sábado, 27 de outubro de 2018

Pessoa na poesia de Manoel Tavares Rodrigues-Leal

              
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a caes ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega… 
Excerto de um poema de Álvaro de Campos – c. 1914                                           




Luís de Barreiros Tavares, “Pessoa na Poesia de Manoel Tavares Rodrigues-Leal”Revista Nova Águia, nº 22, 2º semestre, 2017,  pp. 212-215, Sintra, Zéfiro. [com ligeira revisão]






Fernando Pessoa - desenho de Luís de Barreiros Tavares - pincel, tinta da china sobre papel Canson Ingres Vidalon - 2010





                                                                             
                                                                                                         Isento, Pessoa passa                                                                                                                
                                                                                                                                         M.T.R.-Leal[1]

                             Meu amigo Fernando Pessoa, apesar do luar de brilhos, repousa em paz.
                             Companheiro ímpar, quantas intimidades intemporais as tive. Como floresce
                             a foz daquele rio manso que se chama talento e giza o génio, a voz que jamais esquece.

                                                                                                                    M.T.R.-Leal[2]

Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016) escreveu dezenas de belíssimos poemas dedicados a
Fernando Pessoa e aos seus heterónimos, a maior parte deles ainda inéditos. Alguns foram já publicados nas revistas Nova Águia e Caliban. É certo que nas últimas fases da sua obra, e no fim da sua vida, se afastou do “supra-Camões”[3]. Todavia, não deixa de reconhecer “o peso de Fernando Pessoa sobre qualquer poeta português, ainda que eventualmente grande”[4]. E não terá Pessoa, por seu turno, pretendido libertar-se do peso do grande poeta e autor de Os Lusíadas, aludindo-se daquele modo?

Este breve ensaio reúne alguns tópicos sobre vários poemas inéditos de Rodrigues-Leal dedicados a Fernando Pessoa nas décadas de 70-80-90 do século passado. Poeta de linhagem e influência pessoanas, especialmente quando retratou em versos , inigualavelmente, o poeta de "Ode Marítima" e de "Tabacaria". Escutemos, se assim se pode dizer, este poema inicial, pedra de toque deste estudo “(in memoriam de Fernando Pessoa)”:
                                                                 

Silhueta negra inconsútil
Aí vai ele descendo o Chiado
Não há passo sem passado
Aí vais tu Fernando absolutamente inútil
Verme irradiando poesia
Somando a um dia mais um dia
Talvez fútil          
Mas um verme sob a lua danado

És poeta
Não… viajas,
Sereno ser jamais,
Apenas versos contumazes
De um sol de profeta
Rindo rindo       risos limpos       e triviais…[5]

Neste e em quase todos os poemas evocando Pessoa, Manoel Tavares Rodrigues-Leal cruza três dimensões do grande poeta. O homem citadino e passante do Chiado, Baixa e Rossio, o funcionário e o poeta ou escritor. Estas facetas ou dimensões cruzam-se. Ou melhor, cada uma reflecte, transpirando e transfluindo numa certa osmose a atmosfera das outras.
“Silhueta negra inconsútil / Aí vai ele descendo o Chiado”. M.T.R.-Leal consegue captar a atmosfera das célebres fotografias de Pessoa descendo o Chiado. Assim, quase visionamos imaginariamente o modo de andar de Pessoa. “Não há passo sem passado”. O passo adiante só o é com o passado (do) passo dado. Há, inclusivamente, uma série de cinco fotografias onde Pessoa – na Baixa, Chiado ou Rossio – caminha com o seu amigo de Orpheu Augusto Ferreira Gomes. Recentemente montou-se uma sequência destas imagens em modo de pequeno filme onde os passos do Poeta são reconstituídos. Estas sequências mostram como Pessoa apreciava a captação dos momentos da marcha.
Dir-se-ia uma certa relação da escrita com o caminhar. Este poema de Rodrigues-Leal descreve, nos movimentos das palavras em versos, o movimento sincopado daquela figura estilizada e inteiriça (“inconsútil”).  Ele ecoa os passos eternizados naquelas imagens fotográficas.
Eis um outro poema confluindo o caminhar, o exterior citadino de Lisboa e, de algum modo, a meditação, ou seja, a preparação para a escrita:

Pessoa assinava sua solidão
quando descia o Chiado, suportava a imagem de um amigo,
quando o futuro premonia [6] e dialogava, mentalmente, com Mário 
[7].
Quando um vento gelado soprava e ele compunha poemas
imerso em álcool e azuis secretos, ele ilibado do furor e fogo antigo
dos deuses, senhor da assimetria da loucura, servo do teorema.
E quando o rubro sol se despedia, ele jazia, bebedor e sábio.
[8]

Ou ainda este breve poema intitulado “Fernando Pessoa”:
o suor do percurso de “Pessoa”
cria beleza
gera símbolos de angústia       a frescura de Lisboa
lendo ruas ilesas     rectas
ilhas dispersas [9]                                                                  

Retomando o poema inicial: “Silhueta negra inconsútil / Aí vai ele descendo o Chiado”. Silhueta ou imagem recortada, como uma letra ou figura emergente das folhas pautadas, lembrando o semi-heterónimo Bernardo Soares, simples ajudante de guarda-livros, criado por ele: Pessoa. No Livro do Desassossego, Soares descreve a sua vida na cidade de Lisboa e na Rua dos Douradores, de alguma maneira em cumplicidade de espelhos e de alma com o ortónimo Fernando Pessoa[10]. Pessoa trabalhou como secretário, tradutor e correspondente estrangeiro de escritórios comerciais, desempenhando funções próximas das de Bernardo Soares. Conheceram-se numa pequena casa de pasto frequentada por ambos: "Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."[11]

“Aí vais tu Fernando absolutamente inútil / Verme irradiando poesia / Somando a um dia mais um dia”. Estes três versos revelam de algum modo a atmosfera do tédio. O indefinido tédio onde por vezes se divisa uma estranha beleza descrita e pensada por Bernardo Soares no Livro do Desassossego:

Ninguém ainda definiu, com linguagem com que compreendesse quem o não tivesse experimentado, o que é o tédio.
[…]
E é isto que eu sinto ante a beleza plácida desta tarde que finda imperecivelmente. Olho o céu alto e claro, onde coisas vagas, róseas, como sombras de nuvens, são uma penugem impalpável de uma vida alada e longínqua. Baixo os olhos sobre o rio, onde a água, não mais que levemente trémula, é de um azul que parece espelhado de um céu mais profundo.[12]

Escutemos Álvaro de Campos:
O Chiado sabe-me a açorda.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo
Mas nem ali há universo.
O tédio persiste como uma mão regando no escuro.[13]

Em eco a Bernardo Soares e a Álvaro de Campos, leia-se este curto poema “(Em memória de Fernando Pessoa)”, de 1992:

a sua figura frágil e fugidia
o tédio e a tarde (descendo o Chiado)
morrendo o dia
de tão alado o povoava e o bebia
[14]

De novo o poema inicial. “Verme irradiando poesia […] Mas um verme sob a lua danado”. A poesia parece aqui vingar, votada à imensidão da noite. Ela entrega-se ao luar e a essa noite imensa, noite que tanto inspirou e povoou as páginas do Livro do Desassossego:

Lento, no luar lá fora da noite lenta, o vento agita coisas que fazem sombra a mexer. Não é talvez senão a roupa que deixaram estendida no andar mais alto, mas a sombra, em si, não conhece camisas e flutua impalpável num acordo mudo com tudo.[15]

Mas também à luz solar, a uma certa irreverência e afirmação da vida. Dir-se-ia mesmo uma celebração da vida ou alegria de viver:

És poeta
Não… viajas
[16],
Sereno ser jamais,
Apenas versos contumazes
De um sol de profeta
Rindo rindo       risos limpos       e triviais…     
E a celebração da manhã e luz de Lisboa, neste passo de um outro poema de 1976:
Afinal, Pessoa era imponderável, escrevia e a sua melancolia,
ao amanhecer era água(ardente).
e todo o oiro do poema se escoa em terrestres ângulos.
[17]

O poema, os poemas evocam Pessoa, Soares, Campos...? O mais importante aqui é a intuição e captação das atmosferas vivenciais de Pessoa (o homem, o poeta, o funcionário e os seus vários outros[18]…), o espírito de Pessoa na sua heterogeneidade.  
Intuição e captação de M.T.R.-Leal  nestes e noutros belíssimos poemas.
.
Concluindo, escutemos mais um poema. Evocação, retrato poemático de Pessoa, sem que deixe de manifestar-se a singularidade inconfundível, a voz pessoal do poema de Manoel Tavares Rodrigues-Leal:

Como Pessoa passeava no Chiado
Seu engenho, seu génio, seu ócio, rosto debruçado sobre.
Assim passeio,“Lisbon Revisited”
[19], lírico e tão pensado, pobre mas doado
E como Pessoa, fingidor do fingimento mais pungente,
E sofro, como tu, mestre, o caos, o “descalabro a ócio e estrelas”
[20], esse pensamento urgente.
A pensar o pensamento que não há, habito o irreal umbigo do real,
Que é rigoroso retrato de mim-mesmo, imóvel e transeunte.
Fernando Pessoa e Manoel Tavares Rodrigues-Leal, ambos irmãos, ambos gente,
Mas naufragados: assisto-vos como poetas coincidentes, como poentes.
[21]


Post Scriptum

Escolher modos de não agir foi sempre a atenção e o escrúpulo da minha vida

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, trecho 120




Luís de Barreiros Tavares 


Referências
Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural – a ficção dos heterónimos, introdução, organização e notas António Quadros, Europa-América, Lisboa, 1986.
Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas e páginas autobiográficas, introdução, organização e notas de António Quadros, Europa-América, Lisboa, 1986.
Fernando Pessoa, Álvaro de Campos - Livro de Versos, edição crítica, introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes, Estampa, Lisboa, 1993. 

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, composto por Bernardo Soares, org. Richard Zenith, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011.
Luís de Barreiros Tavares, «Almada Negreiros e os Retratos de Fernando Pessoa», Revista Nova Águia, nº 21, 1º semestre, 2018, pp. 140-144, Zéfiro. 

Manoel Tavares Rodrigues-Leal: cadernos de inéditos: Limae Labor (1973-75); Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX) (1976); Poemana (1976); caderno sem título (1976); A prostituição dócil (1985); (Des)construção da fala [var. “do canto”] (1992); O uso do cio (1992). 






[1] Primeiro verso de um poema ( “Ausência de Fernando Pessoa” – 19-8-1975), do caderno Limae Labor.
[2] Belas – 19-9-76. Do caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX). Um dos cadernos escritos na Casa de saúde de Belas: “Belas, casa de saúde mental; manicómio para gente fina; uma duquesa iria para ali” (M.T.R.-Leal).
[3] Cf. Fernando Pessoa, Textos de Intervenção Social e Cultural – a ficção dos heterónimos, p. 35. No início do  caderno Limae Labor (1973-75) encontra-se a seguinte inscrição: “Em memória de Fernando Pessoa (Supra-Camões)”.
[4] Numa breve entrevista registada em vídeo (2014).
[5] Lx. 30-11-85 – do caderno A prostituição dócil.
[6] Para ser breve, “premonia” parece aqui uma liberdade poética, de “premonição”.
[7] Referindo-se a Mário de Sá-Carneiro
[8] Belas – 21-9-76.  Do caderno Fragmentos de um livro dividido (Anónimo do séc. XX).
[9] Lx.ª 18-11-92 – do caderno (Des)construção da fala [var. “do canto”].
[10] Não abordarei aqui a orto-heteronímia de Pessoa. A este propósito leia-se a carta a Adolfo Casais Monteiro (13-01-1935), onde Pessoa descreve a génese dos heterónimos Caeiro, Campos e Reis (14-03-1914 – “foi o dia triunfal da minha vida”), e chega mesmo a considerar Caeiro seu mestre (Escritos Íntimos, Cartas e páginas autobiográficas). Vj. Luís de Barreiros Tavares, «Almada Negreiros e os Retratos de Fernando Pessoa», Revista Nova Águia, nº 21. 
[11] Cf. a mesma carta a Adolfo Casais Monteiro (13-01-1935). Vj. Prefácio de Pessoa ao Livro do Desassossego.
[12] Livro do Desassossego, trecho 381.
[13] Fernando Pessoa, Álvaro de Campos - Livro de Versos, 1993,  p. 379. No “Arquivo Pessoa” online (Obra édita) coloca-se a seguinte interrogação relativamente à autoria deste poema: “Bernardo Soares?”. “(O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos […])” (carta a Adolfo Casais Monteiro – 13-01-1935; ver notas 10 e 11).
[14] Lx. 29-2-92 – do caderno O uso do cio.
[15] LdD, trecho 151.
[16] Talvez em alusão a uma outra carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 20-1-1935 (a que se seguiu à anterior carta aqui referida – ver notas 10, 11 e 13): “O que sou essencialmente – por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja – é dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva a que aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterónimos, conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, VIAJO.
[17] Lx. 17-3-76 – do caderno Poemana.
[18] Os heterónimos Caeiro, Campos e Reis acompanham-no. Eles povoam o universo mental e vivencial do seu dia-a-dia e na sua Lisboa da Baixa, Rossio e Chiado, outro seu mundo paralelo de gestação da escrita: Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve” (carta a Adolfo Casais Monteiro – 13-01-1935; ver notas 10, 11 e 13 ).
[19] Evocando um poema de Álvaro de Campos.
[20] Evocando um outro poema de Campos.
[21] Lx. 28-8-76 – de um caderno sem título.







Fernando Pessoa - desenho de Luís de Barreiros Tavares - pincel, tinta da china sobre papel Canson Ingres Vidalon - 2010


"Pessoa, persona, pessoa como eu" – Filme documentário – Curta metragem

  Filme documentário (c 25 min): "Pessoa, persona, pessoa como eu". Um olhar sobre Fernando Pessoa – por Manoel Tavares Rodrigues-...