quinta-feira, 30 de março de 2023

 

 Apontamentos com Pinharanda Gomes: A douta ignorância                                                      

                                                        

                                                         Luís de Barreiros Tavares

                                                                                                                        In memoriam Pinharanda Gomes

«Apontamentos com Pinharanda Gomes: A Douta Ignorância», Nova Águia, nº 31, Março, 1º semestre, 2023, pp. 118-121.

 

“A filosofia mostra o carismático pudor de ainda não saber o todo de tudo, mesmo que aceda, ou vá acedendo, a algum grau de saber. Como se diz no adágio paradoxal, se sabe demais já não é filosofia. […] E que é a sabedoria? Se soubéssemos objectivamente e sem equívoco, a filosofia já não seria necessária.” Pinharanda Gomes em entrevista concedida a Luís de Barreiros Tavares

 

Este breve estudo reúne dois trechos de dois títulos do pensador e filósofo Jesué Pinharanda Gomes (1939-2019): Teoria do Pão e da Palavra (1973); Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Ascese Filosófica) (1974). A partir deles procedi ao esboço de algumas reflexões, abordando vários autores. Acrescentei no final o excerto de uma entrevista concedida por Martin Heidegger a Richard Wisser (1969). As três partes correspondem-se nos seus contextos.

1

No grego encontra-se, por exemplo, o verbo interrogar na forma manifestamente reflexa, […] o interrogar é sempre interrogar-se, ou bouleomai. Interrogar-se a si mesmo, verbo que se encontra, já nas determinantes do pensamento de Heraclito, quando este afirma ter começado por se interrogar (Fragmento 101), ou examinar a si mesmo. Certo que o verbo interrogar, na forma latina, supõe uma relação (inter) e uma acção (rogare), o que se não torna logo explícito, mas que aponta sem dúvida para o mesmo sentido reflexo do verbo grego, ou seja, para o seguinte: a interrogação é sempre feita pelo sujeito que interroga e, este sujeito, interroga a sua própria pessoa, ou a si mesmo se interroga.

(Pensamento e Movimento, pp. 80-81)

 

 “A interrogação é sempre feita pelo sujeito que interroga e, este sujeito, interroga a sua própria pessoa, ou a si mesmo se interroga.” Pinharanda Gomes

Originariamente, na própria interrogação há uma interrogação intrínseca a si mesma. Uma interrogação que se interroga. No espanto, por exemplo, atitude inicial que caracteriza o filósofo, há como que uma exclamação e uma interrogação que se entrelaçam.  Exclamação e interrogação no ser expectante, na perplexidade, no pasmo do espectáculo e admiração (thaumazein), o espanto de as coisas serem como são (Platão, Teeteto, 155 d; Aristóteles, Metafísica, 982 b). Digamos que no espanto, na exclamação-afirmação do espanto (“de as coisas serem como são”), há uma interrogação. A própria exclamação, na afirmação de as coisas serem como são, interroga-se. Implicitamente há uma afirmação e uma negação. E, nessa medida, a própria interrogação se interroga.

Enfim, no sujeito e suporte afirmativo de si – e no seu movimento mais fundamental – há uma interrogação de si. Por isso, “a interrogação é sempre feita pelo sujeito que interroga e, este sujeito, interroga a sua própria pessoa…”. Não será este o despontar do pensamento no seu sentido originário?

Mas poderemos ainda entender deste modo: o espanto filosófico, na sua imanência, afirma e nega, constata como podendo ser (pode ser!), e suspende essa constatação com um não pode ser! – expressando surpresa, mas reiterando, no fundo, um “é mesmo!”.

2

Como o douto ignorante escolhe a liberdade da interrogação perpétua, o vão sábio acolhe-se à sombra da perpétua autoridade, onde morre sem vivificância. De modo semelhante, o temperado e modesto escolhe o pão que baste, na liberdade que sobeje, no mesmo instante em que o glutão e ambicioso prende com as mãos ambas o pão que houver, sem cuidar da liberdade necessária. A liberdade é, para o guloso, ou para o vão sábio, o mesmo que as pepitas são para o galo. Situam-se numa esfera excêntrica à massiva situação em que se insere.

A filosofia é a preferência da douta ignorância e da temperança, onde a ciência é a opção pela sabedoria e pela gula. Sábio, o homem não pode ser filósofo, mas, filósofo pode sagrar-se sábio, porque o essencial vem, para a sua potencialidade operante, por acréscimo. Por isso, em vez de colher os lírios dos campos, ou de caçar as aves do céu, sobe à cumeada da serrania e, de lá, segundo a norma superna, olha para os lírios, enquanto segue as aves, augurando, pelo odor e pelo voo, o destino de quanto há no que, pelos sentidos ilusórios, se julga haver.

(Teoria do Pão e da Palavra, p. 17)

Dir-se-ia até que a filosofia prefere, no fundo, não saber. Ou antes, ela não quer saber, prefere não saber, na medida em que se retira do movimento da ciência na sua “opção pela sabedoria e pela gula”. Mas trata-se aqui, na filosofia, da “douta ignorância”. Esta guarda um paradoxo essencial e fértil (a sábia ignorância) que que remonta a Nicolau de Cusa assinando De Docta Ignorantia (1440) e sua coincidentia oppositorum. Mais remota ainda é aquela máxima atribuída, lendariamente e popularmente, a Sócrates, mas contextualizável na transmissão dos seus diálogos: “só sei que nada sei”. Por exemplo: “É assim, senhores Atenienses: foi só a minha sabedoria que me conseguiu tal fama. Mas que sabedoria? A que provavelmente é a sabedoria humana. Há realmente algumas probabilidades de eu ser sábio neste domínio; os que falaram há bocado com certeza sabem alguma coisa de mais elevado do que esta ciência humana; ou então não sei que dizer; a essa não a conheço eu; e quem afirma o contrário mente e levanta-me calúnias.” (Platão, A defesa de Sócrates, pp. 20-21 [20d], trad. Agostinho da Silva). Em ressonância com estas vertentes do pensar, o filósofo português Francisco Sanches (1550-1663) escreveu Quod Nihil Scitur (1581), e mais tarde publica-se Discours de la méthode (1637), de Descartes (1596-1650). Curiosamente, logo no intróito – e sem poder aqui aprofundar – Sanches interpela a própria linguagem: “Voltei-me então para mim próprio; e pondo tudo em dúvida, como se até então nada se tivesse dito, comecei a examinar as próprias coisas: é esse o verdadeiro meio de saber (itálicos nossos; “Francisco Sanches ao leitor” in Que Nada se Sabe, p. 57). Tanto assim que: “Comecemos pelo nome, pois para mim todas as definições são verbais [definitio nominis – em nota de rodapé], bem como quase todas as questões” (op. cit., p. 63-64).[1]

“A filosofia é a preferência da douta ignorância” Pinharanda Gomes

Na douta ignorância não se deixa, todavia, de saber. O filósofo (philo-sophos) é, como a própria etimologia indica, o amigo do saber, da sabedoria. A filosofia (philo-sophia) é a amizade, ou o amor – como se costuma dizer – da sabedoria. Na sua condição de saber na “douta ignorância”, o filósofo será sábio na medida da sua abertura (“sua potencialidade operante”) que se questiona, se interroga, enquanto o dado da ciência, tido como adquirido numa certa época ou momento, sempre ainda suscita uma interpelação que, no entanto, a ciência suspende para fora de si. Não é o que Pinharanda Gomes sugere nesta forma alegórica ou metafórica? “A liberdade é, para o guloso, ou para o vão sábio, o mesmo que as pepitas são para o galo. Situam-se numa esfera excêntrica à massiva situação em que se insere.” É para aquela interpelação que há a “Filosofia das ciências” (a chamada Epistemologia). É interessante assinalar que os exemplos do genitivo objectivo e do genitivo subjectivo na expressão “Filosofia das ciências” são um bom ponto de partida para pensar a complexidade da relação entre a filosofia e a ciência. Filosofia das ciências: reflexão filosófica acerca das ciências; a filosofia exerce-se sobre as ciências; as ciências são o alvo, objecto (genitivo objectivo). Filosofia das ciências: há uma dimensão filosófica inerente às ciências; elas abrangem uma dimensão filosófica; as ciências exercem acção como sujeito (genitivo subjectivo). A chamada “Filosofia com ciências”, sustentada pelo filósofo Fernando Belo (1933-2018), parece dar um passo na compreensão desta problemática. Não indo mais longe, refiro aquilo que Belo designa como a «componente filosófica ocultada» («composante philosophique cachée»). Cito apenas um breve passo apelando ao contexto, despertando a leitura: “[…] a representação do objecto (exterior) no sujeito (interior), a ideia, o que pressupõe a oposição dentro/fora.” (La philosophie avec sciences au XX siècle, p. 13).[2]

 

3

 

O segundo trecho de Pinharanda Gomes é reflexivo, com alguns elementos metafóricos numa dimensão espiritual que tanto caracterizam o seu estilo a par de uma elegância de escrita. O filósofo considera a dimensão filosófica e questionante do saber como douta ignorância (“a interrogação perpétua”). A douta ignorância será uma sábia ignorância (“douta”, do lat. doctus: sábio – “o douto ignorante”). Ele opõe-na ao saber da ciência como suposta “opção pela sabedoria”, enquanto saber consumado “pela gula”. Não esqueçamos que a etimologia latina de “ciência” – scientia – remete para scire, verbo “saber” (vj. acima Sanches: Quod nhil scitur). Poderemos considerar a douta ignorância no seu carácter interrogativo como a essência do pensar. O que se propõe aqui? Na linha da nossa presente leitura, se estabelecermos uma ponte entre esta dimensão da douta ignorância, em Pinharanda Gomes, e a questão do pensar em Martin Heidegger (o filósofo alemão entregou-se a esta questão, por exemplo: A que chamamos pensar?Was heisst Denken?)  no contraponto à ciência, talvez possamos abrir algum caminho – dar algum passo possível – para o lugar da ciência e da filosofia nos nossos tempos.

Será pertinente lembrar uma entrevista concedida por Martin Heidegger a Richard Wisser em 24 de Setembro de 1969. Transcrevo a passagem onde Wisser questiona Heidegger sobre a sua polémica declaração: “a ciência não pensa”.

 

“Eu só posso pensar o que é a física na forma de uma interrogação filosófica.” Martin Heidegger

Wisser: duas coisas que o Sr. sempre põe em questão e das quais sublinha o carácter problemático: a pretensão da ciência à dominação e uma maneira de conceber a técnica que só vê nela um meio útil de alcançar mais rapidamente o propósito a cada vez desejado. Precisamente em nossa época, onde a maior parte dos homens espera tudo da ciência e onde se lhe demonstra, por meio de transmissões televisivas mundiais, ou seja, extra-terrestres, que o homem alcança por meio da técnica aquilo a que se propõe nessa época, suas ideias sobre a ciência e sobre a essência da técnica tornam-se quebra-cabeças para muitas pessoas. Em primeiro lugar, o que o Sr. entende quando afirma que a ciência não pensa?

Heidegger: comecemos pelos quebra-cabeças: penso que eles são inteiramente salutares! O facto de que há ainda muito poucos quebra-cabeças hoje no mundo e também uma grande ausência de ideias é, precisamente, função do esquecimento do Ser. E essa sentença: a ciência não pensa, que causou tanto alvoroço, quando a pronunciei no contexto de uma conferência em Freibourg, significa: a ciência não se move na dimensão da filosofia. Mas, sem o saber, ela se enraíza nessa dimensão. Por exemplo, a física se move no espaço, no tempo no movimento. A ciência como ciência não pode decidir o que é o movimento, o espaço, o tempo. A ciência não pensa, ela não pode mesmo pensar nesse sentido com os seus métodos. Eu não posso dizer, por exemplo, com os métodos da física, o que é a física. Eu só posso pensar o que é a física na forma de uma interrogação filosófica. A sentença: a ciência não pensa não é uma repreensão, mas uma simples constatação da estrutura interna da ciência; é próprio da sua essência que, de uma parte, ela dependa do que a filosofia pensa, mas que, de outra parte, ela esqueça e negligencie o que aí exige ser pensado.

 

Bibliografia

GOMES, Pinharanda (1974). Pensamento e Movimento (Prolegómenos a uma Ascese Filosófica). Porto: Lello & Irmão.

______ (1989). Teoria do Pão e da Palavra, (1ª edição 1973). Separata da Nova Renascença, Vol. IX, nº 34.

______ (2015). Entrevista concedida a Luís de Barreiros Tavares. in Nova Águia, nº15, 1º semestre. Sintra: Zéfiro, pp. 258-262.

*

ARISTÓTELES (1990). Metafísica. Ed. trilingue [grego, latim, castelhano]Trad. Valentín García YebraMadrid: Ed. Gredos.

BELO, Fernando (2009). La philosophie avec sciences au XX siècle. Paris: L’Harmattan.

HEIDEGGER, Martin (1959). Qu’appelle-t-on penser?. Trad. Aloy Becker et Gérard Granel. Paris: PUF.

 ______ (1969). Entrevista concedida a Richard Wisser em 24 de Setembro de 1969 e transmitida pelo canal 2 da televisão alemã ZDF, por ocasião do seu octogésimo aniversário. Tradução de Antonio Abranches. Ligação PDF e publicação no Youtube.

PLATÂO, A defesa de Sócrates (1937). Tradução e pref. de Agostinho da Silva. Lisboa: Seara Nova.

______ (1965). Apologie de Socrate, Criton, Phédon. Trad. et notes para E. Chambry. Paris: Flammarion.

______ (1967). Théétète, Parménide. Traduction et notes par E. Chambry. Paris: Flammarion. 

SANCHES, Francisco (1991). Que Nada se Sabe (Quod Nihil Scitur). Trad. Basílio de Vasconcelos. Textos introdutórios de Joaquim de Carvalho. Lisboa: Vega.

TAVARES, Luís de Barreiros. O espanto filosófico”. in Caliban. 07/10/2022. Em linha.

______ (2022). “O espanto filosófico (II)”. in Caliban. 14/10/2022. Em linha.

 

 

 

                                                                                 


 

 

 



[1] Sobre Sanches e Descartes leiam-se as interessantes reflexões do filósofo Joaquim de Carvalho (1892-1958): “Descartes e a cultura filosófica portuguesa” (textos em linha). Por exemplo, a título de passagem: “Desde 1748, das Remarques critiques sur le Dictionnaire de Bayle, de Philippe-Louis Joly, está em crise a originalidade da conceção cartesiana da dúvida metódica. Contra a afirmação de Bayle, considerando Francisco Sanches «um grande Pirrónico», observou aquele sagaz erudito que o Quod nihil scitur, de Sanches, era ‘à proprement parler, une espèce de Méthode, à peu près semblable à celle que Descartes a suivie dans la suite, dont le fondement est un doute, sur tout ce que l'on veut examiner.’”. Veja-se ainda “Apresentação de Francisco Sanches”, por Joaquim de Carvalho, na obra Quod Nihil Scitur.

[2] Para um aprofundamento destas questões: BELO, Fernando (2007). Le Jeu de sciences avec Heidegger et Derrida (2 volumes). Paris: L’Harmattan (c 1000 pgs). 

 

 

 

    Alcaide de Faria – Aos heróis de todas as guerras e batalhas

 

                                              Luís de Barreiros Tavares

 



«Alcaide de Faria», Nova Águia, nº 30, Outubro, 2º semestre, 2022, pp. 127-128.

“Aquiles voava furioso em frente e Heitor fugia sob as muralhas dos Troianos” (Homero, Ilíada — trad. Frederico Lourenço)

 

Alcaide de Faria [um poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal – 1958][1]

 

Sobre os muros da vetusta fortaleza,

Por entre a furibunda fuzilaria,

Vislumbra-se uma figura esguia:

Na mão a espada, nos lábios uma reza!

.

Seus ideais convergem para a Pátria!

O Pai, brilhante guerreiro asceta!

Tem um brilho nos olhos, como seta

Que perpassa célere! Está só, como um pária!

.

E, quando o altivo Alcaide é morto.

Corre o filho pela barbacã de dor louco,

A face retesada, violenta, a mão um soco

Desferindo e percorre o campo com o olhar torto!

18/10/1958[2]

 

Trecho de Fernão Lopes:

Como Nuno Gonçalves de Faria foi morto, porque nom quis dar o castelo a Pero Rodriguez Sarmiento

 

“O bom escudeiro de Nuno Gonçalves, que foi preso nesta peleja que ouvistes, tendo grande sentido do castelo de Faria, que leixara encomendado a seu filho, cuidou aquilo que razoavelmente era de presumir, a saber: que aqueles que o tomaram, o levariam ante o lugar e, dando-lhe alguns tormentos ou ameaça deles, que o filho, vendo-o, haveria piedade dele, e seria demovido a lhes dar o castelo. E porque nom tinha maneira como o disto pudesse perceber, disse a Pero Rodriguez Sarmiento que o mandasse levar ao castelo, e que ele diria a seu filho, que nele ficara, que lho entregasse.

Pero Rodriguez foi disto mui ledo e mandou que o levassem logo. E ele, chegando ao pé do lugar, chamou por o filho, o qual veio à pressa; e ele, em vez de dizer que desse o castelo àqueles que o levavam, disse ao filho em esta guisa;

— Filho, bem sabes como este castelo me foi dado por el-rei D. Fernando, meu senhor, que o tivesse por ele, e lhe fiz por ele menagem; e, por minha desaventura, eu saí dele, cuidando de o servir; e sou ora preso em poder de seus imigos, os quais me trazem aqui para te mandar que lho entregues. E porque isto é cousa que eu fazer nom devo, guardando minha lealdade, por isso te mando, sob pena de minha benção, que o nom faças, nem o dês a nenhuma pessoa, senom a el-rei, meu senhor, que mo deu; ca, para te perceber disto, me fize aqui trazer e, por tormentos nem morte que me vejas dar, nom o entregues a outrem, senom a el-rei, meu senhor, ou a quem to ele mandar entregar per seu certo recado.

Os que o preso levavam, quando isto ouviram, ficaram espantados de suas razões; e perguntaram-lhe se dizia aquilo de jogo, ou se o tinha assi na vontade. E ele respondeu que, pera o perceber disto, se fizera ali trazer; e que assi lho mandava sob pena da sua bênçom.

Eles, tendo-se por escarnidos, com queixume disto, em presença do filho o mataram em essa hora, de cruéis feridas. E nom cobraram, porém, o castelo.”

 

Crónicas de Fernão Lopes, selecção, introdução e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, c 1988

Trecho de Alexandre Herculano:

O Castelo de Faria (1373)

 

“—Moço alcaide, moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado da Galiza pelo muito excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e, chegando à barbacã[3], disse ao arauto:

— A Virgem proteja o meu pai: dizei-lhe que eu o espero.

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu de entre os seus guardadores e falou com o filho:

Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia?

— É — respondeu Gonçalo Nunes — de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem.

— Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?

—Sei, oh meu pai! — prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar. — Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência?

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:

—Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no Inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver.

— Morra! — gritou o almocadém castelhano. — Morra o que nos atraiçoou. — E Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado por muitas espadas e lanças.

—Defende-te, alcaide! — foram as últimas palavras que ele murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

[…]

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do Castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco.”

 

Alexandre Herculano, Obras Completas — Lendas e Narrativas, tomo 1, Prefácio e revisão de Vitorino Nemésio, verificação do texto e notas de António C. Lucas, Lisboa, Bertrand, 1978. Publicado em O Panorama (1838).

 

*

 

Dedico este artigo à minha avó paterna, que me contou muitas vezes este episódio lendário da História de Portugal.

L. de B. Tavares








 

 



[1] Apresenta-se neste artigo um poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal (“Alcaide de Faria”) juntamente com dois excertos de Fernão Lopes e Alexandre Herculano sobre o mesmo tema, publicados num artigo com o mesmo título na revista Caliban (04/06/2022).

[2] O poeta contava 17 anos quando escreveu este poema.

 

[3] Barbacã: “A barbacã (do latim medieval “barbacana”), em arquitectura militar, é um muro anteposto às muralhas, de menor altura do que estas, com a função de proteger as muralhas dos impactos da artilharia.” In Wikipédia.

 

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