flammarion.

______ (1967). Théétète, Parménide. Traduction et notes par E. Chambry. Paris: Flammarion. 

SANCHES, Francisco (1991). Que Nada se Sabe (Quod Nihil Scitur). Trad. Basílio de Vasconcelos. Textos introdutórios de Joaquim de Carvalho. Lisboa: Vega.

TAVARES, Luís de Barreiros. O espanto filosófico”. in Caliban. 07/10/2022. Em linha.

______ (2022). “O espanto filosófico (II)”. in Caliban. 14/10/2022. Em linha.

 

 

 

                                                                                 


 

 

 



[1] Sobre Sanches e Descartes leiam-se as interessantes reflexões do filósofo Joaquim de Carvalho (1892-1958): “Descartes e a cultura filosófica portuguesa” (textos em linha). Por exemplo, a título de passagem: “Desde 1748, das Remarques critiques sur le Dictionnaire de Bayle, de Philippe-Louis Joly, está em crise a originalidade da conceção cartesiana da dúvida metódica. Contra a afirmação de Bayle, considerando Francisco Sanches «um grande Pirrónico», observou aquele sagaz erudito que o Quod nihil scitur, de Sanches, era ‘à proprement parler, une espèce de Méthode, à peu près semblable à celle que Descartes a suivie dans la suite, dont le fondement est un doute, sur tout ce que l'on veut examiner.’”. Veja-se ainda “Apresentação de Francisco Sanches”, por Joaquim de Carvalho, na obra Quod Nihil Scitur.

[2] Para um aprofundamento destas questões: BELO, Fernando (2007). Le Jeu de sciences avec Heidegger et Derrida (2 volumes). Paris: L’Harmattan (c 1000 pgs). 

 

 

 

    Alcaide de Faria – Aos heróis de todas as guerras e batalhas

 

                                              Luís de Barreiros Tavares

 



«Alcaide de Faria», Nova Águia, nº 30, Outubro, 2º semestre, 2022, pp. 127-128.

“Aquiles voava furioso em frente e Heitor fugia sob as muralhas dos Troianos” (Homero, Ilíada — trad. Frederico Lourenço)

 

Alcaide de Faria [um poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal – 1958][1]

 

Sobre os muros da vetusta fortaleza,

Por entre a furibunda fuzilaria,

Vislumbra-se uma figura esguia:

Na mão a espada, nos lábios uma reza!

.

Seus ideais convergem para a Pátria!

O Pai, brilhante guerreiro asceta!

Tem um brilho nos olhos, como seta

Que perpassa célere! Está só, como um pária!

.

E, quando o altivo Alcaide é morto.

Corre o filho pela barbacã de dor louco,

A face retesada, violenta, a mão um soco

Desferindo e percorre o campo com o olhar torto!

18/10/1958[2]

 

Trecho de Fernão Lopes:

Como Nuno Gonçalves de Faria foi morto, porque nom quis dar o castelo a Pero Rodriguez Sarmiento

 

“O bom escudeiro de Nuno Gonçalves, que foi preso nesta peleja que ouvistes, tendo grande sentido do castelo de Faria, que leixara encomendado a seu filho, cuidou aquilo que razoavelmente era de presumir, a saber: que aqueles que o tomaram, o levariam ante o lugar e, dando-lhe alguns tormentos ou ameaça deles, que o filho, vendo-o, haveria piedade dele, e seria demovido a lhes dar o castelo. E porque nom tinha maneira como o disto pudesse perceber, disse a Pero Rodriguez Sarmiento que o mandasse levar ao castelo, e que ele diria a seu filho, que nele ficara, que lho entregasse.

Pero Rodriguez foi disto mui ledo e mandou que o levassem logo. E ele, chegando ao pé do lugar, chamou por o filho, o qual veio à pressa; e ele, em vez de dizer que desse o castelo àqueles que o levavam, disse ao filho em esta guisa;

— Filho, bem sabes como este castelo me foi dado por el-rei D. Fernando, meu senhor, que o tivesse por ele, e lhe fiz por ele menagem; e, por minha desaventura, eu saí dele, cuidando de o servir; e sou ora preso em poder de seus imigos, os quais me trazem aqui para te mandar que lho entregues. E porque isto é cousa que eu fazer nom devo, guardando minha lealdade, por isso te mando, sob pena de minha benção, que o nom faças, nem o dês a nenhuma pessoa, senom a el-rei, meu senhor, que mo deu; ca, para te perceber disto, me fize aqui trazer e, por tormentos nem morte que me vejas dar, nom o entregues a outrem, senom a el-rei, meu senhor, ou a quem to ele mandar entregar per seu certo recado.

Os que o preso levavam, quando isto ouviram, ficaram espantados de suas razões; e perguntaram-lhe se dizia aquilo de jogo, ou se o tinha assi na vontade. E ele respondeu que, pera o perceber disto, se fizera ali trazer; e que assi lho mandava sob pena da sua bênçom.

Eles, tendo-se por escarnidos, com queixume disto, em presença do filho o mataram em essa hora, de cruéis feridas. E nom cobraram, porém, o castelo.”

 

Crónicas de Fernão Lopes, selecção, introdução e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, c 1988

Trecho de Alexandre Herculano:

O Castelo de Faria (1373)

 

“—Moço alcaide, moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado da Galiza pelo muito excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e, chegando à barbacã[3], disse ao arauto:

— A Virgem proteja o meu pai: dizei-lhe que eu o espero.

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu de entre os seus guardadores e falou com o filho:

Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia?

— É — respondeu Gonçalo Nunes — de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem.

— Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?

—Sei, oh meu pai! — prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar. — Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência?

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:

—Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no Inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver.

— Morra! — gritou o almocadém castelhano. — Morra o que nos atraiçoou. — E Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado por muitas espadas e lanças.

—Defende-te, alcaide! — foram as últimas palavras que ele murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

[…]

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do Castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco.”

 

Alexandre Herculano, Obras Completas — Lendas e Narrativas, tomo 1, Prefácio e revisão de Vitorino Nemésio, verificação do texto e notas de António C. Lucas, Lisboa, Bertrand, 1978. Publicado em O Panorama (1838).

 

*

 

Dedico este artigo à minha avó paterna, que me contou muitas vezes este episódio lendário da História de Portugal.

L. de B. Tavares








 

 



[1] Apresenta-se neste artigo um poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal (“Alcaide de Faria”) juntamente com dois excertos de Fernão Lopes e Alexandre Herculano sobre o mesmo tema, publicados num artigo com o mesmo título na revista Caliban (04/06/2022).

[2] O poeta contava 17 anos quando escreveu este poema.

 

[3] Barbacã: “A barbacã (do latim medieval “barbacana”), em arquitectura militar, é um muro anteposto às muralhas, de menor altura do que estas, com a função de proteger as muralhas dos impactos da artilharia.” In Wikipédia.

 

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