NOITE E
CREPÚSCULO EM CRUZEIRO SEIXAS E G. DE CHIRICO
Luís de Barreiros
Tavares
"Noite e crepúsculo em Cruzeiro Seixas e Giorgio de Chirico" - Um artigo sobre Cruzeiro Seixas - nº quádruplo da revista (90/91/92/93) A IDEIA (2020)
EM MEMÓRIA DO MEU TIO
JACINTO TAVARES, AGUARELISTA DE ALFAMA
Haverá um
paralelismo entre Cruzeiro Seixas e Giorgio de Chirico? Como o título indica, ambos
exploram picturalmente determinadas luminosidades ou tonalidades da noite e do
crepúsculo. Em Seixas aparece frequentemente a lua, a lua cheia. Ela surge também na forma de símbolo,
coroando algumas figuras em quarto crescente com as pontas ao alto como chifres
de touro. Pássaros, cruzamentos de vários seres, humanos e não-humanos,
aparentando por vezes estátuas vivas.
Em Chirico
encontramos muitas vezes atmosferas crepusculares, nocturnas, aurorais. Mas, ao
contrário de Seixas, a lua não surge. Há nele uma luminosidade muito curiosa,
estranha, qualquer coisa de onírico, própria do Surrealismo, tal como em
Seixas.
Grande
parte das pinturas de Chirico tem muitas sombras, longas sombras, como se
houvesse uma luz que se projectasse quase num plano rasante às superfícies das
paisagens, aos objectos, edifícios, estátuas, seres-manequins, etc. Por vezes,
em ressonância com aquelas superfícies, há no horizonte amarelos e verdes que
escurecem num prolongamento para o céu. Este torna-se por vezes bem escuro até
ao negrume. Noutras vezes detém-se nos azuis prévios à noite (poente), ou ao
dia (nascente). Seres-sombras, sob aquele efeito de luz rasante, enormes e por
vezes ameaçadores. Ou, pelo menos, incógnitos, como em “Mistério e Melancolia
de uma Rua” (1914) (ver fig. 2). Nesta pintura depara-se-nos a iminência de uma
grande sombra aparentemente humana, quando, nessa direcção, corre uma menina
brincando com um arco.
Fig.
1 – Cruzeiro Seixas – “Figuras Surrealistas” – Serigrafia sobre papel – 43 x 30
cm – Período 2000-2009
Em Seixas,
a lua está no alto, banhando com uma luz láctea e vertical, as superfícies,
muitas vezes sem sombras (ver fig. 1). O azul do céu está entre o escuro e o
metileno. Se o céu é muito escuro, as figuras, as formas e os seres mantêm-se
claros, por seu turno lunares, ou como se fossem extraídos da lua. É o caso,
por exemplo, de “A cadeira de Édipo” (1958), onde a lua não se avista. Por
outro lado, a impressão que nos é dada por certos quadros de Seixas é a de que
estamos na própria lua em sonho. E, por isso, surge um imaginário que se diria
lunar. Noutras pinturas a lua parece tornar-se uma pequena esfera, chegando por
vezes às mãos dos seres [p. ex., “The Balance” (1993)].
Os grandes espaços são explorados
por ambos os pintores, na linha de Dali e na linhagem bretoniana,
diferentemente de certos caminhos seguidos por Cesariny. “Cesariny entra em ruptura com o surrealismo de André
Breton.” Neste inscreve-se sobretudo o “método paranóico crítico de Dali, a
figuração de Magritte e de Dali…”, e também de Chirico, Delvaux... De facto,
nestes artistas as vertentes perspécticas e figurativas são hegemónicas – as citações
são de João Pinharanda1 (Tavares, 2019: 279). “As descobertas de André
Breton tiveram todas elas grande expressão na minha vida” (Seixas). 2
A paleta de
Seixas é mais reduzida, sublinhando, com as cores escolhidas, a sua singular
atmosfera onírica e imaginária. Dir-se-ia, talvez, um certo intimismo que nos
convoca para outras planetariedades, abrindo-se a outros espaços extraterrestres
que não se limitam ao lunar e ao terrestre sonhados.
Fig. 2 – Giorgio de Chirico – “Mistério e Melancolia de uma Rua” – Óleo sobre Tela – 87 x 71,5 cm – 1914
Acontece o
mesmo com de Chirico. No entanto, este pintor experimenta uma paleta mais
variada: uns verdes, amarelos, azuis do céu, etc. Uns laranjas, uns solos ou
soalhos ocres banhados por uma luz que vem dos confins, tornando-se térrea.
Talvez de uma lua que não se vê, ou do nascer de um outro sol.
Já em Yves
Tanguy3, o horizonte, a profundidade, esbate-se definitivamente,
dir-se-ia, até ao fundo sem fundo, complexa relação espacial entre superfície e
profundidade, aspecto explorado noutros registos por Cesariny.4 Escutemos
Breton sobre Tanguy: “Mas com Tanguy, será um novo horizonte, na frente do qual
a paisagem que não é física se irá espalhar.” Veja-se “Jardim Negro” (1928) (Klingsöhr-Leroy, 2005: 92-93).
Se para
além do lunar e do terrestre oníricos se falou de outras planetariedades,
de espaços extraterrestres, de outros espaços planetários imaginários,
então estas luminosidades poderão não ser apenas do crepúsculo e da noite,
fenómenos a priori terrestres e lunares (do real e da linguagem
imediata). Talvez sejam sobretudo as possibilidades, em sonho, subconscientes,
do que é terrestre e lunar e do que o não é, onde o irreal e o inconsciente
perpassam.
Se toda a
pintura, como alguém já disse, é uma certa expressão do silêncio, ou, por
outras palavras “A pintura é uma
poesia silenciosa” (Simónides)5, como poderemos experienciar
esse silêncio na pintura de Seixas e de Chirico? Por exemplo, nas estátuas
vivas de Seixas, que talvez sejam mudas, emitindo alguma sonoridade quase
velada e sem a palavra, e nas atmosferas onde talvez apenas se oiça e sinta a
brisa ou um rumor enquanto linguagem do espaço. E, por exemplo, em Chirico,
quando vemos aquelas cidades quase sempre desertas, o silêncio dos edifícios, dos
manequins onde por vezes se avista uma sombra humana, ou figuras minúsculas no
espaço impossíveis de ouvir e dialogando ao longe. Ou o comboio que ao fundo
passa, rompendo levemente o silêncio.
Aliada e
acentuando cenicamente, digamos, esse silêncio, está a quietude, ou a quase
quietude oscilante da presença dessas figuras, da reverberação dos tons, dessas
atmosferas, de uma hora desconhecida, ou, simplificando: o surgir da noite ou o
despontar da manhã.
Concluindo,
escutemos Cruzeiro Seixas num dos seus poemas: Era um pássaro alto como um mapa / e que devorava o azul / como nós
devoramos o nosso amor. // Era a sombra de uma mão sozinha / num espaço
impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão. // Era a chegada
de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal / dentro de um pequeno
diamante. // Era um arranha-céus / regressado do fundo do mar. // Era um mar em
forma de serpente / dentro da sombra de um lírio. // Era a areia e o vento / como
escravos / atados por dentro ao azul do luar.
Post-scriptum: Há muitos anos dediquei-me a
tempo inteiro às artes plásticas e a exposições. Participei em mostras
colectivas onde estavam presentes obras de Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, que
conheci pessoalmente, Raul Perez, do meu amigo Figueiredo Sobral, Mário Botas, Fernando
Grade, que conheci pessoalmente, para apenas falar dos surrealistas e dos que
por eles passaram. Três exposições em que participei na Perve Galeria – Arte e
Multimédia, onde estavam patentes obras de Cruzeiro Seixas: 1. Arte Contemporânea – Leiria – 2001; 2. Razões de Existir
– Lisboa – 2002; 3. Arte
Contemporânea no Hospital Júlio de Matos – Lisboa - 2003.
NOTAS: 1)Entrevista a João Pinharanda conduzida por Raquel Santos. Em linha:
Arquivo RTP – Mário Cesariny (2005) – https://arquivos.rtp.pt/conteudos/mario-cesariny/
2) Seixas no “Inquérito sobre o centenário da escrita automática”, (Seixas,
2019: 10). “O surrealismo em princípio só deve ter uma faceta, que era a de
Breton. Tão limitada naturalmente quanto o ser humano é. O Breton era um homem
como nós, que muitas vezes acertava e outras vezes não acertava tanto.”
(SEIXAS, 2017: 14).
3) Cathrin Klingsöhr-Leroy relata-nos a
experiência inaugural de Tanguy com a pintura: “Yves Tanguy sentiu a vocação de
pintor aos 22 anos de idade. A partir da plataforma aberta de um autocarro de
Paris ele viu duas pinturas de Giorgio de Chirico expostas na montra da Galerie
Paul Guillaume na Rue de la Boétie. Um deles era “Cérebro de Criança” (Klingsöhr-Leroy,
2005: 92) 5) Cf. TAVARES, 2019. Ver ligação respectiva nas
“Referências”. 6) “A pintura é uma
poesia silenciosa e a poesia é uma pintura que fala” (Simónides – 556 a.C – 448
a.C).
Referências
Em tempos
de pandemia, limitei-me à consulta online das obras de Cruzeiro Seixas,
salvo algumas excepções (ver Post scriptum). Contando também com
a experiência de ver obras de Seixas ao vivo. Audoin, Philippe (1973). Les Surréalistes.
Paris: Seuil, écrivains de toujours. De Chirico, Giorgio (2004). Memorias de mi Vida. Trad. Sofía Calvo.
Madrid: Editorial Sintesis. García-Bermejo, José Maria Faerna (1995). De Chirico. col.
Grandes Pintores do séc. XX. Madrid: Globus. Klingsöhr-Leroy, Cathrin
(2005). O Surrealismo. trad. João Bernardo Paiva Boléo. Tashen. Seixas, Cruzeiro
(2017). “Conversa com Cruzeiro Seixas”, Carlos Serra, Helena Carvalho, Joana
Lima, Rui Sousa, e Sofia Santos, A Ideia, n.º 81/83/84. Évora. Seixas, Cruzeiro (2019). “Inquérito sobre o centenário da
escrita automática”, A Ideia, n.º 87/88/89. Évora. Tavares, Luís de Barreiros (2019). “O
Surrealismo na pintura de Mário Cesariny”. A Ideia, n.º 87/88/89. Évora.
Catálogos com Cruzeiro Seixas: I Exposição Colectiva de Arte Contemporânea –
Perve Acervo 2001 (Edifício do Banco de Portugal – Leiria). II Razões de
Existir, comemorativa do 1º aniversário da Perve Galeria – Lisboa – 2002. III Acervo
2 (Mostra de Arte Contemporânea no Hospital Júlio de Matos – 2003). IV Ligação
às expos. Perve Galeria: https://pervegaleria.eu/PerveOrg/portfolio.html
V Exposição de Pintura e Escultura do Património da Caixa Geral de Depósitos
(1989). Colaboração Imprensa Nacional da Casa da Moeda.

