Linhas com Agostinho da
Silva
Luís de Barreiros Tavares
Breves linhas em eco a algumas reflexões de Agostinho
da Silva. Revela-se um estofo cultural de saberes adquiridos e, ao mesmo tempo,
retrabalhados nas suas ressonâncias. Por outro lado, há o pensamento que diz a
seu modo o que há ainda a pensar. Aflora-se um pouco mais Aristóteles. Porquê o
“Estagirita”? Porque ocorreu assim nestes apontamentos livres e preliminares.
1. Arte
“A vida, para a vida, é sempre longa; mas para a arte
é sempre breve. […].”
Sete Cartas a um Jovem Filósofo
“Vita
brevis, ars longa” – Aforismo mais conhecido em latim, divulgado por
Séneca, mas que provém do médico grego Hipócrates.
2. Julgamento
“Se me julgas, te julgas por julgares.”
Espólio
Pensei num passo de Mateus, 26:25: “Respondendo, Judas
– aquele que o estava a entregar – disse: ‘Não sou eu, pois não, Mestre?’ Jesus
diz-lhe: ‘Tu <o> disseste.’» (trad. Frederico Lourenço)
3. Morte
“O que é que eu penso da morte? Não penso nada, porque
nunca morri, não tenho nada que me pronunciar sobre esse assunto. Deixa-me
morrer, porque depois, se houver alguma coisa e eu puder dizer, eu comunico
para você, sou seu amigo, porque é que não hei-de comunicar, não é?”
Entrevista
A linguagem é um pau de dois bicos. Ela deslinda,
desfia, ou desenrola o novelo no seu jogo do pensar (“O pensador lança-se à
tarefa de desembaraçar o enrolado novelo que o mundo lhe apresenta” Agostinho
da Silva). Mas ela encontra-se nos meandros do próprio ser como linguagem.
Agostinho da Silva brinca, de maneira irónica com a linguagem. Como o tempo,
qual criança jogando com pedrinhas e conchas numa praia (Heraclito, frg. 52).
A linguagem pretende antecipar-se e estar, ao mesmo
tempo, para lá.
4. Mudança
“Posso mudar se me penso mudado.”
Espólio
A mudança é, sempre-já, algo que muda e, por isso
mudou. E, ainda assim, pode mudar.
5.
Pensamento
“Penso, como ser pensante, que nada existe senão o
pensamento, o qual me pensa como ser pensante.”
Espólio
Lembremo-nos do “pensamento do pensamento” de Aristóteles
(noesis noeseos; Met. 1074b). Se bem que, no filósofo grego, haja
uma identificação com Deus. “Em vários lugares Aristóteles compara a noesis
humana com a divina” (p. ex. ibid. 1072b), lembra F. E. Peters (Termos
Filosóficos Gregos). Seja como for, tudo isto não passa de enunciações
humanas, dignas do espanto (thaumazein) na sua procura. Uma é de
Aristóteles, outra do pensador português. Como não poderia deixar de ser, a
linguagem anda pelo meio.
“O pensamento se move sem mudar de lugar.”
Espólio
Digamos que o pensamento, sempre mudando, não muda de
mudar. Pensemos no primeiro motor, segundo Aristóteles, o proton kinoun,
que é imóvel (akineton). E, em várias passagens e obras, Aristóteles
estabelece paralelos entre o proton kinoun e o nous enquanto noesis
noeseos acima referido.
6. Poeta
“O poeta é todo aquele que cria.”
Entrevista
Poiesis (gr.): criação. Poeta: Poietês (gr.).
7.
Progresso
“Consiste o progresso no regresso às origens: com a
plena memória da viagem.”
Espólio
Isto fez-me pensar no que escrevi num ensaio intitulado “Tempos” na
revista em linha “Caliban”: “Nas áreas do saber, o homem, sempre preocupado com
as origens mais remotas, até as suas. Curiosamente, quanto mais recua, mais
sente que avança.” Mas, de facto, o avanço e o progresso nos nossos dias
guardam uma relação perigosa progressus / regressus. Acima de
tudo, por força da técnica desregrada e do correspondente capitalismo selvagem
– com a conivência de uma certa visão de ciência – há um avanço vertiginoso que
poderá conduzir à catástrofe (no clima, nas guerras, etc.). Tudo isto a par de
uma estranha lógica da informação e do espectáculo que parece conduzir-nos à
tentação e ao estado paradoxal de assistirmos ao nosso próprio fim.
8. Verdade
“Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos
outros. Nunca julgar que aquilo em que se acredita é efectivamente a verdade.
Fujo da verdade como tudo, porque acho que quem tem a verdade num bolso tem
sempre uma inquisição do outro lado pronta para atacar alguém; então livro-me
de toda a espécie de poder – isso sobretudo.
Entrevista
Ainda a arte, pensando em Nietzsche, e na versão
tantas vezes repetida de Pedro Paixão: “Temos a arte para não morrer de verdade.” (Nietzsche — in Der Wille zur
Macht – A Vontade de Potência)
Referências
Silva, Agostinho da, Citações e Pensamentos, 3ª
edição, org. Paulo Neves da Silva, Lisboa, Casa das Letras, 2010.
Aristóteles, Metafísica, ed. trilingὔe [grego, latim, castelhano], trad.
Valentín García Yebra, Madrid, ed. Gredos, 1990.
Bíblia — Novo
Testamento — Os Quatro Evangelhos, Tradução do
Grego, Apresentação e Notas de Frederico Lourenço, Lisboa, Quetzal, 2018.
Kirk, G. S.; Raven, J.E., The Presocratic Philosophers. Cambridge: Cambridge
University Press. 9.ª edição, 1975. Tradução portuguesa: Os Filósofos
Pré-Socráticos. Trad. C.A.L. Fonseca, B.R. Barbosa e M.A. Pegado.
Lisboa: Gulbenkian, 1982.
Nietzsche, Friedrich, La Volonté de Puissance I, trad. Geneviève
Bianquis, Paris, Gallimard, 2007.
Peters, F.E., Termos Filosóficos Gregos, Um léxico Histórico, trad.
Beatriz Rodrigues Barbosa, Lisboa, Gulbenkian, 1983.
