segunda-feira, 13 de maio de 2019

Pascoaes e Amadeo: Apontamentos sobre “O Pobre Tolo” e “O Pobre Louco”


                                                       Pascoaes e Amadeo   
                        Apontamentos sobre “O Pobre Tolo” e “O Pobre Louco”
                                                     Luís de Barreiros Tavares


"Pascoaes e Amadeo: Apontamentos sobre 'O Pobre Tolo' e 'O Pobre Louco'" – revista Nova Águia 23, pp. 198-202, Sintra, Zéfiro.

                                    Em memória das minhas primas, Raquel e Rita, que me ensinaram a viver no campo longos anos
                                                                                                                                                    (Rossio ao Sul do Tejo – Abrantes)
                                                                                                                                de poeta e de louco todos temos um pouco
                                                                                                                                                                                            Provérbio                                                          
a) É muito difícil fazer uma aproximação entre algumas pinturas e uma obra literária só porque abordam o tema da loucura e tendo títulos semelhantes: O Pobre Tolo (1923), de Teixeira de Pascoaes (com uma Elegia Satírica em forma poética); as duas pinturas “O Pobre Louco” (1914-15), de Amadeo de Souza-Cardoso. A reflexão sobre a semelhança entre poesia e pintura encontra-se já em Horácio. Ut pictura poesis: “Expressão usada por Horácio na sua Arte Poética (c. 20 a. C.), que significa ‘como a pintura, é a poesia’ e que, apesar de não possuir um significado estrutural, veio a ser interpretada como um princípio de similaridade entre a pintura e poesia. A afinidade entre as duas artes já fora mencionada por Plutarco, o qual atribuiu ao poeta Simónides de Céos o dito segundo o qual ‘a pintura é poesia calada e a poesia, pintura que fala’ (De gloria Atheniensium, 346 F). Na mesma obra (17 F – 18 a), Plutarco esclarece ainda que tal comparação se baseia no facto de pintura e poesia serem, supostamente, imitações da natureza, princípio este que se revelaria fulcral nas reformulações sofridas pela analogia entre ambas as artes ao longo da Antiguidade clássica” (Ut pictura poesis, por Carla Escarduça in Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia – texto em linha).



Fig. 1 “O Pobre Louco”, c.1914-15, óleo sobre cartão, 39,6 x 31,7 cm

b) É certo que Amadeo e Pascoaes afloram por vezes a loucura nas suas obras. Numa sessão “Cidades de Amadeo”, dia 24 de Novembro em Amarante, realizaram-se algumas conferências, entre as quais a de Celeste Natário, bastante conhecedora de Pascoaes, sobre a loucura no escritor e no pintor (grato a Marta Soares pela gentileza da informação). Segundo uma conversa prévia que tive com Celeste Natário, creio que a sua comunicação abordou o livro O Pobre Tolo, do poeta e escritor, e as duas pinturas intituladas “O Pobre Louco”, do pintor. Não tive ainda a oportunidade de ler o respectivo texto. Mas foi a partir daquela conversa sobre estas obras que recolhi, sob a forma de apontamentos, algumas leituras e reflexões sobre as mesmas.

c) Com efeito, talvez se possa fazer uma aproximação entre estas dramáticas pinturas e o extraordinário livro O Pobre Tolo. Escutemos José Tolentino Mendonça no seu Prefácio: “Data de Novembro de 1923 a escrita em prosa desta obra, que sete anos mais tarde, aparece rescrita poeticamente e designada como ‘elegia satírica’. Trata-se de um drama sonhado, uma ‘fantasia ao crepúsculo’ (p. 19) (crepúsculo também da consciência, da razão), que decorre no meio da ponte de S. Gonçalo, em Amarante. Tudo começa pela hesitação de alguém que atravessa a ponte (e o ‘meio’ de qualquer ponte não será isso, uma hesitação materializada?)” (p. 11). Concluindo: “Este texto sonâmbulo, uma espécie de meditação sobre que palavra poderia ser dita depois do fim das palavras, é ainda um ‘quase ver’. Mas, como atesta Pascoaes, ‘o quase é o bastante para inundar de trevas a paisagem’ (p. 131). Que trevas tão luminosas, quero dizer” (p. 16) (ver alínea f). 


Fig. 2 “O Pobre Louco”, c. 1914-15, óleo sobre cartão, 36,5 x 32 cm

d) Conterrâneos, de terras de Amarante, ambos sentiam um fascínio por aquelas paisagens minhotas, montanhosas e por vezes agrestes: “Eis-me de novo nas minhas montanhas, guardando as melhores lembranças da visita que vos fiz” (Carta de Amadeo a Robert Delaunay, 13 de Setembro de 1915). “Minha querida Lúcia: No momento em que te escrevo passa sobre estas montanhas uma formidável tempestade, vento, trovões, chuva. O aspecto é tenebroso […] Chove se Deus a dá e (?) das serras vae tudo de enxurro (Carta de Amadeo a Lucie Sousa Cardoso, Manhufe, 26 de Fevereiro de 1913).

e) Noutro enfoque, lembremos, por exemplo, algumas das extraordinárias passagens de Pascoaes sobre os “penedos”, em O Bailado: “Amei sempre os penedos – esses monstros de granito plantados na solidão dos montes. Cada um encerra o seu enigma e mostra, desde os séculos, a mesma cara bruta donde sai, ao bater-lhe o sol, o mesmo sentimento escuro; a hora efémera de sombra que baila em volta dele…” (p. 36); “A hora passa, mas o penedo conserva-se ainda  milhares de anos” (p. 45); “Os outeiros do outro lado são cortados a prumo sobre amplidões onde campeia a noite sempiterna (p. 57); “Eu amo os penedos e a sua hora efémera de sombra – principalmente a sua hora, o seu traço de união comigo” (p. 37)… Precisamente, há uma dimensão espiritual nesse “traço de união”, nesse momento abrupto da matéria, da rocha inerte que faz ver algo mais no e a partir do humano… “Ah! Se o homem fosse apenas homem, como é só pedra este penedo?!” (p. 36), etc…

f) Pascoaes voga por vezes  em atmosferas que, dir-se-ia, respiram certos estados alucinatórios, de visões ou mesmo de um certo delírio, talvez o seu lado místico. Nas palavras de Eduardo Lourenço “a sua poética romântica e mesmo hiper-romântica”, “a inspiração para ele é tudo” (ver Em Roda Livre - Eduardo Lourenço com Luís de Barreiros Tavares, p.36). No entanto, não sendo eu um entendido em  Pascoaes, creio ser seguro afirmar que a sua obra, pelo menos uma parte significativa, tem sobretudo uma forte carga telúrica: “E o pobre tolo / Vê diante dele a bruta realidade / Erguer-se em grandes píncaros serranos; / Bustos de terra e mármore, relevos / E relevos que aumentam de volume / até à forma enorme do trovão […] E, cá em baixo, o solo é de granito. / E é também uma estátua o pobre tolo; / Bronze de dor, sorrindo… e nos seus olhos / O choro é fina prata liquefeita.” (O Pobre Tolo, p. 195). Ver as anteriores alíneas d) e e). Os exemplos seriam intermináveis. Talvez esta perspectiva vá mais de acordo com a leitura de Luísa Borges, outra conhecedora de Pascoaes, com quem troquei breves impressões: “nada a ver com 'inspiração', mediunidade, loucura, possessão…”. Com loucura, sim…

g) Associado a estas paisagens crepusculares, lunares, penumbráticas e por vezes desoladoras está o louco, ou mais propriamente o personagem de O Pobre Tolo: “É o espectro à luz da lua” (p. 146); “O tolo é o espectro de uma árvore” (expressão várias vezes repetida, p. 139)… Mas n’O Pobre Tolo havia a persistência na bela ponte granítica de São Gonçalo, em Amarante: “Lá está no meio da ponte a ouvir as vozes do Tâmega que emudecem no mês de Agosto – e a contemplar uma paisagem de inverno: uma escultura em antigo bronze com verdete” (p. 146).


Fig. 3 “O Rata”, c. 1914-15, óleo sobre cartão, 38,5 x 37 cm

h) Detenhamo-nos, para já, no quadro de Amadeo: “O Rata” (1914-1915 – exposto na exposição Porto – Lisboa, 1916). Esta pintura inspira-se num curioso personagem real de Amarante, que teria, talvez, alguma coisa a ver com a loucura.  Provavelmente Pascoaes tê-lo-á conhecido. Maria Filomena Molder faz alusão a esta figura meio louca, ou mesmo louca.  É um quadro da mesma época das duas pinturas “O Pobre Louco”. “O Rata seria, segundo informação do Professor António Cardoso, a alcunha de um pobre em Amarante” (Catálogo Raisonné, p. 282). Seria provavelmente aquele que ratava os restos de comida, côdeas, etc., com modos descuidados, famintos, tresloucados, por assim dizer. Dir-se-ia a mesma figura representada nas pinturas dos dois loucos.

i) As alcunhas também são habituais em O Pobre Tolo, fazendo ecoar personagens à margem como o Rata: “Passa a Mocha, de Gatão. Agarrada a um pau, arrasta a sua velhice de porta em porta, a mendigar” (p. 32); “A loucura e o bom senso, a magreza e a gordura – o pobre tolo e o Preguiça que finge de maluco para ganhar a sua vida. Lá está, no meio da ponte, a fazer pantominas, trejeitos e caretas. Estende o chapéu aos transeuntes e ostenta, sobre os ombros de gigante, um perfeito busto romano” (p. 49); “passa o Poupa, que tresanda”; “o Bezerra atrás da vaca”; “… o rouco Micaelo, a bater, furioso como um doido, na pele inofensiva duma pobre cabra que já não existe” (p. 66), etc. “As alcunhas, caricaturas de homens e mulheres, vão passando na ponte de S. Gonçalo, sob o fantasma de uma Alcunha, misteriosa e tremenda, que infunde medo às criancinhas – o Papão” (p. 67).

j) Retomando Amadeo. Veja-se “A bruxa louca – cabeça” (1914), “Tristezas – cabeça” (1914-1915), “Luto –a cabeça – boquilha” (1914-1915). Estas três pinturas e “O Rata” foram expostas no Salão de Festas do Jardim Passos Manoel no Porto (1 a 12 de Novembro de 1916), célebre exposição que se repetiu em Lisboa, na Liga Naval Portuguesa (de 4 a 18 de Dezembro). Uma das duas pinturas intituladas “O Pobre Louco” esteve patente nesta exposição (grato pela informação de Marta Soares; conforme me disse: o “’Catálogo Amadeo, 2016–1916 Porto–Lisboa’ comprova-o”).

l) Não há elementos comprovativos de uma visita de Pascoaes à exposição de Amadeo no Porto  (grato a Marta Soares pela confirmação). Meu querido Amadeo Cardoso: Soube agora da estúpida agressão de que foi víctima. É com a maior indignação que o abraço e lhe desejo rápida cura. Seu muito amigo e admirador, Teixeira de Pascoaes.” “Muito e muito obrigado pelo seu bilhete e pelas reproduções de alguns dos seus mais belos e estranhos trabalhos de superior artista [Edição de autor publicada aquando da referida exposição – 12 reproduções, ver m)]. Também o felicito pelo êxito da sua exposição, que tem sido grande, segundo me constou. Desejo-lhe o maior sucesso, o que será pura justiça e merecidíssima consagração ao seu talento, tão vivo, tão original e ansioso de novas criações. Não ando bem de saúde. Mas hei-de fazer o possível para visitar a sua exposição, esse grande acontecimento artístico“ (Teixeira de Pascoaes, em Amadeo – Fotobiografia, pp. 162 e 163).


Fig. 4 “Cabeça Negra”, 1914, óleo sobre cartão, 23,7 x 18,5 cm

m) Mas na Edição das 12 reproduções consta “Cabeça Negra” (grato a Marta Soares pela indicação). Diríamos que há duas séries ou duas linhagens plásticas nestas cabeças tristes de Amadeo. A pintura “Cabeça Negra” e “A bruxa louca – cabeça” (j)), entre muitas outras, pertencem a uma das séries (1ª série). As pinturas “O Pobre Louco” (tal como “O Rata”, “Tristezas – cabeça” –  ver h), j) ) pertencem à outra série (2ª), com diferentes traços pictóricos relativamente à 1ª. Estes quadros são de dimensões ligeiramente maiores. Ambas as séries partilham a expressão da pobreza e da loucura. Apesar das diferenças picturais, elas cruzam-se nos temas e por vezes plasticamente. Chamaríamos ao conjunto das duas séries cabeças pobres. Estudámos a primeira série no capítulo “Cabeças… Paisagens…” (Amadeo de Souza-Cardoso – A Força da Pintura, pp. 55-58). Assim, as duas pinturas “O Pobre Louco” fazem mais sentido e falam melhor no conjunto dessas cabeças pobres.

n) A força expressiva plástica na sua elementaridade pictórica propositada, aliada a um cromatismo austero e sombrio, dão força ao mundo interior dos personagens ou daquelas cabeças aparentemente fechadas mas abertas num mundo interior de luta pela vida, na pobreza, pela sobrevivência, enfim, por alguma luz, podendo no entanto conduzir ao vazio da loucura. Observem-se os “dois pobres loucos” (Figs. 1 e 2), um olhando para o alto, de olhos abertos, como que cegos, mas parecendo olhar o exterior; o outro, cabisbaixo de olhos fechados, como que olhando para o interior, mas na solidão e desolação do espaço exterior que o rodeia, um “malucar sozinho com as cousas” (O Pobre Tolo, p. 119). Ou um vogar “sonâmbulo” (ver alínea c – Tolentino Mendonça). No entanto, são dois olhares que, no seu excesso, se traduzem um no outro. Enfim, “O Pobre Louco”, este pobre louco em duas versões é, ao mesmo tempo e paradoxalmente, o mesmo e o outro, um e dois… Gestos e posturas um tanto contemplativos, meditativos? Evocando de algum modo, remotamente – e talvez subtilmente – as pinturas icónicas dos místicos e dos santos? Porém, nota bene, com um certo desacerto: o dos traços em bruto loucura…

o) Mas todas aquelas pinturas das duas séries reflectem (ver m)), em tons e expressões sombrios, quer a pobreza, quer a vida campesina e agreste com uma grande densidade plástica apesar do seu ar tosco. Os verdes, castanhos, alguns azuis por vezes, os tons sombrios evocam de alguma maneira as paisagens agrestes e o conturbado mundo interior, em eco às vivências de O Pobre Tolo, em duas amplas dimensões: telúrica e espiritual. Poderíamos pensar aqui no extraordinário poema “O Doido e a Morte”, de Pascoaes.

p) Sabemos que nestes meios o “louco” vagante, ou vagueante, digamos, é uma figura que se salienta a vários títulos. Ele acaba por ser um personagem relevante, fazendo a diferença. E, “de poeta e de louco todos temos um pouco”, como diz o provérbio em epígrafe. O louco talvez seja, afinal, aquele que paradoxalmente está um pouco demasiado fora e um pouco demasiado dentro. O louco que vagueia pelos povoados, povoações, arredores descampados e cidades como Amarante nas primeiras décadas do século XX, é pobre, um miserável, no verdadeiro sentido da palavra (do latim: digno de piedade, de compaixão, até por vezes ao patético, etc.)…

q) Muito provavelmente Pascoaes terá visto várias “cabeças pobres” de Amadeo: “Como Amadeo e Pascoaes se visitavam com alguma frequência, é muito provável que Pascoaes tivesse visto esses loucos no atelier de Amadeo. Foram pintados em Manhufe durante a guerra” (grato a Marta Soares pela nota enviada). “Esses loucos” tê-lo-ão inspirado na escrita de O Pobre Tolo alguns anos mais tarde?

Referências
Amadeo de Souza-Cardoso, Fotobiografia, Margarida Cunha Belém e Mar­garida
Magalhães Ramalho, Dir. Joaquim Vieira, Lisboa, Temas e Debates, 2009.
Amadeo de Souza-Cardoso, Catálogo Raisonné Pintura, 2ª edição, Lisboa, Sistema Solar (Documenta), Fundação Calouste Gulbenkian, 2016.
Amadeo Souza-Cardoso, 2016–1916 Porto–Lisboa, Porto, co-edição Museu
Nacional de Soares dos Reis, 2016 [Catálogo da expo­sição].
Eduardo Lourenço com Luís de Barreiros Tavares, Em Roda Livre, Lisboa e Linda-a-Velha, MIL e Nova Águia, DG Edições, Março 2016.
Teixeira de Pascoaes, Antologia Poética, Lisboa, Guimarães ed., 1962.
Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987.
Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo, Prefácio de José Tolentino Mendonça, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000.


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