terça-feira, 24 de setembro de 2024

Linhas com Agostinho da Silva

 

                        Linhas com Agostinho da Silva

 

                                                    Luís de Barreiros Tavares

 

 Publicado na Nova Águia nº 34

"Linhas com Agostinho da Silva" – Nova Águia, nº 34, 2º semestre, 2024, pp. 147-148.



                                                      “Não dês ouvidos a mim, mas ao Logos […]” Heraclito, frg. 50

 

Breves linhas em eco a algumas reflexões de Agostinho da Silva. Revela-se um estofo cultural de saberes adquiridos e, ao mesmo tempo, retrabalhados nas suas ressonâncias. Por outro lado, há o pensamento que diz a seu modo o que há ainda a pensar. Aflora-se um pouco mais Aristóteles. Porquê o “Estagirita”? Porque ocorreu assim nestes apontamentos livres e preliminares.

 

1. Arte

 

“A vida, para a vida, é sempre longa; mas para a arte é sempre breve. […].”

 

Sete Cartas a um Jovem Filósofo

 

Vita brevis, ars longa” – Aforismo mais conhecido em latim, divulgado por Séneca, mas que provém do médico grego Hipócrates.

 

2. Julgamento

 

“Se me julgas, te julgas por julgares.”

 

Espólio

 

Pensei num passo de Mateus, 26:25: “Respondendo, Judas – aquele que o estava a entregar – disse: ‘Não sou eu, pois não, Mestre?’ Jesus diz-lhe: ‘Tu <o> disseste.’» (trad. Frederico Lourenço)

 

3. Morte

 

“O que é que eu penso da morte? Não penso nada, porque nunca morri, não tenho nada que me pronunciar sobre esse assunto. Deixa-me morrer, porque depois, se houver alguma coisa e eu puder dizer, eu comunico para você, sou seu amigo, porque é que não hei-de comunicar, não é?”

 

Entrevista

 

A linguagem é um pau de dois bicos. Ela deslinda, desfia, ou desenrola o novelo no seu jogo do pensar (“O pensador lança-se à tarefa de desembaraçar o enrolado novelo que o mundo lhe apresenta” Agostinho da Silva). Mas ela encontra-se nos meandros do próprio ser como linguagem. Agostinho da Silva brinca, de maneira irónica com a linguagem. Como o tempo, qual criança jogando com pedrinhas e conchas numa praia (Heraclito, frg. 52).

 

A linguagem pretende antecipar-se e estar, ao mesmo tempo, para lá.

 

4. Mudança

 

“Posso mudar se me penso mudado.”

 

Espólio

 

A mudança é, sempre-já, algo que muda e, por isso mudou. E, ainda assim, pode mudar.

 

5. Pensamento

 

“Penso, como ser pensante, que nada existe senão o pensamento, o qual me pensa como ser pensante.”

 

Espólio

 

Lembremo-nos do “pensamento do pensamento” de Aristóteles (noesis noeseos; Met. 1074b). Se bem que, no filósofo grego, haja uma identificação com Deus. “Em vários lugares Aristóteles compara a noesis humana com a divina” (p. ex. ibid. 1072b), lembra F. E. Peters (Termos Filosóficos Gregos). Seja como for, tudo isto não passa de enunciações humanas, dignas do espanto (thaumazein) na sua procura. Uma é de Aristóteles, outra do pensador português. Como não poderia deixar de ser, a linguagem anda pelo meio.

 

“O pensamento se move sem mudar de lugar.”

 

Espólio

 

Digamos que o pensamento, sempre mudando, não muda de mudar. Pensemos no primeiro motor, segundo Aristóteles, o proton kinoun, que é imóvel (akineton). E, em várias passagens e obras, Aristóteles estabelece paralelos entre o proton kinoun e o nous enquanto noesis noeseos acima referido.

 

6. Poeta

 

“O poeta é todo aquele que cria.”

 

Entrevista

 

Poiesis (gr.): criação. Poeta: Poietês (gr.).

 

7. Progresso

 

“Consiste o progresso no regresso às origens: com a plena memória da viagem.”

 

Espólio

 

Isto fez-me pensar no que escrevi num ensaio intitulado “Tempos” na revista em linha “Caliban”: “Nas áreas do saber, o homem, sempre preocupado com as origens mais remotas, até as suas. Curiosamente, quanto mais recua, mais sente que avança.” Mas, de facto, o avanço e o progresso nos nossos dias guardam uma relação perigosa progressus / regressus. Acima de tudo, por força da técnica desregrada e do correspondente capitalismo selvagem – com a conivência de uma certa visão de ciência – há um avanço vertiginoso que poderá conduzir à catástrofe (no clima, nas guerras, etc.). Tudo isto a par de uma estranha lógica da informação e do espectáculo que parece conduzir-nos à tentação e ao estado paradoxal de assistirmos ao nosso próprio fim.

 

8. Verdade

 

“Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros. Nunca julgar que aquilo em que se acredita é efectivamente a verdade. Fujo da verdade como tudo, porque acho que quem tem a verdade num bolso tem sempre uma inquisição do outro lado pronta para atacar alguém; então livro-me de toda a espécie de poder – isso sobretudo.

 

Entrevista

 

Ainda a arte, pensando em Nietzsche, e na versão tantas vezes repetida de Pedro Paixão: Temos a arte para não morrer de verdade.” (Nietzsche — in Der Wille zur Macht A Vontade de Potência)

 

Referências

 

Silva, Agostinho da, Citações e Pensamentos, 3ª edição, org. Paulo Neves da Silva, Lisboa, Casa das Letras, 2010.

 

Aristóteles, Metafísica, ed. trilingὔe [grego, latim, castelhano]trad. Valentín García YebraMadrid, ed. Gredos, 1990.

 

Bíblia — Novo Testamento — Os Quatro Evangelhos, Tradução do Grego, Apresentação e Notas de Frederico Lourenço, Lisboa, Quetzal, 2018.

 

Kirk, G. S.; Raven, J.E., The Presocratic Philosophers. Cambridge: Cambridge University Press. 9.ª edição, 1975. Tradução portuguesa: Os Filósofos Pré-Socráticos. Trad. C.A.L. Fonseca, B.R. Barbosa e M.A. Pegado. Lisboa: Gulbenkian, 1982.

 

Nietzsche, Friedrich, La Volonté de Puissance I, trad. Geneviève Bianquis, Paris, Gallimard, 2007.

 

Peters, F.E., Termos Filosóficos Gregos, Um léxico Histórico, trad. Beatriz Rodrigues Barbosa, Lisboa, Gulbenkian, 1983.




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