sábado, 19 de outubro de 2019

Vivências com Mário Cesariny e Fernando Grade: Poetas e pintores


      

Luís de Barreiros, TAVARES (2019), «Vivências com Mário Cesariny e Fernando Grade:  Poetas e pintores», in Nova Águia, nº 24, 2º semestre, 194-196.

                                        
                                                     Luís de Barreiros Tavares


Em memória do meu tio Jacinto Tavares, aguarelista de Alfama

Este breve texto relata algumas memórias da época em que me entreguei com mais fervor e mais explicitamente às artes plásticas (porque a arte, por vezes, também se dissimula e manifesta-se de modos inauditos, imperceptíveis e implícitos).
Conheci Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) numa das três exposições colectivas onde ele e eu participámos, um privilégio que muito me honra[1]. Foi na Perve Galeria Arte e Multimédia, em Alfama, entre 2001 e 2003, num encontro fugaz mas frutífero. Primeiro pude vê-lo e escutá-lo na formidável tertúlia poética que se realizou após a inauguração.
O poeta e também artista plástico Fernando Grade, que eu já conhecia há algum tempo, participou na mostra debatendo e «contracenando» com Cesariny questões de arte e poesia, numa gesta de discussão acalorada entre amigos. Pelo meio, Grade lia intensamente poemas seus e de outros, enquanto Cesariny, de pé, com um copo numa mão e um cigarro na outra, soprava a seu modo frases pensadas e pausadas, alternadas com outras intempestivas, incendiadas por vezes com palavras obscenas.
Mas antes da tertúlia foi a mostra e a vernissage, onde Grade dá sempre um ar da sua graça, sacando, num gesto mágico, os seus muito interessantes livros de poesia dos bolsos do forro da sua habitual gabardine (“edições Mic e Fernando Grade – colecção Salamandra”) e, ao mesmo tempo, coleccionando bolos e salgados para outros repastos.
No final, fomos no carro do Nuno Espinho (um dos directores da Perve), um pouco apertados no seu Renault ou Morris Mini  – salvo erro – rumo ao Cais do Sodré, para deixar o Cesariny e a sua irmã, senhora muito simpática, na estação de comboios onde seguiriam para Oeiras, residência de ambos. Portanto, éramos 5: o Nuno Espinho, o Grade, o Cesariny, a irmã e eu.
O Grade ia no banco da frente, ao lado do Espinho. Atrás, a irmã do Cesariny, se bem me lembro, entre mim e ele. Grade voltado para trás num torção difícil e nos solavancos de carro dos Bairros antigos conversava energicamente com Cesariny. Ambos gesticulavam, trocando recordações de lugares, pessoas, poetas , pintores, artistas, etc.
Devo confessar que me sentia um pouco perdido, mas entusiasmado, no meio daqueles personagens. Talvez para me pôr à vontade, o Cesariny passou furtivamente a mão pela minha cabeça. O Nuno Espinho conduzia atento a viatura ao mesmo tempo que acompanhava o momento escutando, falando um pouco e sorrindo. A conversa era de tal maneira turbulenta, intensa e interessante que, a páginas tantas, a irmã do Cesariny me segreda em tom um tanto confessional e provavelmente também para me tranquilizar: “… não ligue ao que dizem, são doidos …”
Foram realmente alguns minutos doidos ou loucos, mas loucos de valer e inesquecíveis, aqueles que decorreram naquela breve viagem entre o labiríntico Bairro antigo de mouros e judeus (Alfama) e o marítimo Cais do Sodré.
Cesariny, até avançada idade, foi um noctívago ou, pelo menos, um homem que saía à noite para beber uns copos: “…posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita…” (poema “Autobiografia”). Vi-o uma ou duas vezes entre amigos no mítico bar ou tasco do Bairro Alto: “Estádio”. Não me recordo se foi antes ou depois dos episódios de Alfama. Cesariny, na sua pose e rosto distintos, observava ao fundo do bar, em posição estratégica e atenta, a fauna de todas as idades…

Um poema e uma pintura de Cesariny:
Faz-se Luz
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos    e na boca 

Mário Cesariny, in "Pena Capital" 



Mário Cesariny: Linha d’Água (Sem data)

Um poema e uma pintura de Grade:
UM BARCO DE NÉVOAS VISITOU-ME O SANGUE
(Arte Maior)

Um barco de névoas visitou-me o sangue
e (cada vez mais nocturno) deixou marcas:
são limos, corais, potros, mel de monarcas,
asas de gaivota com que danço o tango.

Corro nesse barco em noites de morango
ilhas onde o sémen se esconde nas arcas,
par’cendo maçãs velhas em vez de farpas,
ó poetas de Bocage a Anto.

Se o barco fugir, perdido no escuro
(o meu olhar seco em forma de pão duro),
venham outras sinas dar-me as mãos em fúria…

Vou ficar no mar, a ver moças de areia,
Coberto de sial nas mamas das sereias,
Farrapo de génio, de sol e luxúria…

Fernando Grade
(in ‘Os Melhores Sonetos de Fernando Grade’. Selecção de poemas por António Cândido Franco; quatro ilustrações do pintor Artur Bual; Livro comemorativo dos 30 anos de Vida Literária de Fernando Grade – 1962-1992. Edição nº. 72 de Edições Mic/Colecção Salamandra/16. Estoril – Novembro de 1992.)



Fernando Grade: Serigrafia – Sem título
Alverca do Ribatejo – 30/05/2018





[1] Perve Galeria - Arte e multimédia. Exposição "Sur-sensus" - Outubro/2001 – Lisboa. Exposição Colectiva de Arte Contemporânea – Perve Acervo 2001 (Edifício do Banco de Portugal – Leiria). Acervo 2002 (Mostra de Arte Contemporânea no Hospital Júlio de Matos – 2003). Nestas mostras tive também o privilégio de expor com Cruzeiro Seixas, Raul Perez , Mário Botas, Nadir Afonso, Malangatana, Artur Bual, Luís Feito (grupo EL Paso), Fernando Grade, Reinata, João Cutileiro, Figueiredo Sobral (meu amigo de há mais tempo), Chissano, Ídasse, entre muitos outros. Os curadores e organizadores destes eventos na Perve eram e são ainda o Carlos Cabral Nunes e o Nuno Espinho. Em 2013 inaugurou-se a Casa da Liberdade, espaço em homenagem a Mário Cesariny, em articulação com a Perve Galeria.


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