domingo, 27 de março de 2022

"Do invisível pandémico ao Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago", Nova Águia, nº 28, Outubro, 2º semestre, 2021, pp. 119-123.

 


 

 Do invisível pandémico ao Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago

                                                            Luís de Barreiros Tavares

 

“Na verdade um oftalmologista cego não poderia servir para muito, mas competia-lhe a ele informar as autoridades sanitárias, avisá-las do que poderia estar a tornar-se em catástrofe nacional, nada mais nada menos que um tipo de cegueira desconhecido até agora, com todo o aspecto de ser altamente contagioso,” José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

O presente artigo – abrindo com uma citação de Lichtenberg, por Agamben – , e completando-se com uma extensa citação de Saramago (Ensaio sobre a Cegueira), para além de um brevíssimo apêndice de Canetti, foi inicialmente publicado a 23 de janeiro de 2021 na revista em linha “Caliban”. Cerca de 5 meses depois surgiu o seguinte anúncio para “um vasto programa internacional” (centenário do nascimento do escritor em 2022): “Exclusivo: A pandemia deu nova percepção à obra de Saramago e o centenário quer encontrá-la.” (Diário de Notícias – 14/06/2021)[1]

Giorgio Agamben acaba de publicar, um tanto enigmaticamente, um artigo que se limita a uma breve citação de Lichtenberg na página “Quodlibet” onde regularmente tem publicado artigos, muitos sobre a pandemia Covid-19.

Uma profecia de Lichtenberg” [1742-1799]

“O nosso mundo tornar-se-á tão civilizado que será ridículo acreditar em Deus, como é hoje acreditar em fantasmas. Então, depois de um certo tempo, o mundo tornar-se-á ainda mais civilizado. E o processo que o levará ao cume supremo da civilização continuará cada vez mais rápido. Tocando o pináculo, o julgamento de especialistas será novamente revertido e o conhecimento alcançará sua transformação extrema. Então – e este será realmente o fim – só acreditaremos em fantasmas.”

Agamben –  Quodlibet, 20 de janeiro de 2021[2]

Limitar-me-ei aqui, também, a fazer uma citação, esta bem mais longa. Não sei se é uma profecia, talvez seja uma alegoria, “uma nova percepção”? – cheia de metáforas – que nos dirá porventura alguma coisa – alguma coisa visível? – sobre o estado de coisas nos nossos dias em tempos de pandemia Covid-19. Vírus hiper-vísivel pela visibilidade das notícias incessantes, e hiper-invísivel por estar em todo o lado sem o vermos. É a paradoxalidade e o paroxismo da visibilidade e da invisibilidade no nosso mundo. Eis a citação do livro Ensaio sobre a Cegueira (1995), de José Saramago.

“Diferente foi o que se passou com o oftalmologista, não só porque se encontrava em casa quando o atacou a cegueira, mas porque, sendo médico, não iria entregar-se de mãos atadas ao desespero, como fazem aqueles que do seu corpo só sabem quando lhes dói. Mesmo numa situação como esta, angustiado, tendo pela frente uma noite de ansiedade, ainda foi capaz de recordar o que Homero escreveu na Ilíada, poema da morte e do sofrimento, mais do que todos, Um médico, só por si, vale alguns homens, palavras que não deveremos entender como expressão directamente quantitativa, mas sim maiormente qualitativa, como não tardará a certificar-se. Teve a coragem de se deitar sem acordar a mulher, nem sequer quando ela, murmurando meio adormecida, se moveu na cama para o sentir mais próximo. Horas e horas acordado, o pouco que conseguiu dormir foi de puro esgotamento. Desejava que a noite não acabasse para não ter de anunciar, ele cujo ofício era curar as mazelas dos olhos alheios, Estou cego, mas ao mesmo tempo queria que chegasse rapidamente a luz do dia, com estas exactas palavras o pensou, A luz do dia, sabendo que não a iria ver. Na verdade um oftalmologista cego não poderia servir para muito, mas competia-lhe a ele informar as autoridades sanitárias, avisá-las do que poderia estar a tornar-se em catástrofe nacional, nada mais nada menos que um tipo de cegueira desconhecido até agora, com todo o aspecto de ser altamente contagioso, e que, pelos vistos, se manifestava sem a prévia existência de actividades patológicas anteriores de carácter inflamatório, infeccioso ou degenerativo, como pudera verificar no cego que o fora procurar ao consultório, ou como no seu próprio caso se confirmaria, uma miopia leve, um leve astigmatismo, tudo tão ligeiro que havia decidido, por enquanto, não usar lentes correctoras. Olhos que tinham deixado de ver, olhos que estavam totalmente cegos, encontravam-se no entanto em perfeito estado, sem qualquer lesão, recente ou antiga, adquirida ou de origem. Recordou o exame minucioso que fizera ao cego, como as diversas partes do olho acessíveis ao oftalmoscópio se apresentavam sãs, sem sinal de alterações mórbidas, situação muito rara nos trinta e oito anos que o homem dissera ter, e até em menos idade. Aquele homem não devia estar cego, pensou, esquecido por momentos de que ele próprio também o estava, a tal ponto pode uma pessoa chegar em abnegação, e isto não é coisa de agora, lembremo-nos do que disse Homero, ainda que por palavras que pareceram diferentes.

Fingiu que dormia quando a mulher se levantou. Sentiu o beijo que ela lhe deu na testa, muito suave, como se não quisesse acordá-lo do que julgava ser um sono profundo, talvez tivesse pensado, Coitado, deitou-se tarde, a estudar aquele extraordinário caso do homenzinho cego. Sozinho, como se estivesse a ser lentamente garrotado por uma nuvem espessa que lhe carregasse sobre o peito e lhe entrasse pelas narinas cegando-o por dentro, o médico deixou sair um gemido breve, consentiu que duas lágrimas, Serão brancas, pensou, lhe inundassem os olhos e se derramassem pelas fontes, de um lado e do outro da cara, agora compreendia o medo dos seus pacientes quando lhe diziam, Senhor doutor, parece-me que estou a perder a vista. Ao quarto chegavam os pequenos ruídos domésticos, a mulher não tardaria aí para ver se ele continuava a dormir, estavam-se a fazer horas de ir para o hospital. Levantou-se com cuidado, às apalpadelas procurou e enfiou o roupão, entrou na casa de banho, urinou. Depois virou-se para onde sabia que estava o espelho, desta vez não perguntou Que será isto, não disse Há mil razões para que o cérebro humano se feche, só estendeu as mãos até tocar o vidro, sabia que a sua imagem estava ali a olhá-lo, a imagem via-o a ele, ele não via a imagem. Ouviu a mulher entrar no quarto, Ah, já estás levantado, disse ela, e ele respondeu, Estou. Logo a seguir sentiu-a ao seu lado, Bons dias, meu amor, ainda se saudavam com palavras de carinho depois de tantos anos de casados, e então ele disse, como se os dois estivessem a representar uma peça e esta fosse a sua deixa, Acho que não irão ser muito bons, tenho qualquer coisa na vista. Ela só deu atenção à última parte da frase, Deixa-me ver, pediu, examinou-lhe os olhos com atenção, Não vejo nada, a frase estava evidentemente trocada, não pertencia ao papel dela, ele era quem tinha de pronunciá-la, mas disse-a mais simplesmente, assim, Não vejo, e acrescentou, Suponho que fui contagiado pelo doente de ontem.

Com o tempo e a intimidade, as mulheres dos médicos acabam também por entender algo de medicina, e esta, em tudo tão próxima do marido, aprendera o bastante para saber que a cegueira não se propaga por contágio, como uma epidemia, a cegueira não se pega só por olhar um cego alguém que o não é, a cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu. Em todo o caso, um médico tem a obrigação de saber o que diz, para isso está a faculdade, e se este aqui, além de se ter declarado cego, admite abertamente ter sido contagiado, quem é agora a mulher para duvidar, por muito de médico que fosse. Compreende-se, portanto, que a pobre senhora, perante a irrefragável evidência, acabasse por reagir como qualquer esposa comum, duas já conhecemos nós, abraçando-se ao marido, oferecendo as naturais mostras de aflição, E agora, que vamos fazer, perguntava entre lágrimas, Avisar as autoridades sanitárias, o ministério, é o mais urgente, se se trata realmente duma epidemia é preciso tomar providências, Mas uma epidemia de cegueira foi coisa que nunca se viu, alegou a mulher, querendo agarrar-se a esta derradeira esperança, Também nunca se viu um cego sem motivos aparentes para o ser, e neste momento já há pelo menos dois. Mal acabara de pronunciar a última palavra, o rosto transformou-se-lhe. Empurrou a mulher quase com violência, ele próprio recuou, Afasta-te, não te chegues a mim, posso contagiar-te, e logo a seguir, batendo na cabeça com os punhos fechados, Estúpido, estúpido, médico idiota, como é que não pensei, uma noite inteira juntos, devia ter ficado no escritório, com a porta fechada, e mesmo assim, Por favor, não fales dessa maneira, o que tiver de ser será, anda, vem, vou-te preparar o pequeno-almoço, Deixa-me, deixa-me, Não deixo, gritou a mulher, que queres fazer, andar aí aos tombos, a chocar contra os móveis, à procura do telefone, sem olhos para encontrar na lista os números de que precisas, enquanto eu assisto tranquilamente ao espectáculo, metida numa redoma de cristal à prova de contaminações. Agarrou-o pelo braço com firmeza e disse, Vamos, meu querido.

Ainda era cedo quando o médico acabou de tomar, imaginemos com que gosto, a chávena de café e a torrada que a mulher teimou em preparar-lhe, cedo de mais para encontrar já nos seus lugares de trabalho as pessoas a quem deveria informar. A lógica e a eficácia mandavam que a sua participação do que estava a acontecer fosse feita directamente o mais depressa possível a um alto cargo responsável do ministério da Saúde, mas não tardou a mudar de ideias quando percebeu que apresentar-se apenas como um médico que tinha uma informação importante e urgente a comunicar não era suficiente para convencer o funcionário médio com quem, por fim, depois de muitos rogos, a telefonista condescendera em pô-lo em contacto. O homem quis saber de que se tratava antes de o passar ao superior imediato, e estava claro que qualquer médico com sentido de responsabilidade não iria pôr-se a anunciar o surgimento de uma epidemia de cegueira ao primeiro subalterno que lhe aparecesse pela frente, o pânico seria imediato. Respondia de lá o funcionário, O senhor declara-me que é médico, se quer que lhe diga que acredito, pois sim, acredito, mas eu tenho as minhas ordens, ou me diz de que se trata, ou não dou seguimento, É um assunto confidencial, Assuntos confidenciais não se tratam por telefone, o melhor será vir cá pessoalmente, Não posso sair de casa, Quer dizer que está doente, Sim, estou doente, disse o cego depois de uma hesitação, Nesse caso o que você deverá fazer é chamar um médico, um médico autêntico, retorquiu o funcionário, e, encantado com o seu próprio espírito, desligou o telefone.

A insolência atingiu o médico como uma bofetada. Só passados alguns minutos teve serenidade bastante para repetir à mulher a grosseria com que fora tratado. Depois, como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou, triste, É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade. Ia perguntar, duvidoso, E agora, quando compreendeu que tinha estado a perder tempo, que a única forma de fazer chegar a informação aonde convinha, por via segura, seria falar com o director clínico do seu próprio serviço hospitalar, de médico para médico, sem burocratas pelo meio, ele que se encarregasse depois de pôr a maldita engrenagem oficial a funcionar. A mulher fez a ligação, sabia de memória o número do telefone do hospital. O médico identificou-se quando responderam, depois disse rapidamente, Bem, muito obrigado, sem dúvida a telefonista perguntara, Como está, senhor doutor, é o que dizemos quando não queremos dar parte de fraco, dissemos, Bem, e estávamos a morrer, a isto chama o vulgo fazer das tripas coração, fenómeno de conversão visceral que só na espécie humana tem sido observado. Quando o director veio ao telefone, Então, que se passa, o médico perguntou-lhe se estava só, se não havia gente por perto que pudesse ouvir, da telefonista não havia que recear, tinha mais que fazer que escutar conversas sobre oftalmopatias, a ela apenas a ginecologia lhe interessava. O relato do médico foi breve mas completo, sem rodeios, sem palavras a mais, sem redundâncias, e feito com uma secura clínica que, tendo em conta a situação, chegou a surpreender o director, Mas você está mesmo cego, perguntou, Totalmente cego, Em todo o caso, poderia tratar-se de uma coincidência, poderia não ter havido realmente, no seu exacto sentido, um contágio, De acordo, o contágio não está demonstrado, mas aqui não foi o caso de cegar ele e cegar eu, cada qual em sua casa, sem nos termos visto, o homem apareceu-me cego na consulta e eu ceguei poucas horas depois, Como é que poderemos encontrar esse homem, Tenho o nome e a direcção no consultório, Vou lá mandar alguém imediatamente, Um médico, Sim, um colega, claro, Não lhe parece que deveríamos comunicar ao ministério o que se está a passar, Por enquanto acho prematuro, pense no alarme público que iria causar uma notícia destas, com mil diabos, a cegueira não se pega, A morte também não se pega, e apesar disso todos morremos, Bom, deixe-se estar em casa enquanto eu trato do assunto, depois mando-o buscar aí, quero observá-lo, Lembre-se de que se estou cego foi por ter observado um cego, Não há a certeza, Há, pelo menos uma boa presunção de causa e efeito, Sem dúvida, contudo ainda é demasiado cedo para tirarmos conclusões, dois casos isolados não têm significado estatístico, Salvo se nesta altura já somos mais do que dois, Compreendo o seu estado de espírito, mas devemos defender-nos de pessimismos que podem vir a verificar-se infundados, Obrigado, Voltarei a falar consigo, Até logo.

 

Meia hora depois, tinha o médico, desajeitadamente, com a ajuda da mulher, acabado de fazer a barba, tocou o telefone. Era outra vez o director clínico, mas a voz, agora, estava mudada, Temos aqui um rapaz que também cegou de repente, vê tudo branco, a mãe diz que esteve ontem com o filho no seu consultório, Suponho que o pequeno sofre de estrabismo divergente do olho esquerdo, Sim, Não há dúvida, é ele, Começo a estar preocupado, a situação é mesmo séria, O ministério, Sim, claro, vou imediatamente falar com a direcção do hospital. Passadas umas três horas, quando médico e a mulher almoçavam em silêncio, ele tenteando com o garfo os pedacinhos de carne que ela lhe cortara, o telefone tornou a tocar. A mulher foi atender, voltou logo, Tens de ir tu, é do ministério. Ajudou-o a levantar-se, guiou-o até ao escritório e deu-lhe o telefone. A conversa foi rápida. O ministério queria saber a identidade dos pacientes que tinham estado no dia anterior no consultório, o médico respondeu que as fichas clínicas respectivas continham todos os elementos de identificação, o nome, a idade, o estado civil, a profissão, a morada, e terminou declarando-se ao dispor para acompanhar a pessoa ou pessoas que fossem recolhê-los. Do outro lado o tom foi cortante, Não precisamos. O telefone mudou de mão, a voz que saiu dele era diferente, Boas tardes, fala o ministro, em nome do Governo venho agradecer o seu zelo, estou certo de que graças à prontidão com que agiu vamos poder circunscrever e controlar a situação, entretanto faça-nos o favor de permanecer em casa. As palavras finais foram pronunciadas com expressão formalmente cortês, porém não deixavam qualquer dúvida sobre o facto de serem uma ordem. O médico respondeu, Sim, senhor ministro, mas a ligação já tinha sido cortada.

Poucos minutos depois, outra vez o telefone. Era o director clínico, nervoso, atropelando as palavras, Acabei agora mesmo de saber que a polícia tem informação de dois casos de cegueira súbita, Polícias, Não, um homem e uma mulher, a ele encontraram-no na rua a gritar que estava cego, e ela estava num hotel quando cegou, uma história de cama, parece, É necessário averiguar se se trata também de doentes meus, sabe como eles se chamam, Não me disseram, Do ministério já falaram comigo, irão ao consultório recolher as fichas, Que situação complicada, Diga-mo a mim. O médico largou o telefone, levou as mãos aos olhos, ali as deixou ficar como se quisesse defendê-los de piores males, enfim exclamou surdamente, Estou tão cansado, Dorme um pouco, eu levo-te até à cama, disse a mulher, Não vale a pena, seria incapaz de adormecer, além disso o dia não acabou, algo vai ter de suceder ainda.

Eram quase seis horas quando o telefone tocou pela última vez. O médico estava sentado ao lado, levantou o auscultador, Sim, sou eu, disse, ouviu com atenção o que estava a ser-lhe comunicado e só acenou ligeiramente a cabeça antes de desligar. Quem era, perguntou a mulher, O ministério, vem uma ambulância buscar-me dentro de meia hora, Era isso que esperavas que sucedesse, Sim, mais ou menos, Para onde te levam, Não sei, suponho que para um hospital, Vou-te preparar a mala, escolher a roupa, o costume, Não é uma viagem, Não sabemos o que é. Levou-o com cuidado até ao quarto, fê-lo sentar-se na cama, Deixa-te estar aí tranquilo, eu trato de tudo. Ouviu-a mover-se de um lado para outro, abrir e fechar gavetas e armários, tirar roupas e logo arrumá-las na mala colocada no chão, mas o que ele não podia ver foi que, além da sua própria roupa, haviam sido postas na mala umas quantas saias e blusas, um par de calças, um vestido, uns sapatos que só podiam ser de mulher. Pensou vagamente que não iria precisar de tanta coisa, mas calou-se porque não era o momento de falar de insignificâncias. Ouviu-se o estalido dos fechos, depois a mulher disse, Pronto, a ambulância já pode vir. Levou a mala para junto da porta da escada, recusando o auxílio do marido, que dizia, Deixa-me ajudar-te, isso eu posso fazer, não estou tão inválido assim. Depois foram sentar-se num sofá da sala, a esperar. Tinham as mãos dadas, e ele disse, Não sei quanto tempo iremos estar separados, e ela respondeu, Não te preocupes.

Esperaram quase uma hora. Quando a campaínha da porta soou, ela levantou-se e foi abrir, mas no patamar não havia ninguém. Atendeu ao telefone interno, Muito bem, ele desce já, respondeu. Voltou para o marido e disse-lhe, Que esperam em baixo, têm ordem expressa de não subir, Pelos vistos o ministério está mesmo assustado, Vamos. Desceram no elevador, ela ajudou o marido a transpor os últimos degraus, depois a entrar na ambulância, voltou à escada para buscar a mala, içou-a sozinha e empurrou-a para dentro. Finalmente subiu e sentou-se ao lado do marido. O condutor da ambulância protestou do banco da frente, Só posso levá-lo a ele, são as ordens que tenho, a senhora saia. A mulher, calmamente, respondeu, Tem de me levar também a mim, ceguei agora mesmo.

A lembrança tinha saído da cabeça do próprio ministro. Era, por qualquer lado que se examinasse, uma ideia feliz, senão perfeita, tanto no que se referia aos aspectos meramente sanitários do caso como às suas implicações sociais e aos seus derivados políticos. Enquanto não se apurassem as causas, ou, para empregar uma linguagem adequada, a etiologia do mal-branco, como, graças à inspiração de um assessor imaginativo, a malsoante cegueira passaria a ser designada, enquanto para ele não fosse encontrado o tratamento e a cura, e quiçá uma vacina que prevenisse o aparecimento de casos futuros, todas as pessoas que cegaram, e também as que com elas tivessem estado em contacto físico ou em proximidade directa, seriam recolhidas e isoladas, de modo a evitarem-se ulteriores contágios, os quais, a verificarem-se, se multiplicariam mais ou menos segundo o que matematicamente é costume denominar-se progressão por quociente. Quod erat demonstrandum, concluiu o ministro. Em palavras ao alcance de toda a gente, do que se tratava era de pôr de quarentena todas aquelas pessoas, segundo a antiga prática, herdada dos tempos da cólera e da febre-amarela, quando os barcos contaminados ou só suspeitos de infecção tinham de permanecer ao largo durante quarenta dias, até ver. Estas mesmas palavras, Até ver, intencionais pelo tom, mas sibilinas por lhe faltarem outras, foram pronunciadas pelo ministro, que mais tarde precisou o seu pensamento, Queria dizer que tanto poderão ser quarenta dias como quarenta semanas, ou quarenta meses, ou quarenta anos, o que é preciso é que não saiam de lá. Agora falta decidir onde os iremos meter, senhor ministro, disse o presidente da comissão de logística e segurança, nomeada rapidamente para o efeito, que deveria encarregar-se do transporte, isolamento e suprimento dos pacientes, De que possibilidades imediatas dispomos, quis saber o ministro, Temos um manicómio vazio, devoluto, à espera de que se lhe dê destino, umas instalações militares que deixaram de ser utilizadas em consequência da recente reestruturação do exército, uma feira industrial em fase adiantada de acabamento, e há ainda, não conseguiram explicar-me porquê, um hipermercado em processo de falência, Na sua opinião, qual deles serviria melhor aos fins que temos em vista, O quartel é o que oferece melhores condições de segurança, Naturalmente, Tem porém um inconveniente, ser demasiado grande, tornaria difícil e dispendiosa a vigilância dos internados, Estou a ver, Quanto ao hipermercado, haveria que contar, provavelmente, com impedimentos jurídicos vários, questões legais a ter em conta, E a feira, A feira, senhor ministro, creio ser preferível não pensar nela, Porquê, A indústria não gostaria com certeza, estão ali investidos milhões, Nesse caso, resta o manicómio, Sim, senhor ministro, o manicómio, Pois então que seja o manicómio, Aliás, a todas as luzes, é o que apresenta melhores condições, porque, a par de estar murado em todo o seu perímetro, ainda tem a vantagem de se compor de duas alas, uma que destinaremos aos cegos propriamente ditos, outra para os suspeitos, além de um corpo central que servirá, por assim dizer, de terra-de-ninguém, por onde os que cegarem transitarão para irem juntar-se aos que já estavam cegos, Vejo aí um problema, Qual, senhor ministro, Vamos ser obrigados a pôr lá pessoal para orientar as transferências, e não acredito que possamos contar com voluntários, Não creio que seja necessário, senhor ministro, Explique lá, No caso de um dos suspeitos de infecção cegar, como é natural que lhe suceda mais cedo ou mais tarde, tenha o senhor ministro por certo que os outros, os que ainda conservarem a vista, põem-no de lá para fora no mesmo instante, Tem razão, Tal como não permitiriam a entrada de um cego que se tivesse lembrado de mudar de sítio, Bem pensado, Obrigado, senhor ministro, podemos então mandar avançar, Sim, tem carta branca.

A comissão agiu com rapidez e eficácia. Antes que anoitecesse já tinham sido recolhidos todos os cegos de que havia notícia, e também um certo número de presumíveis contagiados, pelo menos aqueles que fora possível identificar e localizar numa rápida operação de rastreio exercida sobretudo nos meios familiar e profissional dos atingidos pela perda da visão. Os primeiros a serem transportados para o manicómio desocupado foram o médico e a mulher. Havia soldados de guarda. O portão foi aberto à justa para eles passarem, e logo fechado.”

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, Lisboa, Diário de Notícias — Bibliotex Editor, 2003, pp. 30–39.

Breve apêndice:

 “O Cego não é cego de nascimento, mas pouco lhe custou tornar-se cego. Tem uma câmara, leva-a a todo o lado e compraz-se em manter os olhos fechados.”

Elias Canetti, “El ciego”, in Cinquenta caracteres (El testigo oidor), Barcelona, Editorial Labor, S.A. — Guadarrama/Punto Omega, 1981

 

“Da travessia do espírito”, Nova Águia 29, 1º semestre, Março de 2022

 

 

 

                                          Da travessia do espírito

                                                       Luís de Barreiros Tavares

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.”   (Génesis, 2:7 – trad. João Ferreira de Almeida)

Trata-se aqui de breves notas livres, sem aparatos bibliográficos, sem aprofundamento de análises nem rebuscamentos textuais.  Apenas um esboço. Elas reflectem sobre o espírito e uma expressão que me surgiu a partir da leitura de algumas passagens da Bíblia: a travessia do espírito. Com um maior desenvolvimento, questões como Espírito Santo, Trindade, entre outas, seriam pensadas. Embora de modo subliminar, ou não explicitamente, elas já perpassem, atravessem este curto texto.

De entre aquelas passagens escolhi apenas duas de Paulo de Tarso. Ocorreram, assim, alguns exercícios, talvez lúdicos, de linguagem, sobre o suposto movimento daquilo a que, por indagação e pensamento, chamamos espírito.

A palavra “espírito” provém etimologicamente – no hebraico (ruah), no grego (pneuma) e no latim (spiritus, spiro, de onde deriva “espírito” em português) – de sopro, vento, hálito, ar, respiração. O ar atravessa o tempo e é intemporal. Ele atravessa-nos. Experienciamo-lo hoje de modo problemático e novo. Através, precisamente, dos tempos estranhos da pandemia Covid 19. Aqui, na perspectiva assustadora do medo insolitamente instilado e “mascarado” do ar que respiramos.

E na Bíblia há várias passagens que ilustram a travessia do espírito. Daqui, desta expressão, pode depreender-se que há duas vertentes. 1 – A travessia que se faz no espírito, a travessia que passa através do espírito; que atravessa o espírito. 2 – A travessia que o espírito faz passando, atravessando; através de um corpo, por exemplo. Por outras palavras e simplificando. 1. Por um lado, o que passa através dele (espírito). 2. Por outro, quando ele mesmo (o espírito) passa através de algo.

E, no entanto, dir-se-ia que as duas vertentes se relacionam, ou se cruzam. Parecem confundir-se ou confundir. Retomando a expressão: a travessia do espírito. A contracção da proposição “de” com o artigo definido “o”. Simplificando, foquemo-nos no de: genitivo objectivo e genitivo subjectivo. Poderemos então perspectivar o seguinte. 1. “Travessia do espírito”: a travessia de algo que atravessa, (se) passa noatravés do – espírito (genitivo objectivo) – o espírito é o objecto, o alvo. 2. “Travessia do espírito”: a travessia que o espírito faz, atravessando, passando por/sobre ou através de algo (genitivo subjectivo) – o espírito exerce a acção como sujeito.

Tarefa de difícil explicitação neste contexto. Dir-se-ia não caber num quadro de referências. E até aí compreende-se. Talvez não seja apenas dialéctica. É da ordem do mistério? Apenas se consegue uma aproximação. É o que tentamos.

Escutemos as palavras de Paulo em dois passos. São dois exemplos que se aplicam – ainda numa primeira análise, respectivamente – aos dois pontos acima apresentados: 1. “Aquele que ressuscitou Cristo dos mortos vivificará também os vossos corpos mortais através do espírito que habita em vós.” (Carta aos Romanos, 8); 2. “Paulo apenas disse esta frase: de maneira bonita falou o espírito santo, através do profeta Isaías […]” (Actos dos Apóstolos, 28).[1] 

Sem complicar mais, façamos uma segunda análise. Assim, o espantoso é que, no ponto 1, o através do espírito tanto poderá reportar-se a algo que atravessa o espírito, como ao próprio espírito que atravessa. Encontramos um outro desdobramento, se assim se pode dizer, no ponto 2. Pois, se atentarmos bem, “falou o espírito santo, através do profeta Isaías” tanto poderá reportar-se ao espírito santo que falou através do profeta Isaías, como ao próprio profeta Isaías que falou através do espírito santo. Talvez isto não seja apenas dialéctica.

Para terminar, e deixando em aberto, limito-me a citar os dois primeiros passos do princípio do Génesis: “1. No princípio, Deus criou os céus e a terra. 2. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas.” (Génesis, 1: 1, 2)[2]

 

 

 

 

 

 



[1] BÍBLIA, trad. do texto grego, apresentação e notas por Frederico Lourenço, vol. II: Novo Testamento: Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Quetzal, Lisboa, 2017. Itálicos nossos.

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Fernando Echevarría: I. Luz, sombra e movimento – II. Excursos

 

                                 
                                    Luís de Barreiros Tavares





Luís de Barreiros Tavares, "Fernando Echevarría: I. Luz, sombra e movimento II. Excursos", Revista Nova Águia, nº17, 1º semestre, 2016, pp. 62-68, Zéfiro.




  I

                                        Luz, sombra e movimento


Esperamos a sombra.
A clara sombra e o lugar devido
às tuas mãos alçando-nos a taça
e o doce vinho.
Depois o sério movimento alarga
estar-se ouvindo,
por trás de ti extraviada,
a sombra que esperamos longa e larga
como pensar beber o último vinho.

Fernando Echevarría, A Base e o Timbre


A)A sombra, enquanto tema frequente na poesia de Fernando Echevarría, no seu sentido amplo e claro em relação à luz, é descrita num excelente ensaio do grande poeta António Ramos Rosa (1924-2013) citando alguns passos de um outro poema: “No poema Essa Sombra [do livro Sobre as Horas], o movimento parte do interior da sombra (do corpo) e espraia-se numa vasta felicidade cósmica («se nos abrir por dentro longas ruas // de respirar, enfim, grandes, abertas / - água de folhas, indefinível lua, / somente expostas, quase nem concretas»). Estes versos dão-nos a dimensão física da plenitude, uma sensação de presença, uma frescura total.” (“Fernando Echevarría – Entre movimento e imobilidade”, Incisões Oblíquas, p.108). Há uma relação entre a respiração, a luz e a sombra, movimento lento que abre para espaços amplos.
                                                    
B) Movimento, sombra e luz da «clara sombra» sugerem como que uma brisa suave que se ouve ou se escuta: “Depois o sério movimento alarga / estar-se ouvindo, / por trás de ti extraviada, / a sombra que esperamos longa e larga”. Mais uma vez o movimento amplo e sereno apela a um espaço-tempo poético, o qual por sua vez transmite serenidade. “ (…) a sombra e a luz comunicam entre si numa complexa trama espácio-temporal” (R. Rosa, op.cit, p.110). Assim, o movimento do corpo feminino como que se ouve no seu gesto, na deslocação de ar que este inscreve no espaço. Também o movimento físico em relação com a sua sombra sugere a lentidão de um movimento em câmara lenta. A lentidão calma do movimento no poema revela-se numa espera suave que o percorre, um sentido espácio-temporal; um mover devagar e de um vagar… dando lugar: “Esperamos a sombra”, “a sombra que esperamos longa e larga.”
Ainda um passo de Ramos Rosa a propósito dessa duração e vagar em Echevarría: “ … o presente do poema, mais que um instante, é um processo temporal em que a duração é sinuosa e enroladamente sucessiva. Num ritmo vagaroso, em que a substância de cada palavra é extremamente valorizada, o poema vai instaurando o lugar da presença ou de uma correspondência actual de diversos planos da realidade” (Idem, p.110).
Nesta brandura do esperar (“Esperamos a sombra”), o pensar, por seu turno, enquanto suspensão calma, estrutura o sentido do poema como génese de um espaço-tempo de serenidade e meditação.

C) A sugestão da sombra, do ar e do corpo feminino em movimento apelam a uma respiração plena numa atmosfera ampla mediterrânica. Assim, os efeitos da luz e da sombra, do sol e da claridade ampla em muitos outros poemas marcam-se certamente com a influência do Mar Mediterrâneo banhando a costa da Argélia e de Argel, a sua capital, onde Fernando Echevarría viveu alguns anos – Argel apelidada Alger la Blanche (ver Parte II: Excurso pictural).  
A transparência, entre outros efeitos a ela análogos, releva deste jogo luz-sombra. O poeta e ensaísta Fernando Guimarães, no seguimento de uma interessante análise ao livro de Echevarría A Base e o Timbre, encontra alguns termos relacionados com a luz e a sombra: “A simples leitura desses poemas mostra que há neles duas palavras que, de certo modo, os saturam: luz (à qual associaríamos o adjectivo luminoso e as formas do verbo iluminar) e sombra. Acrescente-se ainda que – pelas suas incidências significativas – nos é dado aproximar de luz outros termos que ocorrem frequentemente, como, por exemplo, manhã (ou madrugada, madrugar, amanhecente, matutino), cristalinotransparência (ou transparente), cintilar (ou cintilante), etc., e, por sua vez, de sombra o verbo nublar” (“Os «conceitos puros» em Fernando Echevarría”, A Poesia Contemporânea Portuguesa, p.28).

D) O elemento “vinho” alia poeticamente as atmosferas criadas e os cinco sentidos: 1) o paladar (“ e o doce vinho”); 2) o olfacto associado ao paladar; 3) o ouvido (“estar-se ouvindo”); 4) a visão (a sombra-luz de “A clara sombra”); 5) o tacto (“… o lugar devido / às tuas mãos…”). E os movimentos dos corpos (“…o lugar devido às tuas mãos alçando-nos a taça”).
O vinho encontra-se igualmente investido de erotismo, pois serve o amor entre homem e mulher: “às tuas mãos alçando-nos a taça” / (…) por trás de ti extraviada, / a sombra que esperamos longa e larga / como pensar beber o último vinho.”
                                                      
E) Noutro plano, o ritmo e a cadência do poema produzem um efeito curioso em que o trabalho de leitura do leitor não faz esquecer o trabalho de escrita do escritor, sem que ambos se confundam numa identificação acrítica. O poema sugere múltiplas possibilidades nos planos do sonho e do imaginário sem a eles se limitar, na condição, precisamente, de que estes também emergem da força do sentido da palavra no trabalho de escrever.
Uma certa frieza e mera abstracção que possam eventualmente ser atribuídas, sem mais, à sua obra, só revelam uma perspectiva redutora na forma como se entende a poesia. Precisamente essa dimensão abstractiva em Echevarría retira um certo facilitismo declamatório, imprimindo, pelo contrário, uma leitura mais impactante e pensante. Dimensão aliada ao ritmo pausado (“vagaroso”, vj. R. Rosa) e a muitos outros aspectos, como as dimensões filosófica e de pensamento constituindo o seu poetar.
Com efeito, no prefácio à Obra Incompleta de Echevarría, Maria João Reynaud não só se refere aos temas da sombra e da luz, como também a uma certa abstracção: “Daí que em Uso da Penumbra, o leitor experimente a sensação de estar perante um livro total: um livro onde a tensão intrínseca entre a luz e a sombra, ou o excesso e a carência, se resolve numa espécie de transparência enigmática, em imagens analógicas de potencial abstracto” (p.23).

F) Lembremos que Echevarría escreveu livros de poesia cujos títulos são Introdução à Filosofia (1981), Fenomenologia (1984), ou ainda o último publicado até à data: Categorias e outras Paisagens (2013).
Ainda sobre A Base e o Timbre encontramos este passo de Fernando Guimarães: “O desenvolvimento da poesia ao longo de um espaço como este acaba por confinar, como já disse, com um sentido muito especial de abstracção e depuração. É o que particularmente ocorre em Introdução à Filosofia (1981) e Fenomenologia (1984). Não se recusa à poesia o que poderíamos, com maior ou menor rigor, designar por um conjunto de filosofemas, muitos deles provenientes da tradição filosófica tomista ou daquele «regresso às coisas» em que os fenomenologistas, na linha dos ensinamentos de um Husserl, tanto se empenharam.”
Em Fernando Echevarría a referência à Fenomenologia supõe uma condição prévia de leitura” (Op. cit., p. 29).

G) Por outro lado, em Fernando Echevarría as imagens, emergindo da escrita, como que nela se rebatem, convertendo-a, num duplo movimento, enquanto outra e nova condição de imaginário, mas também de presença (“sensação de presença”, “presente do poema”, “lugar da presença”, Ramos Rosa). Como é possível? Leia-se, por exemplo, este belíssimo passo de Echevarría no seu livro Figuras: “Escrevemos docemente. Se a figura / sobe de estar tão funda a essa mesa / é que escrever se lembra. E só da altura / de se lembrar percorre a linha acesa // a ponta de escrever, que traça a pura forma de rosto (…)”
Aqui podemos escutar alguns ecos e ressonâncias com a poesia interseccionista de Fernando Pessoa ortónimo no seu poema “Chuva Oblíqua” (1914): “A grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro / Escrevo – e ela aparece-me através da minha mão transparente. / E ao canto do papel erguem-se as pirâmides…// Escrevo – perturbo-me de ver o bico da minha pena / Ser o perfil do rei Quéops… / De repente paro … (…)”.
Por assim dizer, naquele duplo movimento produz-se uma nova impressão e experiência do que é a escrita. Como se produz? Precisamente quando a escrita assenta, digamos assim, sobre si mesma, numa ins-crição, entrecruzando-se a materialidade e o sentido, despontando outra compreensão do espaço poético.
Com efeito, cria-se também nesta espécie de assentamento da escrita como que uma ressonância (no plano da voz e da escuta) e uma reverberação (no plano da luz-sombra, do reflexo e da visão).
                                                       
H) Daqui decorre simultaneamente um processo de abstracção poética transfigurando-se tanto as imagens, numa estranha transparência e esquematismo em movimento, quanto o próprio sentido do que se entende por inscrição que constitui o trabalho de escrever.
Trabalho de escrever, quer no seu plano semântico, quer na plena acepção de matéria da escrita (traços, espaços brancos-papel, tinta, bico da caneta, caneta, letras, palavras, frases, textos, punho, corpo, mesa, realidade envolvente ao leitor e ao escritor, etc.).
O sentido do concreto ganha uma nova e outra força com o carácter material e físico da escrita que tentámos analisar. Digamos até que também se altera a compreensão da realidade e do humano.

I)Talvez valha aqui lembrar o antigo e belíssimo passo de Píndaro (séc.VI a.C.) numa das suas Odes Píticas (VIII – “Para Aristómenes de Egina, Vencedor na Luta”; 446ª.C.): “Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser Alguém? O que é não ser Ninguém? O humano é o sonho de uma sombra.
Mas quando chega o esplendor dispensado por um deus, há uma luz brilhante entre os homens e a vida torna-se doce.”
                                                                              

                                                                II
                                              Excursos

Nota: O excurso é um desvio do tema, do assunto. Estes excursos, talvez também extrapolações, são pertinentes em nosso entender. Pois partindo dos temas centrais deste estudo sobre a poesia de Echevarría (Parte I, “Luz, sombra e movimento”), ventilam-se possíveis horizontes de pensamento, revelando o poder da poesia ou, por exemplo, do “pensamento-poema” (na expressão de Alain Badiou num estudo sobre Pessoa). Por outras palavras, a experiência da poesia e da arte no seu trabalho de pensamento abre novos caminhos trazendo-nos outras experiências não imediatamente esperadas. Novos modos de compreensão, coabitação, conhecimento e agir no mundo. Assim, durante a realização deste ensaio, não perdendo a ponte do movimento-poema, ocorreram e amadureceram um pouco algumas questões, principalmente no 3º excurso.
A propósito de obras mais extensas, como um tratado, Walter Benjamin (1892-1940) assinala a importância dos excursos: “na densidade ornamental […] desaparece a diferença entre desenvolvimentos temáticos e excursos “. Este passo de Benjamin (“Arquitectura de interiores”, in Imagens do Pensamento, Assírio & Alvim) foi recolhido do livro de Maria Filomena Molder O Químico e o Alquimista – Benjamin, Leitor de Baudelaire. Nele (cerca de 270 p.) a autora apresenta uma secção de 49 excursos em cerca de quarenta páginas. Diga-se que foi neste seu livro que encontrámos a feliz designação para esta espécie de apêndices, se assim se pode dizer. Tomámos a liberdade de o fazer neste breve artigo com três excursos.
                                      
                                          Excurso pictural

Tópico: “Assim, os efeitos da luz e da sombra, do sol e da claridade ampla em muitos outros poemas marcam-se certamente com a influência do Mar Mediterrâneo banhando a costa da Argélia e de Argel, a sua capital, onde Fernando Echevarría viveu alguns anos – Argel apelidada Alger la Blanche” (ver acima Parte I, C))

Seguindo o tópico e dando de passagem um exemplo pictural a propósito da luminosidade do poema em epígrafe de Echevarría (Parte I), ocorre lembrar a extraordinária luz mediterrânica captada nas belíssimas micro-pinturas a óleo sobre madeira que o grande pintor Henrique Pousão (1859-1884) realizou na ilha italiana de Capri. Precisamente, estas imagens pictóricas ilustram o que em termos de luminosidade, sombra e claridade analisámos na poesia de Echevarría:





Sobre esta pintura citamos um interessante passo de Carlos Silveira: “Com um olhar analítico e quase fotográfico, o pintor selecciona detalhes que lhe servem como pretexto para uma pesquisa formal sobre a luz. Pode ser um motivo tão trivial como um lance de escadas de uma habitação, onde o pintor regista a presença corpórea da luz nos degraus e muros da habitação caiada, criando uma notável filigrana de manchas lilases e de azul cinza [diríamos sombras claras] que dialogam com o azul profundo do céu meridional.
Ou ainda a respeito de uma outra pintura do mesmo ano (“Rua de Capri”, 1882), aludindo à frescura e claridade das sombras e suas relações com a luz: “Interessa-lhe traduzir os efeitos de uma luz aberta e mediterrânica sobre as superfícies estáveis da arquitectura de Capri: num dos melhores estudos da série, um jorro de luz em primeiro plano introduz a presença concreta de um portão verde, que fecha o ponto de fuga do nosso olhar, enquanto de cima uma luz filtrada faz-se sombra [diríamos de novo “sombra clara”] nos alçados laterais das habitações, densificados em tons de ocre”.[1]





Excurso fenomenológico

No poema Essa Sombra [do livro Sobre as Horas], o movimento parte do interior da sombra (do corpo) e espraia-se numa vasta felicidade cósmica («se nos abrir por dentro longas ruas // de respirar, enfim, grandes, abertas / - água de folhas, indefinível lua, / somente expostas, quase nem concretas»). Estes versos dão-nos a dimensão física da plenitude, uma sensação de presença, uma frescura total.” (“Fernando Echevarría – Entre movimento e imobilidade”, Incisões Oblíquas, p.108) (Parte I, A))

 Dir-se-ia que a sombra, «a clara sombra» em Fernando Echevarría, tem alguns ecos com a «sombra branca» de que fala José Gil. A par da citação acima de Ramos Rosa (abrindo a Parte I, A)), a seguinte passagem do livro A Imagem-Nua e as Pequenas Percepções - Estética e Metafenomenologia (p. 224) de Gil abre possibilidades de leitura do poema em epígrafe (Parte I): “A sombra branca estende-se por toda a paisagem, acompanha a imagem-nua. Funda a sua unidade, que é a unidade da coisa percebida. É o «elemento» do espaço da imagem, a sua matéria-imagem, o tecido «de que são feitos os sonhos». O espaço interno do corpo não é percebido nem perceptível; nem pensado nem, em si próprio, pensável. Não é tematizável uma vez que não tem determinações positivas. Faz todavia a imaginação mover-se: quando percebemos uma coisa e a sua percepção «remete para», esse movimento parte para um núcleo obscuro mas branco, de um interior impenetrado mas para sempre invisível da própria coisa. Assim, em toda a parte do campo perceptivo (espaço de reenvio), a sombra branca habita o visível.
Porque o corpo de outrem se dobra de um alhures, lança uma sombra sobre o mundo”.
Algumas linhas à frente José Gil prossegue com uma referência ao “Aberto” de Rainer Maria Rilke (1875-1926), estabelecendo analogias com a “sombra branca”: “Devemos entender o Aberto de Rilke como uma primeira divisão entre a luz e as trevas: e a visão permanece no limiar do Aberto, partilhando a partilha que o Aberto inaugurou. Cada coisa se oferece doravante à luz conservando para si, entretanto, a sua parte de obscuridade invisível” (p.225).


                                        
                                        
                           Excurso contemporâneo


Tal como o fogo violento incendeia uma enorme floresta
no cume da montanha e de longe se avistam as labaredas –
assim do bronze incontável daqueles que marchavam
subia pelo ar o fulgor resplandecente até ao céu.

(Homero, Ilíada, Canto II, 455-458)

“O progresso e a catástrofe são o anverso e o reverso de uma mesma medalha.”

Hannah Arendt


Peguemos no carácter pausado, “no ritmo vagaroso (Ramos Rosa, Parte I, B)) de certa poesia, no seu movimento, como a de Fernando Echevarría, apelando ao pensar. António Ramos Rosa, citando Echevarría, estabelece uma relação entre movimento e imobilidade, tal como o título do seu ensaio indica: “A chave do segredo cósmico, como diz Hans Urs von Balthasar[2] na sua Liturgia Cósmica, é o movimento ou mais exactamente, a relação entre a imobilidade e o movimento, cujo equilíbrio constitui a essência do ser criado. A poesia de Fernando Echevarría é percorrida por movimentos que tendem à identificação com um espaço originário (que pode ser o espaço mais familiar recuperado pela experiência poética). Por vezes, os movimentos interpenetram-se («atravessarmos o vento de uma rua / sentindo-nos ser atravessados») ou tendem a fundir o olhar e a distância («Que braço a inventar fica mais perto / de sermos a pupila e a distância»), mas quase sempre esses movimentos conduzem à imobilidade, ao vazio, ao silêncio, ao sono, ou seja, a algo anterior, originário, que é o alvo pré-reflexivo desta poesia que procura o fundo inicial («sentindo-nos abertos / fundos de casa», «em direcção a um campo de fundura / a que talvez alguém chamará rasto»)”(op. cit., “Fernando Echevarría – Entre movimento e imobilidade” p. 108).
De facto, nesta perspectiva, não há assim uma tão acentuada dicotomia ou bipolarização entre movimento e imobilidade (movimento e estado de repouso). Por vezes, limitamo-nos a um mero registo terminológico, que é necessário, mas deverá no entanto apelar à própria reflexão do que é referido e significado pelos termos na sua articulação. Ora, repousar, é um “tornar (re) a pousar” (re-parar, estacionar). E o repouso será um voltar, um tornar ao pouso (poiso). Aliás, sem nos alongarmos muito em etimologias, “pousar” releva do latim “pausar”, “pausa”, donde o carácter “pausado” e pensado que referimos no poema. Por outro lado, o “re-parar” não é senão um re-movimento, como o atesta, por exemplo, a expressão “sono reparador”, renovando a energia física e psíquica, com todas as implicações biológicas que isso acarreta, etc., reenviando para o sentido de “restauro”…
Por isso também, num regime de liberdade com a poesia, na imobilidade há movimento, e reciprocamente. Não será o “movimento”, o “mover”, um “parar”, por seu turno, a imobilidade? Sem dúvida que importa manter a distinção entre os dois termos e noções de “movimento” e “imobilidade”, daí a pertinência de cada um na linguagem. Mas perceber que na complexidade da sua distinção - empregando a terminologia de Edgar Morin -, há uma articulação, uma outra-dupla articulação, digamos, reformulando os seus sentidos. Edgar Morin, na sua proposta epistemológica da complexidade (abarcando as ciências, físicas, naturais e humanas), assinala – a par das relações “complementares, concorrentes e antagónicos” – a importância da diferença entre “distinção” e “disjunção” (oposição). Enfim, trata-se também, segundo Morin, de requestionar as oposições “binárias” de várias noções reformulando um outro olhar sobre elas. Noções como as de “unidade” e “diversidade”, ou as de “ordem” e “desordem”, já que também estas últimas apelam a um amplo leque de questões nos nossos dias, como, por exemplo, a de nos interrogarmos sobre o que é a Ordem ou a Nova Ordem Mundia[3]l.
Mas leia-se a seguinte passagem de Morin sobre a relação ordem / desordem no pensamento da complexidade no seu livro Ciência com Consciência: “A necessidade de pensar conjuntamente, na sua complementaridade, na sua concorrência e no seu antagonismo, as noções de ordem e desordem, põe-nos muito exactamente o problema de pensar a complexidade da realidade física, biológica e humana. Mas, a meu ver, para isso é necessário conceber um quarto olhar, um novo olhar, isto é, um olhar dirigido para o nosso olhar, como muito bem disse Heinz von Foerster[4]Temos de olhar para o modo como concebemos a ordem, e de olhar para nós mesmos olhando para o mundo, isto é, de incluir-nos na nossa visão do mundo”(itálicos nossos)[5].
É que na bi-polarização ou oposição extremada, os dois pólos confundem-se (ou fundem-se) porque não são compreensivamente articulados. Mas, deste modo, ao mesmo tempo separaram-se (ou cindem-se), e vice-versa.
Não será a relevância do movimento, da aceleração e da ultrapassagem, aliados a um conceito monolítico de progresso nos nossos dias, precisamente o esquecimento do sentido pleno e genuíno de “repouso” e de “parar”? Não é isso que dá sentido às expressões correlativas: “parar para pensar”, “é tempo de pensar”? Não será o ímpeto actual da vida nas nossas sociedades (que supostamente não param) o que efectivamente provoca panes, paragens efeitos de bloqueio, acidentes, imprimindo imperceptivelmente um revés no ambicionado progresso dito civilizacional, progresso (pro-gressus) que mais não é do que um regresso (re-gressus) sem se dar conta? Sem dúvida, um dos problemas que vivemos na “era da técnica”.
Daí as catástrofes ecológicas, industriais e naturais[6], as alterações climáticas (EUA e China principais implicados), os efeitos terroristas aliados a perversos mecanismos – ilocalizados ou deslocalizados – de “Rede” na era digital; as altas corrupções que alastram por todo o Globo, a desordem europeia com os fluxos de refugiados, as guerras dispersas no Globo, “Fragmentos da Terceira Guerra Mundial”, segundo o Papa Francisco, após os atentados de Paris 13/11/2015; o triunfo voraz do capitalismo liberal, ou capitalismo puro e simples enquanto religião do trabalho e do dinheiro (Walter Benjamin)[7]. Esta aparência de presente imediato e de actualização permanente deixa-nos paradoxalmente ultrapassados pelos acontecimentos[8]
A tradição do Ocidente, partindo do Logos grego, relevou o “movimento” desde Heraclito (Panta rei – tudo flui), Aristóteles (Física), Galileu, Iluminismo (Aufklärung), Positivismo, etc… resultando na grande civilização planetária, global, científica e tecnológica que, não obstante os seus aspectos cruciais e extraordinários no caminho do humano, parece descambar no que é a ultrapassagem pela ultrapassagem, o que, se não redunda paradoxalmente na paragem ou no recuo, retumba paroxisticamente na catástrofe do Grande Acidente[9]. Importa pois, um certo contrapeso da poesia… e, diríamos mesmo, de um certo Oriente.








Post scriptum:
E ver vinha de ver, e se movia
por um agora de alma
onde acender-se a língua
iluminava
a base que pensarmos mais ainda
nos pensava.

Fernando Echevarría, A Base e o Timbre, 1974.


Imagens:

*Desenho - Retrato de Fernando Echevarría, por Flor Campino.
**Pintura de Henrique Pousão, "Muro e escadas", óleo sobre madeira, 36,5 x16 cm - Capri 1882 (Museu Nacional de Soares dos Reis – Porto).
***Pintura de Henrique Pousão, "Rua de Capri", óleo sobre madeira, 36,5 x16 cm - Capri 1882 (Museu Nacional de Soares dos Reis – Porto).


Referências:

1.
Echevarría, F., Sobre as Horas, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1963.
Echevarría, F., A Base e o Timbre, Moraes Editores, Fevereiro 1974.
Echevarría, F., Media Vita, Porto, Brasília Editora, 1979.
Echevarría, F., Introdução à Filosofia, Nova Renascença, 1981.
Echevarría, F., Figuras, Porto, Afrontamento, 1987.
Echevarría, F., Obra Inacabada, Pref. Maria João Reynaud, Porto, Afrontamento, 2006.

2.
Badiou, A., Petit Manuel d’Inesthétique, Paris, Seuil, 1998.
Ferreira, A. Gomes, Dicionário de Latim-Português, Porto Editora.
Gil, J., A Imagem-nua e as pequenas percepções - estética e metafenomenologia, trad. M. S. Pereira, Lisboa, Rel. D’Água, 1996.
Guimarães, F., A Poesia Contemporânea Portuguesa, 3ª edição, Vila Nova de Famalicão, ed. Quasi, 2008.
Homero, Ilíada, trad. Frederico Lourenço, Lisboa, Biblioteca Editores Independentes / Cotovia, 2007.
Kirk, G.S., & Raven, J.E., The Presocratic Philosophers, Cambridge, University Press, 1975.
Molder, M. F., O Químico e o Alquimista – Benjamin, leitor de Baudelaire, Lisboa, Relógio D’Água, 2011.
Morin, E., Ciência com Consciênciatrad. Maria Gabriela de Bragança, Lisboa, Europa-América, 1984.
Nancy, J.-L., A Equivalência das Catástrofes – Após Fukushima, trad. J. Leandro Rosa, Ed. Nada, 2014.
Pessoa, F., Obra Poética, Poesia-I 1902-1929, Intr. e Org. António Quadros, Lisboa, Ed. Europa-América, 1985.
Píndaro, Odes Píticas para os Vencedores, trad. do grego e notas António de Castro Caeiro, Lisboa, Prime Books, 2006.
Rosa, A. Ramos, Incisões Oblíquas, Estudos sobre poesia portuguesa contemporânea, Lisboa, Caminho, 1987.
Rilke, R. Maria., Poemas, As Elegias de Duino e Sonetos a Orfeu, Prefácio, selecção e tradução de Paulo Quintela, Porto, Ed. O Oiro do Dia, 1983.
Rodrigues, A., Henrique Pousão, Lisboa, Inapa, 1998.
Silveira, C., Liberto da Academia e perseguindo a luz: o percurso fulgurante de Henrique Pousãohttp://www.dezenovevinte.net/artistas/pousao_cs.htm#_edn6
Virilio, P., L’accident originel, Paris, Galillée, 2005.











[1] Carlos Silveira, “Liberto da Academia e perseguindo a luz: o percurso fulgurante de Henrique Pousão”


[2]  Foi um sacerdoteteólogo e escritor suíço (1905-1988). É considerado um dos mais importantes teólogos do século XX.
[3] Ou “A desordem mundial” (Adriano Moreira, DN, 09/03/2016).
[4] Heinz von Foerster (Austríaco-Americano - 1911-2002), um dos arquitectos da cibernética, foi influenciado pelo Círculo de Viena e por Wittgenstein, relacionando a Física e a Filosofia. “Detestava ser categorizado como pertencendo a uma determinada disciplina académica”: https://en.wikiquote.org/wiki/Heinz_von_Foerster
[5] Edgar Morin, Ciência com Consciência, p. 72.
[6] vj. o muito interessante livro de Jean-Luc Nancy, A Equivalência das Catástrofes – Após Fukushima:”Não se julgue que a conjunção produzida em Fukushima é excepcional. Não o é certamente no Japão, como também não o é à escala mundial. É certo que um abalo sísmico e uma central nuclear frágil não se encontram frequentemente, mas em todo o lado onde se manipula a energia nuclear estão presentes riscos com dimensões pouco ou nada calculáveis” (p. 44).
Ver também a entrevista a Giorgio Agamben (“Deus não morreu. Ele tornou-se dinheiro”): "O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objecto é o dinheiro": http://www.ihu.unisinos.br/noticias/512966-giorgio-agamben
[8] P. ex., quanto à crise que hoje se vive no Brasil a todos os títulos: “Os humoristas sentem-se ultrapassados pela realidade, acham que ela é ainda mais absurda dos que as suas caricaturas” (“Brasil para rir, pensar, desinquietar” - Jornal Público, 27/12/2015).
[9] Um livro a ter em conta: Paul Virilio, L’accident originel; autor conhecido pelo seu tom alarmista:”Além da ética, a bio-ética inquieta-se hoje, parece, com os riscos maiores que as descobertas «revolucionárias» das biotecnologias fazem correr a espécie humana, conduzindo amanhã à ameaça de uma espécie de HIROSHIMA CELULAR, onde a bomba genética devastará desta vez a própria forma do Homem, como a bomba atómica tinha, em seu tempo, devastado o horizonte do seu meio envolvente.”
“A este título, as ameaças sobre a vida não faltam, entre a procriação medicamente assistida, a clonagem, ou ainda o direito à morte assistida e a eutanásia, sem falar das armas biológicas. Tudo está a postos para o Grande Acidente do Livro da Vida” (p. 79).





"Pessoa, persona, pessoa como eu" – Filme documentário – Curta metragem

  Filme documentário (c 25 min): "Pessoa, persona, pessoa como eu". Um olhar sobre Fernando Pessoa – por Manoel Tavares Rodrigues-...