sábado, 6 de junho de 2020

O Surrealismo na pintura de Mário Cesariny




O Surrealismo na pintura de Mário Cesariny


                                      Luís de Barreiros Tavares


“O Surrealismo na pintura de Mário Cesariny”, A IDEIA, Nº 87-88-89 (2019) , pp. 277-281.

                                                                     I
Desde a minha adesão ao surrealismo, em 1947, e ao contrário do que a alguns pode parecer, foi a despintura que me ajudou a desregrar e a desmembrar a linguagem que, a partir daí, pratiquei nos meus versos.
Mário Cesariny

Há vários anos me dei conta de que a pintura de Mário Cesariny é notável. Tentarei fazer uma leitura, se assim se pode dizer, da sua obra plástica, partindo das impressões que tenho vindo a recolher quando observo os seus trabalhos. Recorrerei a algumas fontes acompanhando esta análise.
As suas obras pictóricas são, em geral, de pequenas dimensões, nunca em grandes suportes. Dois dos aspectos mais assinaláveis na concepção compositiva de muitas das suas pinturas são: 1) espaços de planos lisos cromáticos, à partida sem profundidade de perspectiva ou pontos de fuga, no jogo biplano com o suporte (tela, madeira, cartão…); 2) espaços indiciando alguma profundidade perspéctica, linhas e pontos de fuga mais ou menos esboçados, portanto, nunca explicitamente perspectivistas. Chamemos a esses dois aspectos “elementos” (doravante “1 e 2”).


Fig. 1 – Pascoaes, o Poeta – 1972

Estes dois elementos jogam-se e interagem conferindo, à partida, uma aparente precariedade nessas pinturas, mas num efeito plástico que afinal os aproveita e põe em jogo. Há, no entanto, uma elementaridade, uma precariedade, uma pobreza trabalhada. Esta confere, a par das pequenas dimensões das obras, aspectos muito interessantes. Escutemos Bernardo Pinto de Almeida:
“Tem ainda a pintura de Mário Cesariny o ser humilde, quase pobre. Sábia e desprendida como os pobres. […] nas tintas espessas ou escorridas que misturam vários media, […] nos suportes inconvencionais do platex, da madeira ou do cartão […]. Ainda no modo como desaprendendo sempre, jamais se queixa da ingenuidade ou dela faz pretexto para não se aventurar no que não se conhece” [1].
Observemos os dois elementos que assinalámos acima (1 e 2). Os efeitos perceptivos daqueles planos sem profundidade, por um lado, e de os que indiciam profundidade, por outro, estruturam as pinturas como se estas se tratassem paradoxalmente de pequenas janelas que potencialmente podem mudar de escala para grandes janelas consoante a incidência ou focagem do olhar.
Com efeito, se num primeiro momento observarmos os planos lisos sem profundidade, eles parecem à partida confinar-se ao espaço e dimensões concretas que se inscrevem na superfície pictórica do quadro como tal: suporte. Em contrapartida, se observarmos os motivos, digamos assim, mais perspectivistas, de profundidade e de pontos de fuga esboçados, constatamos uma espécie de campos abertos ou, mais propriamente, de abertura para outros espaços para lá da “janela” do quadro.
Todavia, aqueles planos lisos de superfície podem indiciar também uma certa profundidade perspéctica. Observe-se a mancha clara em baixo, à direita, na figura 1. Ela parece oscilar entre uma dimensão perspéctica e um plano monocromático liso de superfície em contraponto às formas do lado esquerdo, estas mais em ângulos, evidenciando mais profundidade e perspectiva. Mas já as manchas centrais negras acima são planos lisos puros.
Aqueles dois elementos (1 e 2), à partida em choque, estruturam e partilham a superfície e concepção do espaço pictural. Os planos sem profundidade, como dizíamos, supostamente confinados à superfície do suporte, podem tornar-se – perceptivamente e nos diversos e potenciais efeitos alternantes e em jogo com os espaços de profundidade – imensos espaços, imensos vazios, imensos desertos, sem que seja necessário tratar-se de uma paisagem representada ou de um motivo figurativo em perspectiva e profundidade.
Por outro lado, quando se destaca a focagem perceptiva daqueles planos puros em grandes espaços,  um efeito perceptivo virtualmente minguante e de redução de escala – nas manchas [nos motivos] mais perspécticas e de certa profundidade – pode eventualmente ocorrer, na medida em que estas passam para segundo plano na observação.
Mas o interessante é que todos estes movimentos perceptivos podem permutar-se entre si, cruzar-se, alternativamente, sem que deixe de manter-se a possibilidade de o espectador as distinguir.
A virtual estruturação pictural desses dois elementos (1 e 2), por parte do pintor e criador, em interacção com a virtual imaginação e projecção perceptiva do observador – que nessa condição de movimento também age sobre a obra – produz esse efeito potencialmente alternante de expansão e contracção do espaço.
Hoje procura-se muitas vezes telas desmesuradamente grandes para se produzir um efeito de espaço, quando, como vimos, esse efeito também se consegue com superfícies e suportes pequenos. O estranho é que muitos artistas contemporâneos – ainda que entre eles muitos sejam notáveis – recaem na banalização das grandes superfícies, como se fosse inevitável procurar sempre ou quase sempre uma grande superfície, um suporte descomunal, para suscitar a impressão de imensidade. Acontece também com certas obras tridimensionais monstruosas num kitsh pletórico e acrítico[2].
Os dois elementos que assinalámos não são uma invenção de Cesariny. Diríamos que é antes o retomar e reexplorar de certas linguagens que já encontramos, por exemplo, em Paul Klee (“Objectos Desorganizados no Espaço”, de 1924, "Vila R", de 1919, etc.). E em Miró, numa outra vertente surrealista, por exemplo, nas flutuações e numa poética de signos e seres anímicos na oscilação de espaços aparentemente lisos de superfície e, ao mesmo tempo, suscitando profundidade. É evidente que tudo isto começa a desenvolver-se com as pesquisas cubistas e abstraccionistas no despontar do séc. XX.
É o exemplo de Malevich, no abstraccionismo, ou no “não-figurativo” – expressão que ele preferia –, com os seus famosos fundos brancos no Suprematismo, que se inicia com a obra paradoxal e provocatoriamente designada “o ícone do nosso tempo”: “Quadrado – ou quadrângulo – Negro sobre Fundo Branco”, de 1915. Segundo Malevich, esse branco, esses brancos que virão povoar as pinturas suprematistas são o “branco abissal”, o “nada libertado”…
Mas Cesariny retrabalha esses elementos no diálogo e na exploração das novas vertentes do Surrealismo, inventando ele mesmo novas técnicas (veremos adiante)  a par de expressões e, digamos assim, “assinaturas” pictóricas próprias revelando a sua singularidade, os seus estilos ou fases variadas, mas sempre com a sua marca autoral.
Assim, algo de novo se dá no caso da estrutura pictural com aqueles dois elementos (1 e 2) que tentámos observar na linhagem de uma certa corrente da arte do séc. XX. Trata-se, aqui, da génese de novas formas de entrada e saída da pintura a partir dela mesma. Novas formas de espaço e de tempo, de percepções picturais na ponte com o abstracto e com o neofigurativo[3].
Nestes desdobramentos possíveis de espaços parece produzir-se um duplo movimento de entrada e um duplo movimento de saída, diferentemente da pintura meramente perspectivista. Todo um novo jogo de figura e fundo, de forma e fundo, de profundidade e superfície.

                                                                            II


Fig. 2 – Sem título, técnica mista sobre papel, 27 x 21 cm, 1949 (Colecção particular)

Numa ordem inversa do tempo, desçamos agora ao despontar do Surrealismo em Cesariny. Como assinala o historiador de arte João Pinharanda[4], “Cesariny entra em ruptura com o surrealismo de André Breton”. Neste inscreve-se sobretudo o “método paranóico crítico de Dali, a figuração de Magritte e de Dali…”, e também de Chirico, Delvaux...
De facto, nestes artistas as vertentes perspécticas e figurativas são hegemónicas. Portanto, um dos elementos (2) que referimos no início da secção anterior (I) é neles determinante. Pelo contrário, o elemento dos planos lisos e de aparente mera superfície (1) não tem aqui propriamente lugar.
A grande exposição surrealista organizada por Breton, no Verão de 1947 em Paris, foi visitada por alguns surrealistas portugueses (António Dacosta, Cândido Costa Pinto e Cesariny…). Mas Cesariny viu outras exposições “fora da norma”, nas vertentes da “arte informal” (“Wols, Fautrier”…).
“As suas primeiras obras plásticas são realizadas por esta altura – momento em que entra em ruptura literária com o neo-realismo”   e inspiram-se decididamente nestas exposições “fora de norma” e não numa certa “imagem comum, normalizada (“normativa”), talvez, do surrealismo bretoniano, também com um certo tipo de colagens, etc.” Sobre os meros seguidores desta linha, Cesariny chega denominá-los “surrealistas copistas”, ou “aquela coisa que se vê logo que é surrealista”(J. Pinharanda)…
O texto de Bataille “O informe” (1929) é marcante no percurso de Cesariny. Associado a esta vertente está o termo crachat (na acepção em francês de “escarro”, aranha, “verme da terra esmagado”, podendo derivar para “pano sujo e velho atirado ao chão”, eventualmente como despojo e também com o sentido de “horizontalidade”, de “o que é deitado para o lixo”.
Cesariny opta, assim, por “uma radicalização do acaso, do automatismo psíquico e pela libertação dos materiais. Por exemplo, a muito conhecida pintura “O operário”, de 1947[5].
Em alusão a uma outra obra de 1948[6], nesta vertente e na  ponte pintura-poesia, escutemos o pintor e crítico de arte Eurico Gonçalves, citando Cesariny:
A viscosidade orgânica da pintura lacerada e informal de Cesariny explora a intervenção do acaso no alastramento de tintas, vernizes e colas, na sobreposição de texturas, transparentes e opacas, na fusão de pigmentos, estridentes e neutros, e na incisão de grafismos elementares, abstractos e neofigurativos. A sua poesia funde-se na pintura-despintura com uma autoridade rara, e a sua pintura-despintura reverte para a poesia um admirável sentido de liberdade. Ele próprio declarou em 1971:
‘Desde a minha adesão ao surrealismo, em 1947, e ao contrário do que a alguns pode parecer, foi a despintura que me ajudou a desregrar e a desmembrar a linguagem que, a partir daí, pratiquei nos meus versos.’ ”[7]
Nestas experiências “Cesariny é pioneiro em Portugal, e pioneiro e coincidente a nível internacional” (J. Pinharanda). Não deixando, como vimos, de explorar as suas próprias linguagens plásticas a par das suas invenções: a) o aquamoto, inventado pelo próprio Cesariny (lavagens e aguadas de várias tintas e materiais com sobreposições, experiências que lembram palimpsestos (p. ex., “Rumeurs de villes”, 1968); b) a exploração e experiências de sopro, controladas ou não – sopro-acaso – (p. ex., “Figuras de sopro”, de 1947); c) sismografia: desenhar num papel – em cima do joelho – ao sabor das trepidações e solavancos dos eléctricos de Lisboa subindo e descendo as colinas (p. ex., “Sismofigura”, 1948)[8].

                                                                             III


Fig. 3 – Surrealismo, óleo sobre papel, 21 x 33 cm, 1959 (Colecção CAMJAP/FCG)[9]

O horizonte é outro tema abordado por João Pinharanda relativamente à belíssima série conhecida por “Linhas de água”, fase mais tardia das décadas de 70-80 do século passado (muitas destas pinturas não têm data e serão mesmo posteriores). Concluindo, tentarei aqui observar e analisar um pouco estas magníficas pinturas.
Haverá alguma inspiração ou influência rothkiana? Talvez, mas nas célebres pinturas de Mark Rothko parece haver sobretudo uma verticalidade quase de ecrã, de ecrãs que se desdobram, se desmultiplicam. Ao passo que nas linhas de água de Cesariny manifesta-se diferentemente uma alternância, quer de faixas indiciando horizontes (profundidade e horizontalidade), quer de outras indiciando verticalidade e superfície[10].
Assim, elas permutam-se nesses indícios, ora umas vezes parecendo inscrever-se para horizontes possíveis, ora, outras vezes, inscrevendo-se à maneira de camadas sobrepostas sem profundidade de horizonte, em faixas mais acentuadamente de superfície, abstractas, no plano do suporte. Dá-se, também, a impressão de sedimentações, como camadas estratigráficas de matéria fluída, aquática, enfim, líquida. Diríamos uma pintura líquida ou marítima.
Como se camadas de diferentes líquidos e de variadas tonalidades cromáticas se sobrepusessem. Para dar uma imagem: líquidos mais leves ou diversos que se elevam, flutuando sobre outros, tal como, por exemplo, o azeite sobre a água.
Na singularidade destas pinturas há ainda uma outra leitura possível: dir-se-ia, talvez, que por vezes essas camadas fluídicas e flutuantes povoam o espaço pictórico ora avançando, ora recuando ligeiramente, em alternância, em relação ao espectador.  Movimentos oscilantes e abstractos de linhas ou de horizontes, de estratificações, de faixas mais ou menos horizontais, como vagas e marés avançando e recuando, num vai-e-vem na percepção plástica[11].
A par disso, há a profundidade marítima de horizontes trazendo atmosferas ao mesmo tempo surrealizantes, do nosso planeta, de outros planetas, de outros lugares imaginários do Cosmos.

31/05/2018
Referências
Alain Arnaud / Gisèle Excoffon-Lafarge , Bataille, Seuil, écrivains de toujours, Paris, 1978.
Bernardo Pinto de Almeida, Mário Cesariny, Caminho, Lisboa, 2005.
Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Ed. MIL, Lisboa, 2017.
Philippe Audoin, Les Surréalistes, Seuil, écrivains de toujours, Paris, 1973.
Entrevista a João Pinharanda conduzida por Raquel Santos. Em linha: Arquivo RTP – Mário Cesariny (2005) – https://arquivos.rtp.pt/conteudos/mario-cesariny/
Eurico Gonçalves, “Mário Cesariny – o picto-poeta surrealista” (texto em linha – PDF).







[1] Bernardo Pinto de Almeida, Mário Cesariny, p. 22.

[2] Por exemplo, o “gigantesco Puppy (1992) de Jeff Koons, enorme escultura com flores que foi instalada no “espaço exterior” do Museu Guggenheim de Bilbao. Na realidade ela representa um Terrier West Highland, um cão de raça minúscula”. Mas não nos parece feliz esse jogo de escalas. É tão gratuitamente pletórico, que não perde o mero efeito de descomunal brinquedo ou boneco de uma certa Disneylândia, descambando numa espécie de mero enfeite. Aliás, como acontece entre nós com certas obras de Joana Vasconcelos (por exemplo, o Cacilheiro que representou Portugal na Bienal de Veneza de 2013). Cf. Luís de Barreiros Tavares, Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura (arte, ressonâncias modernas e contemporâneas), Ed. MIL, Lisboa, 2017, p. 86.
[3] A este propósito leia-se mais à frente a citação de Eurico Gonçalves.
[4] Ver a entrevista a João Pinharanda conduzida por Raquel Santos. Em linha: Arquivo RTP – Mário Cesariny (2005) – https://arquivos.rtp.pt/conteudos/mario-cesariny/



[5] Sobre todos estes dados ver a entrevista a João Pinharanda já mencionada. As frases e termos entre aspas são citações de Pinharanda nesta entrevista.
[6] “Sem título”, técnica mista s platex; 43x53,5cm, 1948 – Fundação Cupertino de Miranda, Famalicão, Centro de Estudos Surrealistas
[7] O interessante artigo de Eurico Gonçalves, “Mário Cesariny – o picto-poeta surrealista” (texto em linha – PDF).
[8] Sobre estas experiências e invenções veja-se: Bernardo Pinto de Almeida, Op.cit., p. 22 e 23; cf. a entrevista a João Pinharanda.
[9] Por motivos técnicos de reprodução (resolução de imagem), foi escolhida esta obra que, de algum modo, já se inscreve e ao mesmo tempo prenuncia a série mais tardia das “Linhas de água” (décadas de 70, 80, etc.). O título não deixa de ser sintomático da visão e das linguagens que Cesariny tem em relação a um certo surrealismo (secção II).
[10] Cesariny recebeu influências como todos os grandes pintores. Isso deve-se também à sua grande cultura pictórica. Para além da riqueza e exuberância cromática em muitas das suas pinturas (cores primárias, etc.), ele experimentou outros tons e cores mais austeros, talvez numa certa tradição da pintura espanhola moderna e contemporânea, parecendo por vezes evocar, na estrutura e composição, pintores como António Saura (1930-1998), entre outros. É o caso da pintura “Janus” (n/datado), lembrando na atmosfera e nos tons castanhos e ocres algumas dessas obras do pintor espanhol, as quais, por seu turno, evocam Francisco de Goya (1746-1828): “Retrato de Goya” e “O cão de Goya”.. Veja-se também “Retrato possível de Casanova” (1997)…
[11] Tomamos a liberdade de ventilar o seguinte contraponto entre a figuração de Dali e a abstracção em Cesariny, sem que haja nesta comparação qualquer influência: se no “Gabinete antropomórfico” (1936) do pintor espanhol as gavetas sugerem movimentos de avanços e recuos, abrindo-se e fechando-se, nas “Linhas de água” de Cesariny, e por contraponto, a impressão de  vai-e-vem das linhas decorre de efeitos ópticos e de percepção que não têm a ver com a representação e figuração de objectos, mas antes de formas abstractas sugerindo diversas impressões.


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