Luís
de Barreiros Tavares
“Na verdade um
oftalmologista cego não poderia servir para muito, mas competia-lhe a ele
informar as autoridades sanitárias, avisá-las do que poderia estar a tornar-se
em catástrofe nacional, nada mais nada menos que um tipo de cegueira
desconhecido até agora, com todo o aspecto de ser altamente contagioso,” José
Saramago, Ensaio sobre a Cegueira
O presente artigo – abrindo com uma
citação de Lichtenberg, por Agamben – , e completando-se com uma extensa
citação de Saramago (Ensaio sobre a
Cegueira), para além de um brevíssimo apêndice de Canetti, foi inicialmente
publicado a 23 de janeiro de 2021 na revista em linha “Caliban”. Cerca de 5
meses depois surgiu o seguinte anúncio para “um vasto programa internacional”
(centenário do nascimento do escritor em 2022): “Exclusivo: A pandemia deu
nova percepção à obra de Saramago e o centenário quer encontrá-la.”
(Diário de Notícias – 14/06/2021)[1]
Giorgio Agamben acaba de publicar, um tanto enigmaticamente,
um artigo que se limita a uma breve citação de Lichtenberg na página
“Quodlibet” onde regularmente tem publicado artigos, muitos sobre a pandemia
Covid-19.
“Uma profecia de Lichtenberg”
[1742-1799]
“O nosso mundo tornar-se-á tão civilizado que será
ridículo acreditar em Deus, como é hoje acreditar em fantasmas. Então, depois
de um certo tempo, o mundo tornar-se-á ainda mais civilizado. E o processo que
o levará ao cume supremo da civilização continuará cada vez mais rápido.
Tocando o pináculo, o julgamento de especialistas será novamente revertido e o
conhecimento alcançará sua transformação extrema. Então – e este será realmente
o fim – só acreditaremos em fantasmas.”
Agamben –
Quodlibet, 20 de janeiro de 2021[2]
Limitar-me-ei aqui, também, a fazer uma citação, esta bem mais
longa. Não sei se é uma profecia, talvez seja uma alegoria, “uma nova
percepção”? – cheia de metáforas – que nos dirá porventura alguma coisa –
alguma coisa visível? – sobre o estado de coisas nos nossos dias em tempos de
pandemia Covid-19. Vírus
hiper-vísivel pela visibilidade das notícias incessantes, e hiper-invísivel por
estar em todo o lado sem o vermos. É a paradoxalidade e o paroxismo da
visibilidade e da invisibilidade no nosso mundo. Eis a citação do livro Ensaio sobre
a Cegueira (1995), de José Saramago.
“Diferente foi o que se passou com o oftalmologista, não só
porque se encontrava em casa quando o atacou a cegueira, mas porque, sendo
médico, não iria entregar-se de mãos atadas ao desespero, como fazem aqueles
que do seu corpo só sabem quando lhes dói. Mesmo numa situação como esta,
angustiado, tendo pela frente uma noite de ansiedade, ainda foi capaz de
recordar o que Homero escreveu na Ilíada, poema da morte e do sofrimento, mais
do que todos, Um médico, só por si, vale alguns homens, palavras que não
deveremos entender como expressão directamente quantitativa, mas sim maiormente
qualitativa, como não tardará a certificar-se. Teve a coragem de se deitar sem
acordar a mulher, nem sequer quando ela, murmurando meio adormecida, se moveu
na cama para o sentir mais próximo. Horas e horas acordado, o pouco que
conseguiu dormir foi de puro esgotamento. Desejava que a noite não acabasse
para não ter de anunciar, ele cujo ofício era curar as mazelas dos olhos
alheios, Estou cego, mas ao mesmo tempo queria que chegasse rapidamente a luz
do dia, com estas exactas palavras o pensou, A luz do dia, sabendo que não a
iria ver. Na verdade um oftalmologista cego não poderia servir para muito, mas
competia-lhe a ele informar as autoridades sanitárias, avisá-las do que poderia
estar a tornar-se em catástrofe nacional, nada mais nada menos que um tipo de
cegueira desconhecido até agora, com todo o aspecto de ser altamente
contagioso, e que, pelos vistos, se manifestava sem a prévia existência de
actividades patológicas anteriores de carácter inflamatório, infeccioso ou
degenerativo, como pudera verificar no cego que o fora procurar ao consultório,
ou como no seu próprio caso se confirmaria, uma miopia leve, um leve
astigmatismo, tudo tão ligeiro que havia decidido, por enquanto, não usar
lentes correctoras. Olhos que tinham deixado de ver, olhos que estavam
totalmente cegos, encontravam-se no entanto em perfeito estado, sem qualquer
lesão, recente ou antiga, adquirida ou de origem. Recordou o exame minucioso
que fizera ao cego, como as diversas partes do olho acessíveis ao oftalmoscópio
se apresentavam sãs, sem sinal de alterações mórbidas, situação muito rara nos
trinta e oito anos que o homem dissera ter, e até em menos idade. Aquele homem
não devia estar cego, pensou, esquecido por momentos de que ele próprio também
o estava, a tal ponto pode uma pessoa chegar em abnegação, e isto não é coisa
de agora, lembremo-nos do que disse Homero, ainda que por palavras que
pareceram diferentes.
Fingiu que dormia quando a mulher se levantou. Sentiu o
beijo que ela lhe deu na testa, muito suave, como se não quisesse acordá-lo do
que julgava ser um sono profundo, talvez tivesse pensado, Coitado, deitou-se tarde,
a estudar aquele extraordinário caso do homenzinho cego. Sozinho, como se
estivesse a ser lentamente garrotado por uma nuvem espessa que lhe carregasse
sobre o peito e lhe entrasse pelas narinas cegando-o por dentro, o médico
deixou sair um gemido breve, consentiu que duas lágrimas, Serão brancas,
pensou, lhe inundassem os olhos e se derramassem pelas fontes, de um lado e do
outro da cara, agora compreendia o medo dos seus pacientes quando lhe diziam,
Senhor doutor, parece-me que estou a perder a vista. Ao quarto chegavam os
pequenos ruídos domésticos, a mulher não tardaria aí para ver se ele continuava
a dormir, estavam-se a fazer horas de ir para o hospital. Levantou-se com
cuidado, às apalpadelas procurou e enfiou o roupão, entrou na casa de banho,
urinou. Depois virou-se para onde sabia que estava o espelho, desta vez não
perguntou Que será isto, não disse Há mil razões para que o cérebro humano se
feche, só estendeu as mãos até tocar o vidro, sabia que a sua imagem estava ali
a olhá-lo, a imagem via-o a ele, ele não via a imagem. Ouviu a mulher entrar no
quarto, Ah, já estás levantado, disse ela, e ele respondeu, Estou. Logo a
seguir sentiu-a ao seu lado, Bons dias, meu amor, ainda se saudavam com
palavras de carinho depois de tantos anos de casados, e então ele disse, como
se os dois estivessem a representar uma peça e esta fosse a sua deixa, Acho que
não irão ser muito bons, tenho qualquer coisa na vista. Ela só deu atenção à
última parte da frase, Deixa-me ver, pediu, examinou-lhe os olhos com atenção,
Não vejo nada, a frase estava evidentemente trocada, não pertencia ao papel
dela, ele era quem tinha de pronunciá-la, mas disse-a mais simplesmente, assim,
Não vejo, e acrescentou, Suponho que fui contagiado pelo doente de ontem.
Com o tempo e a intimidade, as mulheres dos médicos
acabam também por entender algo de medicina, e esta, em tudo tão próxima do
marido, aprendera o bastante para saber que a cegueira não se propaga por
contágio, como uma epidemia, a cegueira não se pega só por olhar um cego alguém
que o não é, a cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que
nasceu. Em todo o caso, um médico tem a obrigação de saber o que diz, para isso
está a faculdade, e se este aqui, além de se ter declarado cego, admite
abertamente ter sido contagiado, quem é agora a mulher para duvidar, por muito
de médico que fosse. Compreende-se, portanto, que a pobre senhora, perante a
irrefragável evidência, acabasse por reagir como qualquer esposa comum, duas já
conhecemos nós, abraçando-se ao marido, oferecendo as naturais mostras de
aflição, E agora, que vamos fazer, perguntava entre lágrimas, Avisar as
autoridades sanitárias, o ministério, é o mais urgente, se se trata realmente
duma epidemia é preciso tomar providências, Mas uma epidemia de cegueira foi
coisa que nunca se viu, alegou a mulher, querendo agarrar-se a esta derradeira
esperança, Também nunca se viu um cego sem motivos aparentes para o ser, e
neste momento já há pelo menos dois. Mal acabara de pronunciar a última
palavra, o rosto transformou-se-lhe. Empurrou a mulher quase com violência, ele
próprio recuou, Afasta-te, não te chegues a mim, posso contagiar-te, e logo a
seguir, batendo na cabeça com os punhos fechados, Estúpido, estúpido, médico
idiota, como é que não pensei, uma noite inteira juntos, devia ter ficado no
escritório, com a porta fechada, e mesmo assim, Por favor, não fales dessa
maneira, o que tiver de ser será, anda, vem, vou-te preparar o pequeno-almoço,
Deixa-me, deixa-me, Não deixo, gritou a mulher, que queres fazer, andar aí aos
tombos, a chocar contra os móveis, à procura do telefone, sem olhos para
encontrar na lista os números de que precisas, enquanto eu assisto
tranquilamente ao espectáculo, metida numa redoma de cristal à prova de
contaminações. Agarrou-o pelo braço com firmeza e disse, Vamos, meu querido.
Ainda era cedo quando o médico acabou de tomar,
imaginemos com que gosto, a chávena de café e a torrada que a mulher teimou em
preparar-lhe, cedo de mais para encontrar já nos seus lugares de trabalho as
pessoas a quem deveria informar. A lógica e a eficácia mandavam que a sua
participação do que estava a acontecer fosse feita directamente o mais depressa
possível a um alto cargo responsável do ministério da Saúde, mas não tardou a
mudar de ideias quando percebeu que apresentar-se apenas como um médico que
tinha uma informação importante e urgente a comunicar não era suficiente para
convencer o funcionário médio com quem, por fim, depois de muitos rogos, a
telefonista condescendera em pô-lo em contacto. O homem quis saber de que se
tratava antes de o passar ao superior imediato, e estava claro que qualquer
médico com sentido de responsabilidade não iria pôr-se a anunciar o surgimento
de uma epidemia de cegueira ao primeiro subalterno que lhe aparecesse pela
frente, o pânico seria imediato. Respondia de lá o funcionário, O senhor
declara-me que é médico, se quer que lhe diga que acredito, pois sim, acredito,
mas eu tenho as minhas ordens, ou me diz de que se trata, ou não dou
seguimento, É um assunto confidencial, Assuntos confidenciais não se tratam por
telefone, o melhor será vir cá pessoalmente, Não posso sair de casa, Quer dizer
que está doente, Sim, estou doente, disse o cego depois de uma hesitação, Nesse
caso o que você deverá fazer é chamar um médico, um médico autêntico, retorquiu
o funcionário, e, encantado com o seu próprio espírito, desligou o telefone.
A insolência atingiu o médico como uma bofetada. Só
passados alguns minutos teve serenidade bastante para repetir à mulher a
grosseria com que fora tratado. Depois, como se acabasse de descobrir algo que
estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou, triste, É desta massa
que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade. Ia perguntar,
duvidoso, E agora, quando compreendeu que tinha estado a perder tempo, que a
única forma de fazer chegar a informação aonde convinha, por via segura, seria
falar com o director clínico do seu próprio serviço hospitalar, de médico para
médico, sem burocratas pelo meio, ele que se encarregasse depois de pôr a
maldita engrenagem oficial a funcionar. A mulher fez a ligação, sabia de
memória o número do telefone do hospital. O médico identificou-se quando
responderam, depois disse rapidamente, Bem, muito obrigado, sem dúvida a
telefonista perguntara, Como está, senhor doutor, é o que dizemos quando não
queremos dar parte de fraco, dissemos, Bem, e estávamos a morrer, a isto chama
o vulgo fazer das tripas coração, fenómeno de conversão visceral que só na
espécie humana tem sido observado. Quando o director veio ao telefone, Então,
que se passa, o médico perguntou-lhe se estava só, se não havia gente por perto
que pudesse ouvir, da telefonista não havia que recear, tinha mais que fazer
que escutar conversas sobre oftalmopatias, a ela apenas a ginecologia lhe interessava.
O relato do médico foi breve mas completo, sem rodeios, sem palavras a mais,
sem redundâncias, e feito com uma secura clínica que, tendo em conta a
situação, chegou a surpreender o director, Mas você está mesmo cego, perguntou,
Totalmente cego, Em todo o caso, poderia tratar-se de uma coincidência, poderia
não ter havido realmente, no seu exacto sentido, um contágio, De acordo, o
contágio não está demonstrado, mas aqui não foi o caso de cegar ele e cegar eu,
cada qual em sua casa, sem nos termos visto, o homem apareceu-me cego na
consulta e eu ceguei poucas horas depois, Como é que poderemos encontrar esse
homem, Tenho o nome e a direcção no consultório, Vou lá mandar alguém
imediatamente, Um médico, Sim, um colega, claro, Não lhe parece que deveríamos
comunicar ao ministério o que se está a passar, Por enquanto acho prematuro,
pense no alarme público que iria causar uma notícia destas, com mil diabos, a
cegueira não se pega, A morte também não se pega, e apesar disso todos
morremos, Bom, deixe-se estar em casa enquanto eu trato do assunto, depois
mando-o buscar aí, quero observá-lo, Lembre-se de que se estou cego foi por ter
observado um cego, Não há a certeza, Há, pelo menos uma boa presunção de causa
e efeito, Sem dúvida, contudo ainda é demasiado cedo para tirarmos conclusões,
dois casos isolados não têm significado estatístico, Salvo se nesta altura já
somos mais do que dois, Compreendo o seu estado de espírito, mas devemos
defender-nos de pessimismos que podem vir a verificar-se infundados, Obrigado,
Voltarei a falar consigo, Até logo.
Meia hora depois, tinha o médico, desajeitadamente, com a
ajuda da mulher, acabado de fazer a barba, tocou o telefone. Era outra vez o
director clínico, mas a voz, agora, estava mudada, Temos aqui um rapaz que
também cegou de repente, vê tudo branco, a mãe diz que esteve ontem com o filho
no seu consultório, Suponho que o pequeno sofre de estrabismo divergente do
olho esquerdo, Sim, Não há dúvida, é ele, Começo a estar preocupado, a situação
é mesmo séria, O ministério, Sim, claro, vou imediatamente falar com a direcção
do hospital. Passadas umas três horas, quando médico e a mulher almoçavam em
silêncio, ele tenteando com o garfo os pedacinhos de carne que ela lhe cortara,
o telefone tornou a tocar. A mulher foi atender, voltou logo, Tens de ir tu, é
do ministério. Ajudou-o a levantar-se, guiou-o até ao escritório e deu-lhe o
telefone. A conversa foi rápida. O ministério queria saber a identidade dos
pacientes que tinham estado no dia anterior no consultório, o médico respondeu
que as fichas clínicas respectivas continham todos os elementos de
identificação, o nome, a idade, o estado civil, a profissão, a morada, e
terminou declarando-se ao dispor para acompanhar a pessoa ou pessoas que fossem
recolhê-los. Do outro lado o tom foi cortante, Não precisamos. O telefone mudou
de mão, a voz que saiu dele era diferente, Boas tardes, fala o ministro, em
nome do Governo venho agradecer o seu zelo, estou certo de que graças à
prontidão com que agiu vamos poder circunscrever e controlar a situação,
entretanto faça-nos o favor de permanecer em casa. As palavras finais foram
pronunciadas com expressão formalmente cortês, porém não deixavam qualquer
dúvida sobre o facto de serem uma ordem. O médico respondeu, Sim, senhor
ministro, mas a ligação já tinha sido cortada.
Poucos minutos depois, outra vez o telefone. Era o
director clínico, nervoso, atropelando as palavras, Acabei agora mesmo de saber
que a polícia tem informação de dois casos de cegueira súbita, Polícias, Não,
um homem e uma mulher, a ele encontraram-no na rua a gritar que estava cego, e
ela estava num hotel quando cegou, uma história de cama, parece, É necessário
averiguar se se trata também de doentes meus, sabe como eles se chamam, Não me
disseram, Do ministério já falaram comigo, irão ao consultório recolher as
fichas, Que situação complicada, Diga-mo a mim. O médico largou o telefone,
levou as mãos aos olhos, ali as deixou ficar como se quisesse defendê-los de
piores males, enfim exclamou surdamente, Estou tão cansado, Dorme um pouco, eu
levo-te até à cama, disse a mulher, Não vale a pena, seria incapaz de
adormecer, além disso o dia não acabou, algo vai ter de suceder ainda.
Eram quase seis horas quando o telefone tocou pela
última vez. O médico estava sentado ao lado, levantou o auscultador, Sim, sou
eu, disse, ouviu com atenção o que estava a ser-lhe comunicado e só acenou
ligeiramente a cabeça antes de desligar. Quem era, perguntou a mulher, O
ministério, vem uma ambulância buscar-me dentro de meia hora, Era isso que esperavas
que sucedesse, Sim, mais ou menos, Para onde te levam, Não sei, suponho que
para um hospital, Vou-te preparar a mala, escolher a roupa, o costume, Não é
uma viagem, Não sabemos o que é. Levou-o com cuidado até ao quarto, fê-lo
sentar-se na cama, Deixa-te estar aí tranquilo, eu trato de tudo. Ouviu-a
mover-se de um lado para outro, abrir e fechar gavetas e armários, tirar roupas
e logo arrumá-las na mala colocada no chão, mas o que ele não podia ver foi
que, além da sua própria roupa, haviam sido postas na mala umas quantas saias e
blusas, um par de calças, um vestido, uns sapatos que só podiam ser de mulher.
Pensou vagamente que não iria precisar de tanta coisa, mas calou-se porque não
era o momento de falar de insignificâncias. Ouviu-se o estalido dos fechos,
depois a mulher disse, Pronto, a ambulância já pode vir. Levou a mala para
junto da porta da escada, recusando o auxílio do marido, que dizia, Deixa-me
ajudar-te, isso eu posso fazer, não estou tão inválido assim. Depois foram
sentar-se num sofá da sala, a esperar. Tinham as mãos dadas, e ele disse, Não
sei quanto tempo iremos estar separados, e ela respondeu, Não te preocupes.
Esperaram quase uma hora. Quando a campaínha da porta
soou, ela levantou-se e foi abrir, mas no patamar não havia ninguém. Atendeu ao
telefone interno, Muito bem, ele desce já, respondeu. Voltou para o marido e
disse-lhe, Que esperam em baixo, têm ordem expressa de não subir, Pelos vistos
o ministério está mesmo assustado, Vamos. Desceram no elevador, ela ajudou o
marido a transpor os últimos degraus, depois a entrar na ambulância, voltou à
escada para buscar a mala, içou-a sozinha e empurrou-a para dentro. Finalmente
subiu e sentou-se ao lado do marido. O condutor da ambulância protestou do
banco da frente, Só posso levá-lo a ele, são as ordens que tenho, a senhora
saia. A mulher, calmamente, respondeu, Tem de me levar também a mim, ceguei
agora mesmo.
A lembrança tinha saído da cabeça do próprio ministro.
Era, por qualquer lado que se examinasse, uma ideia feliz, senão perfeita,
tanto no que se referia aos aspectos meramente sanitários do caso como às suas
implicações sociais e aos seus derivados políticos. Enquanto não se apurassem
as causas, ou, para empregar uma linguagem adequada, a etiologia do mal-branco,
como, graças à inspiração de um assessor imaginativo, a malsoante cegueira
passaria a ser designada, enquanto para ele não fosse encontrado o tratamento e
a cura, e quiçá uma vacina que prevenisse o aparecimento de casos futuros,
todas as pessoas que cegaram, e também as que com elas tivessem estado em
contacto físico ou em proximidade directa, seriam recolhidas e isoladas, de
modo a evitarem-se ulteriores contágios, os quais, a verificarem-se, se
multiplicariam mais ou menos segundo o que matematicamente é costume denominar-se
progressão por quociente. Quod erat demonstrandum, concluiu o ministro. Em
palavras ao alcance de toda a gente, do que se tratava era de pôr de quarentena
todas aquelas pessoas, segundo a antiga prática, herdada dos tempos da cólera e
da febre-amarela, quando os barcos contaminados ou só suspeitos de infecção
tinham de permanecer ao largo durante quarenta dias, até ver. Estas mesmas
palavras, Até ver, intencionais pelo tom, mas sibilinas por lhe faltarem
outras, foram pronunciadas pelo ministro, que mais tarde precisou o seu
pensamento, Queria dizer que tanto poderão ser quarenta dias como quarenta
semanas, ou quarenta meses, ou quarenta anos, o que é preciso é que não saiam
de lá. Agora falta decidir onde os iremos meter, senhor ministro, disse o presidente
da comissão de logística e segurança, nomeada rapidamente para o efeito, que
deveria encarregar-se do transporte, isolamento e suprimento dos pacientes, De
que possibilidades imediatas dispomos, quis saber o ministro, Temos um
manicómio vazio, devoluto, à espera de que se lhe dê destino, umas instalações
militares que deixaram de ser utilizadas em consequência da recente
reestruturação do exército, uma feira industrial em fase adiantada de
acabamento, e há ainda, não conseguiram explicar-me porquê, um hipermercado em
processo de falência, Na sua opinião, qual deles serviria melhor aos fins que
temos em vista, O quartel é o que oferece melhores condições de segurança,
Naturalmente, Tem porém um inconveniente, ser demasiado grande, tornaria
difícil e dispendiosa a vigilância dos internados, Estou a ver, Quanto ao
hipermercado, haveria que contar, provavelmente, com impedimentos jurídicos
vários, questões legais a ter em conta, E a feira, A feira, senhor ministro,
creio ser preferível não pensar nela, Porquê, A indústria não gostaria com
certeza, estão ali investidos milhões, Nesse caso, resta o manicómio, Sim,
senhor ministro, o manicómio, Pois então que seja o manicómio, Aliás, a todas
as luzes, é o que apresenta melhores condições, porque, a par de estar murado
em todo o seu perímetro, ainda tem a vantagem de se compor de duas alas, uma
que destinaremos aos cegos propriamente ditos, outra para os suspeitos, além de
um corpo central que servirá, por assim dizer, de terra-de-ninguém, por onde os
que cegarem transitarão para irem juntar-se aos que já estavam cegos, Vejo aí
um problema, Qual, senhor ministro, Vamos ser obrigados a pôr lá pessoal para
orientar as transferências, e não acredito que possamos contar com voluntários,
Não creio que seja necessário, senhor ministro, Explique lá, No caso de um dos
suspeitos de infecção cegar, como é natural que lhe suceda mais cedo ou mais
tarde, tenha o senhor ministro por certo que os outros, os que ainda
conservarem a vista, põem-no de lá para fora no mesmo instante, Tem razão, Tal
como não permitiriam a entrada de um cego que se tivesse lembrado de mudar de
sítio, Bem pensado, Obrigado, senhor ministro, podemos então mandar avançar,
Sim, tem carta branca.
A comissão agiu com rapidez e eficácia. Antes que
anoitecesse já tinham sido recolhidos todos os cegos de que havia notícia, e
também um certo número de presumíveis contagiados, pelo menos aqueles que fora
possível identificar e localizar numa rápida operação de rastreio exercida
sobretudo nos meios familiar e profissional dos atingidos pela perda da visão.
Os primeiros a serem transportados para o manicómio desocupado foram o médico e
a mulher. Havia soldados de guarda. O portão foi aberto à justa para eles
passarem, e logo fechado.”
José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, Lisboa, Diário de Notícias —
Bibliotex Editor, 2003, pp. 30–39.
Breve apêndice:
“O Cego não é cego
de nascimento, mas pouco lhe custou tornar-se cego. Tem uma câmara, leva-a a
todo o lado e compraz-se em manter os olhos fechados.”
Elias Canetti, “El ciego”, in Cinquenta
caracteres (El testigo oidor), Barcelona, Editorial Labor, S.A. — Guadarrama/Punto
Omega, 1981
